Capítulo 1
Riddick
Por mais que tentamos não cometer erros, sempre o destino dá uma virada, e aquele erro que você fez de tudo para evitar, te acerta em cheio no meio da cara.
Resumindo tudo: O carma é uma merda.
Eu não sou uma pessoa boa, e nem quero ser, afinal, ninguém é tão bom assim. Também não sou tão ruim, posso ser denominado como um homem marcado pelas guerras, violências ou qualquer coisa que possa desestabilizar um ser humano. Tenho a mente quebrada, e não faço questão de reconstruir.
Eu aprendi desde cedo para nunca ser bonzinho demais, pois caras bons correm o risco de levar um abraço pela frente, e uma facada por trás. Foi através desse pensamento que construí meu império, minha empresa de segurança. De um simples soldado, quer dizer, eu não era um simples soldado, eu era o melhor no que fazia. Mas voltando ao que estávamos falando, hoje eu sou um homem bem requisitado, faço de tudo um pouco. Caço fugitivos, forneço segurança e quando o governo fica de mãos atadas, é a mim que eles procuram para consertar suas cagadas.
Acabamos de chegar ao Brasil, precisamente em Salvador, a capital da Bahia. Se eu não tivesse vindo a trabalho, com certeza daria uma volta para conhecer a cidade, a qual é muito linda por sinal. Mas como vim com outro propósito em mente, descartei qualquer coisa que me tire o foco.
Estava distraído com meus devaneios quando me surpreendi com uma bela visão. É a mulher mais linda que já vi, e olha que já vi muitas. Negra, com um olhar marcante, seu corpo não dá para ver, infelizmente ela está dentro de um ônibus e pela sua expressão, não está muito bem. Sua fisionomia é de uma pessoa triste, eu vi o exato momento em que limpou uma lágrima. Eu não entendo por que isso me incomodou, eu nem a conheço, mas de alguma forma ela me chamou a atenção.
— John, John... — Saí do transe, quando JJ me chamou. Não gostei de ser interrompido.
— O quê? — Falei exasperado. Sou grosso, não posso mudar esse fato, na verdade não faço nenhuma questão de fazer algo do tipo.
— O que tanto você olha ali? — Questionou, já procurando. Eu não entendo o porquê de ser tão curioso, merda.
— Não lhe interessa porra! — Falei frustrado. Agora me perguntem, por quê? Não faço a menor ideia. Mesmo eu dizendo que não o interessa, ele fez questão de olhar e deu um assovio. Esse puto.
— Puta merda, que negra gata! — Eu lancei um olhar mortal a ele que levantou suas mãos em rendição.
— Você é um idiota! — Falei sem paciência. Não sei qual é o maldito problema comigo.
— Calma chefinho! — riu debochado. — Deixa a Mara saber que você está olhando mulheres gostosas.
O que é que Mara tem a ver com isso? Ela não tem nada sério comigo. Nós só transamos e pronto. Juntamos o útil ao agradável. Eu não sei de onde ele tira tanta merda.
— Vai se lascar JJ. — Fiz questão de mostrar o dedo do meio para não haver dúvidas. Esse miserável dá sorte que, somos amigos, ou, eu partiria a cara dele agora mesmo.
Só em pensar que ele olhou aquela deusa, afinal, eu a vi primeiro. Vocês devem estar pensando que louco, que sem noção. Mas fodam-se todos, eu sempre pego o que quero. E se meu pau quer aquela negra gostosa, quem sou eu para recusar? Quem sabe quando terminar essa operação, eu não vá fazer uma visita a ela, e até possa consolá-la de várias formas possíveis. Devem está se perguntando, como eu a encontraria. Simples! Basta apenas eu ver a pessoa, posso hackear as câmeras de trânsitos. Encontro-a em menos de dez minutos. Tudo bem que parece trabalhoso, mas eu tenho certeza que valeria super a pena.
Chegamos ao hotel, e Mara vem em meu encalço.
— Amor! — Gritou se jogando em cima de mim. Olhei feio para ela.
— Eu já disse para não me chamar de amor, e pare de agir feito uma criança! — Bradei nervoso. Detesto insistir em algo que já falei várias e várias vezes.
— Desculpa John, eu esqueço... — Proferiu com uma falsa tristeza. Sei que está mentindo. Que faz de propósito.
— John não, porra! Eu já disse para me chamar de Riddick, apenas isso. — Esse negócio de John, fica muito íntimo. E daí que eu transo com ela? A partir do momento que eu a deixar me chamar pelo primeiro nome, o nível aumenta, e eu não quero isso de jeito nenhum.
— Você age como se não fossemos íntimos. — Falou com os olhos marejados. Tudo fingimento, claro.
E não somos.
— Nós só transamos Mara, ponha isso em sua cabeça, não passará disso. — Falei grosso.
— Eu o amo! — Tentou tocar em mim, porém, não deixei. — Você não vai falar nada? — Questionou chorosa, e por incrível que pareça, não senti nada! Quando eu digo nada, é nada mesmo.
— O que eu posso dizer? — Dei de ombros, demonstrando o quanto estou cagando e andando para essa porra de fingimento.
— Que me ama também! — Falou com uma tristeza fingida.
Está na hora, de acabar, com essa palhaçada.
— Se eu falasse isso estaria mentindo e, eu odeio mentiras. — Suspendi seu queixo para que me fitasse nos olhos. — Já chega Mara, não faça eu me arrepender de tê-la trazido. Agora vá para porra do seu quarto e se recomponha, temos muito trabalho pela frente.
— Você é um grosso! — Ela saiu batendo o pé, e, a única coisa que eu podia pensar, é no quanto é infantil.
O que eu vi nela? Qual foi o atrativo mesmo? Paro para pensar, e não vem nada em minha mente.
Fui para o quarto, tomei um banho, ainda com aquela deusa em minha mente. Claro que eu preciso tirar essa frustração de mim, por que não está dando certo ficar só no pensamento.
Depois do descanso, me levantei e reuni toda a equipe, quero resolver isso logo, ficar livre para botar meu plano pessoal em prática. Ao término da reunião, resolvemos atacar no dia seguinte, o horário noturno é o momento mais propício.
A noite transcorreu bem, dormi feito uma pedra. Na manhã seguinte, repassamos o plano mais uma vez, para nada sair errado. Só uma coisa me incomodava, e antes de entrarmos no prédio, para fazer o planejado, que é pegar o fugitivo. Falei o que pensava.
— Mara, eu não quero que você vá! — Falei incisivo. Não sou nenhuma criança, faço isso há muito tempo, e sei que é muito perigoso. Na verdade, ela é uma mulher muito mimada, quer tudo do jeito dela.
— Amor, não se preocupe, eu darei conta. — Sorriu maliciosa. — Sou boa, no que faço.
— Já conversamos sobre isso. Não me chame assim! — Cruzei os braços. — Ainda não estou certo disso. Toda essa situação está me parecendo muito fácil. Eu sinto que há algo errado, apenas não sei o quê.
— Será rápido, eu irei entrar e sair, precisamos pegar esse cara. — Respondeu, certa no que afirmava. Essa mulher é muito insistente.
Detesto ser contrariado. Sou John Riddick, um ex-coronel do corpo de fuzileiros dos Estados Unidos, um franco atirador. Na verdade, tenho muitas condecorações que foram conquistadas através de muitos sangues derramados. Eu não gosto muito de lembrar sobre essa minha fase da vida. Mas a questão é outra. Sou um homem de 30 anos, não posso ser dominado, por uma mulher qualquer. Na verdade, por nenhuma mulher.
— Está bem! Você venceu! — Avisei sério. — Vocês têm cinco minutos, não passem disso. Falei autoritário para a equipe que entraria no prédio. Mara sorriu em contentamento e me deu beijo casto na boca. Eu procuro no meu íntimo, o porquê de ainda estar enrolado com ela, e não encontro nada. Eu não a amo e tão pouco quero iludi-la. Quando terminar esse trabalho, porei um ponto final nisso tudo.
— Vão! — Eu não entrei com eles, mesmo querendo fazer isso, por que existiam coisas muito complexas para se fazer, que só eu posso. Às vezes me arrependo de não ter passado esses conhecimentos que tenho. Mas eu sei por que não fiz isso. Não fiz, pois não achei a pessoa certa.
Estamos atrás de um contrabandista. Ele contrabandeava tudo que você possa imaginar. De drogas, a pessoas. Eu soube de uma fonte segura que ele estaria aqui, o chamam de Trayrom! Particularmente, acho isso uma cafonice, mas tudo bem. Não faço ideia do por que, apenas quero pegá-lo, e acabar com a raça desse desgraçado.
— Equipe diamante, podem entrar! — Falei pelo alto-falante da escuta. Eu tenho muitos homens que trabalham para mim, todos altamente treinados, por mim, é claro. Divido todos em equipes; são quatro ao total: Equipe prata, ouro, bronze e diamante.
— As escutas estão oks? — Perguntei apenas para confirmar. Eu não sei o que, mas sinto que algo não está bem, e pior que isso, está me inquietando.
— JJ, ok!
— Joan, ok!
— Victor, ok!
— Mara, ok!
Todos responderam o chamado, e se prepararam para entrar, eu fiquei na van, olhando pelas câmeras do capacete. JJ foi o primeiro a entrar, e analisou o perímetro e tudo estava limpo. Não deveria está assim. Tinha que pelo menos, ter um guarda, ou, dois para não ter suspeitas.
— John, está tudo limpo. Eu sinto que tem alguma coisa errada! — JJ falou com preocupação em sua voz. Eu tomei uma decisão que era para ter feito antes.
— Recuem todos, isso é uma ordem! — Falei autoritário e todos me responderam, menos Mara. Eu olhei na tela, onde ficava sua câmera, mas havia sido desligada.
— JJ cadê a Mara? — Perguntei, pensando no pior.
— Ela estava aqui até nesse instante. Espera! — Pediu, deixando-me mais aflito.
— O que foi? — Apertei meus punhos.
— Senhor, a casa está toda cheia de explosivos. — Eu senti pela voz dele, que a merda era das grandes.
— Saiam! — Tomei essa decisão, e foi a mais acertada.
— E a Mara? — Joan indagou.
— Saiam! — Repeti a ordem. Chamei Mara pela sua escuta, mas não houve retorno. Do nada sua câmera liga, me deixando em alerta. Eu a vi, cheia de sangue no rosto.
— Está vendo, comandante Riddick! — Uma voz desconhecida pronunciou. Quem será? E como sabe o meu nome?
— Você deve está se perguntando quem sou eu, e como sei o seu nome! — Ele falou debochando. Por acaso tem vidência, porra! Não conseguia ver seu rosto, mas de alguma forma, eu já sabia quem é.
— Trayrom! — Exclamei com asco.
— Bingo! — Proferiu rindo. Desgraçado. A minha vontade, é de ir até lá e destruir cada osso do corpo dele.
— Solte-a imediatamente! — Mandei, como sempre faço.
— Ou o quê? — Demandou troçando com a minha cara. Eu fiquei calado, esperando-o se manifestar. — Vocês invadem a minha casa, e ainda querem mandar em mim! Essa cadela vai morrer por sua causa Riddick. — Avisou enraivecido.
— Seu desgraçado, eu vou acabar com você!
— Shiii! Pare de ameaças vazias. — cuspiu no chão — Sabemos que você nunca vai me encontrar!
— É o que veremos!
— Adeus Riddick! — Apontou com a arma para Mara — Diga adeus a sua namoradinha também.
— Mara! — Gritei aflito.
— Me perdoe amor! — Foi o que ela disse, antes de ele atirar na cabeça dela a sangue frio. Quando me preparava para entrar no prédio, meus soldados estavam chegando e me impediram. Em poucos segundos o prédio explodiu, eu nem pude pegar o seu corpo.
— Eu sinto muito, senhor! — Todos falavam chocados. Olhavam-me com pena. Que porra de piedade! Eu não quero compadecimento de ninguém, droga. Eu só sentia ódio e, mas ódio. Eu vou matá-lo com minhas próprias mãos, acabarei com a raça desse desgraçado, não sei quando, mas, eu vou fazer isso, ou, não me chamo John Riddick.
Dias atuais…
Quatro anos haviam se passado, e nada foi feito. Sempre informações falsas chegavam até mim, só que ainda não desistir. Estou com 34 anos. Possuo as mesmas capacidades de combate, eu acho até que bem melhores. Treino todos os dias sem parar.
Tenho as mesmas equipes trabalhando comigo, porém, o mais chegado a mim continua sendo JJ, ele ainda é o meu braço direito e meu melhor amigo. Lutamos lado a lado no Vietnã.
A minha empresa está situada em New York, várias pessoas de todas as partes do mundo vêm pedir a minha ajuda. Às vezes faço alguns trabalhos Pro Bono, outras vezes não. Eu não sou padre, e tão pouco voluntário. Não faço caridades. Por escolha minha, me tornei um homem frio, quer dizer mais frio do que eu era. Se antes eu não buscava relacionamentos fixos, agora piorou. Só dou prazer e recebo em troca, apenas isso.
Não me acho um homem lindo, mas tenho meus atributos físicos que dão inveja a muitos por aí. Fora meu corpo atlético, sei que elas gostam disso. Eu só dou o que elas querem e nada mais.
— Bom dia senhor Riddick! — Mabel, minha recepcionista falou com um sorriso no rosto, que morreu assim que falei com ela.
— Na minha sala! — O tempo pode passar, mas os hábitos nunca mudam. Sou um homem autoritário, gosto de mandar, me sinto bem assim. O problema é que todos tem medo de mim. Eu prefiro respeito. O respeito pode até ter, só que seus medos sobressaem mais.
— Pois não senhor! — Proferiu nervosa.
— Já providenciou meu novo assistente? — Realmente está difícil trabalhar sem um. O trabalho dobrou.
— Já estou fazendo isso! — Apertava as mãos uma na outra de nervoso.
— Mabel, você sabe que eu detesto pessoas incompetentes, não sabe? — Questionei sério.
— Claro que sei, senhor!
— Então faça o seu trabalho direito. — Mandei me sentando em minha cadeira.
— É que… — Gaguejava, com os olhos cheios de lágrimas.
Grrrr!!! Às vezes cansa estar rodeado de pessoas fracas.
— Desembucha! — Falei sem paciência. Como sinto falta da ação. Está confinado em uma sala não é, e nunca foi para mim.
— Só temos uma candidata senhor! — Revelou receosa.
O quê? Apenas uma?
— Por quê? — Isso realmente surpreendeu-me.
— As pessoas sentem medo de trabalhar para o senhor. — Falou olhando para todos os lados, menos para mim. — Descobriram sobre o seu último assistente. — Parou de falar por causa da olhada que lhe dei.
Levei o idiota em uma missão, e o imbecil deu um troço. Teve um princípio de infarto. Aquele fraco, ridículo, filha da puta, inútil.
— Você disse candidata. Isso quer dizer... — Parei de falar, me sentindo contrariado novamente.
— Mulher, senhor Riddick! — Limpou algo invisível em sua saia social preta. Eu deveria dizer não, mas eu a admiro em querer se candidatar, darei um voto de confiança.
— A contrate, faça algumas perguntas básicas, mesmo assim, contrate. Se ela conseguir ficar uma semana comigo, eu disse, se conseguir, investigue-a. Não posso ter uma desconhecida trabalhando para mim.
— Como o senhor quiser! — Sorriu profissionalmente. — Mas alguma coisa?
— Quero esse assistente para ontem! — Falei dando esse assunto por encerrado. Quando ela saiu, tirei os óculos escuros, detesto usá-los o tempo todo, mas é preciso, se não assusto todos ao meu redor. Sentei-me atrás da minha mesa, abri meu notebook, e fui resolver as minhas pendências, que não são poucas. Meu telefone tocou, e eu atendi a contragosto, preciso urgentemente desse assistente.
— Riddick falando! — Atendi grosseiramente. A pessoa falou o que tinha que falar e eu desliguei o telefone na cara dele. A pessoa que me ligou foi um ex-militar da marinha, nos conhecemos em meio à guerra.
Tanto o Corpo de Fuzileiros Navais, quanto a Marinha americana são administradas e controladas pelo Departamento da Marinha dos Estados Unidos. Apesar de serem dois órgãos militares distintos, o Corpo de Fuzileiros Navais e a Marinha trabalham em estreita colaboração. Por isso que nos conhecemos.
Clarkson trabalha em uma escola de preparação de agentes, conhecida como Excellence. Possui as mesmas funções de Quântico. Ele me pediu para dar uma palestra, eu até queria negar, mas como ele mesmo me lembrou, tenho uma dívida com ele, e eu sempre pago minhas dívidas. Depois de passar muito tempo divagando em minha mente, voltei à droga do trabalho, afinal, ele não se terminará sozinho.