BERESHIT ( O INICíO)
Capítulo 1
Toda história tem seu início e suas dificuldades. No entanto, não há nada mais dramático do que um amor improvável. Mesmo entre as fendas das diferenças e do ódio, a semente de um sentimento proibido floresce; afinal, o amor conquista tudo.
-Ariel Ben Moshe
O Peso da Tradição
Ariel é a personificação da herança que carrega. Criado sob os pilares da fé, da disciplina e do respeito aos ancestrais, ele é um homem de silêncios profundos e convicções inabaláveis. Seu sobrenome, Ben Moshe não é apenas um nome, mas um lembrete constante de suas responsabilidades perante sua comunidade e sua família. Sereno, porém firme. Ariel não busca o conflito, mas possui uma resiliência silenciosa que irrita quem tenta desestabilizá-lo. Ele vê o mundo através da lente da preservação: de sua cultura, de seu povo e de seus valores.
-Vanessa
A Voz da Resistência
Vanessa vive na linha de frente. Militante fervorosa e intelectualmente ácida, ela construiu sua identidade sobre a desconstrução de estruturas que considera opressoras. Para ela, o mundo é dividido entre opressores e oprimidos, e ela não tem paciência para o que chama de “dogmas arcaicos”. Seu desprezo por homens e sua visão crítica severa sobre as tradições religiosas são o seu escudo contra um mundo que ela considera hostil. Explosiva, articulada e combativa. Vanessa usa o sarcasmo como arma e a militância como armadura. Ela não aceita o “morno”; para ela, tudo é política e tudo é luta.
O Peso do Dever e o Chão da Universidade.
A manhã na casa dos Ben Moshe sempre cheirava a café fresco e ao couro antigo dos livros de oração. Para Ariel, colocar o kipá sobre a cabeça era mais do que um preceito religioso; era vestir sua identidade antes de enfrentar um mundo que nem sempre e compreensivo.
— Não se esqueça de que Shoshana e os pais dela virão para o jantar de Shabat.
— disse sua mãe, enquanto ajeitava o colarinho da camisa do filho com um olhar que misturava orgulho e expectativa.
Ariel apenas assentiu, um nó discreto apertando-lhe a garganta. Shoshana era a escolha perfeita aos olhos da comunidade: doce, devota e vinda de uma linhagem impecável. Casar-se com ela seria o caminho de menor resistência, a garantia de que a chama de seus antepassados continuaria acesa. Para sua família, Shoshana não era apenas uma pretendente; era o porto seguro onde Ariel deveria ancorar sua vida.
A Mesa de Prata e o Silêncio de Ariel
A luz das velas de Shabat refletia nos talheres de prata, criando uma atmosfera de paz que, para Ariel, parecia sufocante. O aroma do chalá (o pão trançado) recém-assado preenchia a sala, e o murmúrio das preces do seu pai buscava elevar o espírito da família. À sua frente, sentava-se Shoshana. Ela era exatamente o que as fotografias e os elogios da sua mãe prometiam: de uma beleza serena, olhos baixos em sinal de modéstia e um sorriso que transmitia uma tranquilidade que Ariel invejava. Ela usava um vestido azul discreto e ouvia atentamente as histórias de Miriam sobre a linhagem da família.
— Shoshana está terminando o curso de Pedagogia — comentou o pai de Ariel, servindo o vinho. — Ela pretende trabalhar na escola da comunidade. É uma vocação nobre, não acha, meu filho?
Ariel despertou de seus pensamentos. — Sim, com certeza. É admirável — respondeu ele, tentando forçar um entusiasmo que não sentia.
Durante o jantar, Shoshana tentou puxar assunto. Ela falava sobre tradições, sobre o futuro e sobre como a vida na comunidade era segura e estruturada. Ela era o “sim” que Ariel deveria dizer para ter uma vida sem conflitos.
— Fiquei sabendo que a universidade está muito agitada ultimamente, Ariel — disse Shoshana, com uma voz doce, mas preocupada. — Deve ser difícil estudar em um lugar com tanta gente… barulhenta e sem valores.
— É um lugar diferente, Shoshana — limitou-se a dizer.
Ao final do jantar, enquanto os pais planejavam próximos encontros, Ariel percebeu o peso do seu destino. A família já via o noivado como algo certo. Shoshana olhava para ele como quem vê um porto seguro. A noite terminou com promessas de novos encontros e o eco suave do riso de Shoshana, que parecia selar um destino de paz e conformidade. No entanto, para Ariel, o silêncio daquela noite foi curto. O conforto da casa dos pais era uma redoma de vidro que ele sabia que seria estilhaçada assim que o sol nascesse.