Herói do Além Vida

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Summary

Adolescência, responsabilidades, pressão. Ele odeia passar por isso. Roberto vive tentando driblar ordens de seus pais, até o dia que, ele o encontrou. Quem ele mesmo chamou.

Status
Complete
Chapters
1
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n/a
Age Rating
13+

O Conto do Herói do Além Vida

Em uma casa simplória no centro de uma cidade tão simples quanto, existia um garoto chamado Roberto. Digo garoto por ele ter completado 13 anos a pouco tempo, o que o fazia adentrar em uma nova fase, a chamada e temida adolescência. Mas Roberto por si só não se interessava nem um pouco em transitar para essa fase, ele sempre afirmava que se sentia muito mais confiante e confortável agindo como sempre agiu, como uma criança que não se preocupava com os males do mundo ou responsabilidades. Tais responsabilidades que ele odiava, odiava tanto elas quanto a pressão dada pelos seus pais que sempre repetiam a mesma coisa, "arrume algo para fazer no futuro". Roberto nunca pensava sobre o que faria da vida quando chegasse a idade adulta, até porque ele nem se interessava em pensar sobre as próximas fases da vida.

O menino odiava tanto a ideia de crescer, a de ter responsabilidades e a pior de todas, a de que um dia não teria mais o cuidado de seus pais, a ideia que hipócritamente o fazia odiar a presença de cada um deles, mesmo que não imaginasse viver sem ambos. A cada dia que se passava, e a cada reclamação e lembrança de que ele teria um futuro pela frente e teria que suportar o próprio "amadurecimento" para isso, o fazia se sentir cada vez mais pressionado, cada vez mais estressado com a vida a qual dali em diante teria que suportar. Ao mesmo tempo que, caso se libertasse dessa vida, não iria aguentar sem ter sua mãe para lhe acordar e pôr o café da manhã e sem o seu pai para alegrar seu dia com suas piadas bobas. Mas pouco importava, na mente pobre de uma criança, aquilo era uma tremenda tortura psicológica dada a ele por "toda a eternidade".

Se pensarmos em uma realidade em que Roberto morasse sozinho e tivesse que lidar com as suas próprias responsabilidades, as mesmas que seus pais sempre tiveram a vida inteira, o garoto provavelmente iria ter uma crise e passar a morar nas ruas. Pelo menos na sua mente, considerava que seus pais queriam que ele se tornasse um "adulto mirim". Sua mãe esperava que, como ele já estava ficando mais velho, teria que aprender a lidar com uma casa o quanto mais cedo possível. Roberto recebeu uma ordem direta a qual por um momento quase ficou surtado por conta da tamanha raiva que sentia ao levar ordens. Não era nenhuma tarefa difícil, o garoto apenas teria que limpar o banheiro. Mas para ele, é como que sua mãe tivesse lhe ordenado algo equivalente a viajar o país inteiro em um dia. Conhecendo o Roberto, o resultado não poderia ser outro, se derramando em cada vez mais vômitos por conta do forte odôr que saia do vaso sanitário que ele mesmo havia entupido.

No fim, sua mãe foi obrigada a ter que limpar o banheiro sozinha. Mas Roberto não considerou aquilo como um auxílio, e sim a uma ofensa grave a sua honra. Seu peito se encheu de vergonha e o momento ficou atrelado em sua mente como um chiclete afundado em um cabelo. Entrou em seu quarto, trancou sua porta e ajoelhou-se no chão. O rosto avermelhado e afundado em lágrimas, o menino sussurrou e grunhiu atrocidades sobre sua mãe, que se ditas em voz alta provavelmente lhe daria dias de castigo.

Dias e dias se passaram após o incidente, porém mesmo assim a raiva do garoto nunca passou. Era comum que à noite, Roberto ficasse sozinho dentro de casa esperando seus pais voltarem de seus trabalhos. Este era o momento do dia o qual ele mais gostava, por conta que nunca havia ninguém para atrapalhar seus solos pensamentos de um mundo sem responsabilidades. Agarrava seu caderno e escrevia enormes discursos sobre o porquê ele deveria ser eternamente cuidado sem ter responsabilidade nenhuma. Um momento, Roberto ouviu a porta se abrir, verificou os sons dos passos, e logo percebeu que apenas o seu pai havia entrado dentro de casa. "Isso é normal", pensou o garoto, que já havia percebido a maior lentidão da mãe ao andar em relação a seu pai.

Porém, quando seu pai passou ao seu lado, caminhando vagarosamente em direção ao seu quarto, Roberto notou no mesmo instante uma grande diferença em sua aparência que sua singela inocência não estava preparada para ver. Seu pai estava com as suas roupas rasgadas e sujas de graxa. Mas o pior era o seu rosto que o garoto mais focava, sujo de sangue em seu lado direito. O homem andava sem expressão, e quando parou ao lado de seu filho, olhou no fundo de seus olhos e apenas lhe disse: "Sua mãe morreu. Em um acidente de carro. Eu vou tomar banho. Amanhã é o funeral dela. Apenas queria que soubesse", isso antes de se virar e continuar o seu caminho para seu quarto.

Roberto ficou paralisado, sem acreditar no que acabara de acontecer. Sentiu medo, não apenas pela notícia, mas também pela forma como foi dada. Seu pai não demonstrou nenhum tipo de tristeza, ou qualquer sentimento de que alguém relativamente normal teria ao perder alguém que ama. Principalmente ele, seu pai, que sempre foi uma pessoa extremamente extrovertida, que divertia as outras pessoas e sempre foi alguém emotivo, que já despencava em lágrimas apenas por esquecer o aniversário de alguém. Mas naquele momento, sem lágrimas, sem gritos, sem desespero. Apenas um tom frio e antipático.

O garoto entrou em seu quarto, trancou a porta e se cobriu com a maior quantidade de cobertores que pôde encontrar, quase não conseguindo respirar. Esse era o primeiro contato de Roberto com o luto. Mas mesmo assim procurava motivos para se alegrar de tal fato. Sua mãe acabou de falecer, o que significava que teria "uma pessoa a menos" para te dizer o que fazer da vida. Porém seu pensamento egoísta não escondia a verdade do que sentia, deixando escorrer uma gota de lágrima enquanto pensava em sua mãe.

Roberto começou a se acalmar, esperando que no outro dia, tudo fosse uma simples piada que teu pai insistia em realizar todo ano naquela mesma data. Dessa vez uma piada muito de mau gosto. Fechou os olhos e inspirou, segurou e respirou, quando finalmente sentiu que iria conseguir cochilar pelo menos por algumas horas, ouviu uma batida em sua janela. Roberto levantou de sua cama assustado, pensou ser uma assombração, seres a qual ele acreditava do fundo do peito que existiam, e a coisa de que tinha mais medo em todo o mundo.

Cauteloso, se levantou de sua cama, andando vagamente em direção a janela. Abriu as cortinas e olhou em sua direção, se jogando para trás e caindo de costas assustado com o que estava ali em sua frente. Um sujeito parado, com um casaco de couro marrom e uma touca acoplada em uma máscara de gás acinzentada, suja com alguma coisa escura que Roberto não conseguia saber o que era.

Antes que ele pudesse gritar pelo seu pai, a pessoa misteriosa colocou um papel velho com um texto escrito em sua janela. "Não importa o quão feio eu seja, eu sei que está curioso para saber quem eu sou, e eu posso te mostrar isso do jeito mais divertido possível, te ensinando a como ser um super-herói como eu sou".

Os olhos de Roberto saíram de amedrontados para completamente maravilhados. O garoto quase ignorava o fato de sua mãe ter falecido naquele mesmo dia, para focar em um desejo adormecido em sua mente a muito tempo, deixado largado após crescer. Quando era menor, Roberto amava super-heróis e sempre sonhou se um dia ele teria a capacidade de se tornar um.

Não pensou duas vezes antes de destrancar a janela. Quase no mesmo instante em que a trinca saiu, o homem bateu no vidro e a abriu devagar, sempre olhando fixamente para o rosto do menino. Roberto pensou que talvez não teria sido uma boa ideia deixar aquele homem entrar. Percebeu pela sua voz que aquele não era o seu pai. Era uma voz rouca, grossa e desconhecida, de um homem que pareceu ter uma certa idade avançada. 

"Eu já venho te observando faz algum tempo, e eu entendo a sua frustração em relação aos seus pais, eles não entendem que você sempre será um garotinho, e o seu desejo de ser cuidado para toda a eternidade deve ser respeitado".

Ao mesmo tempo que estava encantado com as palavras do homem, sentiu desconfiança, não era para o homem conhecer tanto assim sobre sua vida. "Eu adoraria poder salvar as pessoas e ter meus próprios super poderes, mas isso me daria muitas responsabilidades idiotas, e eu não quero nem um pouco isso".

O homem assentiu, inclinando levemente sua cabeça em concordância com o garoto. Mas lhe garantiu que Roberto iria salvar quantas pessoas achasse divertido salvar, e no momento que cansasse, ele mesmo iria terminar o trabalho. A única coisa que deveria fazer era segui-lo, sem responsabilidades.

O garoto ingênuo resolveu acreditar na palavra do homem, pegou suas coisas, pulou da janela e o seguiu com a esperança de encontrar uma vida melhor. Afinal, ele não queria estar naquela casa que lembrasse sua mãe, e ainda tendo de viver pelo mandato de seu pai.

Horas e horas andando. Em meio da madrugada, Roberto já se entrelaçava em seus próprios membros que tremiam pelo medo, mas insistia em pensar que era por conta do frio. O homem levou em um lugar para dentro da mata, em uma construção quadriculada a qual parecia estar abandonada a muito tempo. As paredes eram rachadas e totalmente dominadas por musgos e plantas variadas. Pelo corredor eles andaram até entrarem em uma sala que parecia ser a principal. Roberto olhou para os lados, celas e mais celas que pareciam não ter um fim certo. No centro, havia pessoas deitadas no chão. "Essa é a nossa base? Esses são nossos aliados? Ou a base do vilão? Nós vamos salvar elas?"

O homem da máscara de gás lentamente olhou para o seu rosto, Roberto na hora percebeu que deveria ficar quieto. As pessoas deitadas levantaram, e no momento em que viram Roberto o cumprimentaram e lhes deu boas vindas. O garoto estava amando a situação, amava ser o centro das atenções em qualquer momento. Mas levou um susto ao de repente todas as pessoas começarem a correr dele, e entrarem em uma sala escura no outro lado da sala principal.

Roberto havia ficado confuso com o comportamento deles, então começou a se virar, procurando na sala algo que poderia ter os espantado. Depois de tanto analisar, percebeu uma ponta afiada escondia atrás de um pano no canto da sala. Ao se aproximar, viu que aquilo era uma foice enferrujada, manchada com sangue que já parecia velho, e que era duas vezes maior do que ele. Roberto estranhou e começou a chorar, o medo, o estresse e o desespero, todos voltaram novamente com maior força. Sentou-se no chão e esperneou como se estivesse sendo negado de algo. O homem apenas precisou olhar para ele, para que ele parasse e soubesse que deveria entrar naquela sala junto com todos os outros.

Um tapete da cor azul no ambiente escuro pôde ser visto enquanto ele entrava, vagarosamente colocou um pé após o outro. Ao lado esquerdo havia mais celas do que a outra sala, e uma delas apresentava uma vela em seu meio que a iluminava como o Sol em pleno no dia. Roberto se aproximou ao perceber que existia uma pessoa deitada ali. Olhou com atenção e ao segurar as barras, o garoto deu o maior grito que conseguiu dar com todas as forças que tinha no momento. O corpo de sua mãe estava deitado dentro daquela cela. "Eu não quero ser mais super-herói!" O garoto suplicava ao homem para que pudesse voltar para casa. Entretanto ao olhar novamente percebeu que o corpo começou a se levantar, a mãe de Roberto olhou com o sorriso gracioso e acenou com a mão. "Eu senti sua falta".

Roberto começou a respirar pesado, ficou com raiva novamente, e começou a gritar com o homem antes de pular em cima dele tentando atacar. O homem simplesmente desviou, pegou o seu pescoço e o colocou à frente de outra cela. A criança inocente não suportou o que viu. Existia um homem amarrado sentado em uma cadeira, o indivíduo levantou a cabeça que estava olhando para baixo, e com a voz trêmula começou a tentar conversar com Roberto.

"Ela sempre odiou tudo que eu fiz por nós, e você sempre odiou tudo que eu tentei fazer por ti, mas aqui, aqui todas as suas vontades poderão ser realizadas, ela poderá ter tudo que quiser entregue em suas mãos, e você, finalmente poderá viver seu mundo, sem responsabilidades, filho".

Roberto se jogou para trás. "Não, aqui não há lugar bom para nós! Eu quero que tudo volte ao normal, por favor! Eu lavo o banheiro, eu varro a casa eu lavo a louça, mas vamos para casa! Mamãe? Papai?"

O homem da máscara de gás pousou suavemente a mão sobre o ombro do menino, que devolveu com um tapa mantendo o máximo de distância que conseguia.

"Eu sei que você quer saber quem eu sou, você lembra que eu te disse. Agora você já está aqui, agora você tem o direito de saber"

O homem arrancou a touca de sua cabeça, e colocou os dedos no bocal da máscara, cautelosamente retirando-a. Em pouco tempo seu rosto estava exposto, revelando-se quem era para o garoto.

Roberto se desequilibrou e caiu para trás, todo seu corpo começou a se tremer, e seus olhos ficaram esbugalhados. O que o assustava não era o rosto, e sim a sua falta. A máscara escondia um rosto que mostrava apenas o crânio daquele rapaz, que era acompanhado por um capuz preto. Em seguida, o homem se dirigiu a sala principal, agarrou a foice que estava no chão, se aproximou de Roberto enquanto agachava e o entregou. "Você agora é o herói, o Herói do Além Vida".

Roberto agora entendia o que o homem era. Não um homem normal, não uma piada. Roberto agora entendia onde estava, aquela era sua nova casa, para sempre. E agora teria que estar pronto para viver uma vida sem responsabilidades, por toda a eternidade, como sempre desejou. E assim, sua vida como um super herói havia finalmente começado.