Capítulo 1: Metal Gelado
"Suas asas o levarão aonde seu coração permitir."
— Baliam, o Maior entre nós.
Se desejas dominar este mundo, entenda primeiro a gênese de nossas cicatrizes. Há eras, quando cavaleiros se escondiam atrás de juramentos e o aço das masmorras ecoava, fomos caçados. Grupos de supostos heróis cobiçavam nossos tesouros, mas encontraram apenas o fogo. Nós não apenas os matávamos; nós humilhávamos sua magia e consumíamos sua carne, pois éramos os Dragões — os curadores do conhecimento. Por milênios, nosso julgamento foi o único limite contra o caos. Até que o primeiro de nós caiu. Naquele dia, o mundo esqueceu a prudência e entregou-se à embriaguez do poder.
Muitos de nós abriram as asas e sumiram entre as nuvens, ocultando segredos perigosos da ganância desses seres efêmeros. Outros preferiram as sombras, governando nações por trás de tronos de cinzas. Já os ingênuos... esses tornaram-se apenas ingredientes raros, armas cativas ou troféus nas paredes de reis mimados. Ainda hoje, vejo-me tentado a questionar se os Cromados não foram os verdadeiros sábios desde o princípio. Talvez o erro tenha sido nosso. Enquanto preservávamos o saber, eles respondiam fogo com fogo, cedendo à fome do controle e abraçando o poder absoluto.
— Depois de ouvir esta história ainda deseja dominar este mundo pequeno, Aran Froz?
Ele alonga o corpo, demonstrando seu poder ao exibir o peitoral encouraçado por grandes placas de metal, preenchendo cada centímetro da caverna que chamamos de lar. Suas escamas mostram um contraste entre o ferro enferrujado e o aço polido. O pensamento de uma delas se soltar e despencar sobre mim me assusta tanto quanto seu tamanho. Por mais que seus músculos pareçam colunas de um templo e seus olhos brilhem dourados, os longos pelos brancos atrás de seu pescoço descem pelo peito como cachoeiras em uma montanha prateada. Admirar aquela juba branca como a lua espanta meu medo, trazendo doces lembranças das noites em que dormi seguro naquele ninho de pelos.
— Responda-me, Aran! Não me encare com esses olhos de admiração.
Recupero minha postura ao seu comando. Como um cão de guarda, posiciono-me à sua frente, apoiando o corpo na pequena cauda enquanto bato continência com uma das patas sobre os chifres.
— Claro! Você não vai me assustar, Papa Eugron! Já decidi: vou dominar o mundo todo!
— Seus olhos demonstram que não estás mentindo; és muito ambicioso para um filhote cromado branco. Seus semelhantes jamais pensariam em abandonar seus ninhos gélidos para tentar algo tão grandioso. — Eugron bufa uma brisa forte, desafiando Aran a manter os olhos abertos.
— Eu não sou um dragão branco qualquer! Fui criado pelo maior dragão de prata e o mais forte do mundo! Por você, Papa Eugron! — Uso minhas asas ainda fracas para manter o equilíbrio e salto contra sua enorme pata para mordê-la, como sempre fiz, mesmo sendo ineficaz.
— Terás desafios maiores do que minha garra esquerda... — Ele suspira, antecipando os perigos que o desejo do pequeno protegido atrairá. — Venha, vamos dormir. Amanhã você aprenderá até onde suas asas podem levá-lo.
Eugron reclina seu corpo longo e esbelto, baixando a fronte com a agilidade de quem vive há séculos cuidando para não esbarrar em uma única rocha pontiaguda. Mesmo cuidadoso, não perde a postura feroz e impenetrável de um dragão prateado.
— Me espera, Papa! — rosna Aran, enquanto morde firmemente a enorme garra metálica para não cair enquanto Eugron se move.