JUDE MANCHAST'ER
Com um suspiro, eu ignorava veementemente a voz aguda de Stephany, uma querida amiga de infância que, simplesmente, não conseguia parar de elogiar o novo estudante em nossa sala do curso complementar de economia de nossa faculdade. Embora, não era como se eu não conseguisse compreender o porque ela falava tanto: não era todo dia que tínhamos um Licantropo em nossa volta. E aparentemente, todas as garotas da faculdade possuíam a mesma agitação diante do "aluno novo" — que já estava lá à dois meses.
— Já pensou Jude? — com o coração quase palpitando contra seus olhos brilhosos e cheios de expectativa, Sthepany permitia que sua voz pingasse em ilusão. Suspiro pela trigésima vez enquanto revirava meus olhos.
— Sim Sthephany... sim... — murmuro cansado.
— Eu, uma senhora Romanov?
— Sim Sthephany, sim... — volto a repetir sem me importar com seu tom de voz sonhador, mas logo me virando bruscamente em direção de seus olhos azuis e seus cabelos longos e loiros. — Você disse Romanov? Como "aquela" família Romanov? — surpreso e intrigado, eu finalmente dou toda a atenção que desde o ínicio ela queria. E ao contrário de mim, Sthephany apenas piscou surpresa e confusa.
— Sim... você não sabia? — inicia, finalmente tirando os olhos da nuca do rapaz que observava. — Rivaille é russo, e o principal fato de toda a faculdade estar agitada com sua chegada, é porque ele faz parte da linhagem real e ainda viva da Rússia. Se eu me lembro bem, acredito que ele seja primo do atual regente do país, ou sobrinho. Não sei direito. — pisco algumas vezes, agora sendo eu a encarar de boca aberta a nuca ruiva do outro de forma perplexa.
— Não é possível isso...
— Hurrum, é sim! — ela cantarola.
— Não, é sério! — volto meu olhar para ela. — O que diabos alguém com tamanha "categoria", estaria fazendo nesse fim de mundo de Capital inglesa? — pergunto fazendo aspas com os dedos, Sthephany apenas me encara por um momento antes de dar de ombros.
— Não sei, mas o fato é que aparentemente aqueles que são de linhagem real, costumam viajar bastante pelos paises visitando as pessoas importantes da mesma raça. Perguntei para o Eliot, lembra? Aquele de óculos, cabelos escuros e olhos verdes das Relações Internacionais? — concordo ao mesmo tempo em que voltava a revirar os olhos. Sthephany sempre gostava de mencionar Eliot como se nós não o conhecessemos. Éramos amigos de infância... — Pois bem, ele me disse que o atual regente da coroa Imperial russa, é Mikhail Conclelie'v Romanov, e ele, aparentemente, é o lider de toda essa raça. O que significa que mesmo sendo eles superiores a nós, em seu próprio grupo, tem aqueles que servem, e os que são servidos, e aparentemente essas viagens que sempre um ou outro representante da coroa russa faz, é uma forma de observar e manter o controle sobre os demais grupos de metamorfos, sob supervisão... — então ela volta a dar de ombros, quase como se não tivesse acabado de resumir um governo autoritário. Se é que eles tinham realmente outro governo entre si. Depois de tudo, nós, os "humanos", praticamente não sabíamos nada sobre eles. — Enfim, foi mais ou menos isso que eu entendi, mas não sei se oque Eliot realmente estava dizendo era verdade, ou ele simplesmente quis aparentar ser todo um sabe tud-!
— Esse Eliot parece ser bem interessante. — uma voz repentina, profunda e séria ecoou perto de meu corpo acompanhado de um aperto firme contra meu ombro. Com o susto, repentinamente me afastei e olhei para quem me tocava, engolindo em seco a medida que eu encarava um par profundo de olhos brilhantes e dourados, enquanto com um sorriso e uma presença dominante, o homem que nos interrompeu demonstrava com orgulho, ser justamente aquele que eu e a loira ao meu lado que tentava se esconder atrás de mim, falávamos. Meu Deus... que azar. — Na verdade, ele não errou em absolutamente nada. — ele sorri mais largo. Engulo em seco, antes dele se afastar e estender a mão, mudando completamente de expressão e tom de voz. — Perdão, esqueci de me apresentar! — diz alegre, enquanto instintivamente, mesmo confuso, tratei de apertar a sua mão. — Sou Aleksei Leonid Lewis, e infelizmente não fui capaz de fingir que não estava escutando! E não, não sou sobrinho ou primo do governante e nem nada disso, sou irmão mais novo de Caspian Martiriev Lewis, ele é o braçoo direito do atual portador da coroa russa, como bem sabem, eu, como seu irmão, apenas tenho muitos privilégios devido a isso! — junto de Sthephany que sem jeito se apresentou, eu também apertei a sua mão murmurando meu nome, incapaz de desviar meus olhos daquelas órbitas douradas mesmo que, para mim, elas só me fizessem sentir medo. Tinha algo errado. — Enfim... — ele se afasta, apenas para fazer eu e Sthephany pularmos para os bancos do lado quando ele simplesmente decidiu ocupar o meu lugar. Sem se importar se sentaria, ou não, em cima de mim. — É um prazer conhecê-lps, embora o que realmente me interessou nesse assunto todo, foi esse tal de, Etiet? Elói? — pareceu confuso, tentando se lembrar do nome que Esthaphany havia falado. — Emir???
— Eliot... — a loira mormura, trazendo uma luz a expressão do outro que pela primeira vez, pareceu sincera. Volto a engolir em seco.
— Ah! Isso, Eliot! — ele bate uma palma a medida que repetia o nome. — Você disse que ele tinha olhos verdes, cabelos escuros não é? — concordamos em silêncio. — Acredito que me encontrei com ele esses dias, parece que não gostou muito de mim porque o confundi com uma mulher.
— Mulher? — pergunto de forma repentina. — Eliot é um nerd, mas todo dia tá na academia, e definitivamente não tem um corpo feminido. — solto sem pensar, o ruivo em minha frente apenas soltando uma risada a medida que negava a cabeça, seu corpo relaxando no processo.
— Sim, sim, eu também percebi isso... mas depois de ter o chamado como se estivesse falando com uma criança. Sabe? Geralmente os aromas do homem e da mulher são bem específicos, o que nos faz identificar exatamente quantas mulheres ou homens tem em uma sala, antes mesmo de entrarmos nela. Porém, esse Eliot me chamou a atenção justamente por isso, ele tinha um aroma incomum, quase como a mistura dos dois aromas em um só, então acabei chutando no primeiro, e eu estava errado! — ele continua, antes de respirar fundo e relaxar o corpo de vez contra a cadeira da mesa lateral em que estavámos. — Mas me digam, vocês são próximos desse Eliot?
— Ele é amigo de infância do meu irmão. Nosso, na verdade... — Sthephany diz sem rodeios, atraindo a atenção do russo para si. Eu a olho de soslaio em repreensão, nem sabíamos o que aquele cara queria, e ela só respondeu na lata, aproximando-se mais de mim para poder ver o "metamorfo" melhor. — Crescemos juntos devido a isso, e ele cursa Relações Internacionais. Está no segundo ano! E até onde eu sei, ele tem uma personalidade bem tranquila, afastada eu diria. — ela dá de ombros. — Mas se você quiser, eu posso tentar ajeitar um encontro pra vocês se você quiser desfazer esse mal entendido, ou algo assim! — o tom de voz dela era cheio de expectativa, embora havia sido o sorriso dele que aos poucos se alargava, que me incomodou. Certo... realmente tinha alguma coisa errada com aquele cara.
— Certo, isso seria ótimo! — Aleksei diz com uma alegria evidente, antes de aparentar estar pensativo na proposta da mulher em sua frente. — Bom, infelizmente estarei afastado esses dias para ajudar o meu irmão com alguns assuntos, então... que tal nós fazermos esses trabalho de economia em grupo? E assim vocês o chamam para ganhar horas complementares a medida que fazemos a pesquisa em minha casa, o que acham?
— Claro, porque não!? — Sthephany faltou gritar de alegria. — Isso seria óti-!
— Primeiro precisamos falar com Eliot. — minha voz ecoa como uma faca de gelo naquele clima eufórico. Sthephany quis resmungar, mas logo a olhei de canto, deixando claro que ela não iria me interromper como queria. — Depois disso, se ele aceitar, talvez podemos marcar o dia e discutir sobre o tema do trabalho, o que acha?
Respiro fundo observando o grande portão de entrada da casa de Aleksei, junto de Sthephany, Eliot e Lindsay — irmão mais velho da Sthephany —, eu aguardava permitirem que entrassémos e encontrássemos o metamorfo que havia nos convidado. A mais nova dos Malsson suspirava de alegria e expectativa, eufórica enquanto seu irmão tentava mantê-la sob sob controle. O que não adiantou muito quando os portões se abriram e ela disparou para dentro. Lindsay logo atrás tentando alcança-la enquanto eu e Eliot passamos a vaminhar tranquilos logo atrás.
— Tenho duas perguntas. — inicio cortando o silêncio enquanto minha curiosidade me vencia outra vez. O observo ajustando seus óculos a medida que seus olhos verdes se encontrava com os meus cinzentos. — Como Sthephany te convenceu a vir, e porque Lindsay está aqui. — A verdade era que, até onde eu sabia, Sthephany nunca conseguiu que Eliot fizesse o que ela queria, e isso se devia ao fato de que ele, somplesmente, gostava de vê-la irritada. E com isso, eram raras as vezes que, agora, eu observava Eliot e Lindsay juntos, principalmente quando anteriormente, ambos não se desgrudavam. — Sabe que te conheço tão bem quando Sthephany... e sei quando você está escondendo algo. — diminuo meus passos, permitindo que os dois da frente se afastassem mais a medida que eu abaixava meu tom de voz. — Lindsay se afastou porque... descobriu que você é gay, Eliot? — digo estremamente baixo, observando como meu amigo suspirava, diminuindo ainda mais os passos.
— Estamos trepando. — ele diz sem rodeios, sem expressão, ou um tom diferente na voz que poderia delatar o que ele realmente sentia com aquilo. Eu simplesmente fico sem palavras.
— Ele descobriu que você é apaixonado por ele... — sussurro, a compreensão de todo o ocorrido martelando em cheio em minha cabeça. Conhecendo Lindsay, ele havia se aproveitado daquilo.
— Sim. — Eliot murmura em concordância. — No começo, era óbvio que ele fingia não saber, mas depois, não tinha como. Eu pensei que, sabe... talves pudessemos assumir uma relação, só entre nós, entende? — o observo em silêncio, sua voz aos poucos, soando mais grave conforme se embargava. — Mas ele me rejeitou de uma forma tão... como se eu fosse a porcaria de um prostituto. E isso me machucou Jude... muito. — suspiro, puxando-o para um abraço de lado conforme continuávamos andando, ambos sorrindo para os outros dois quando eles nos chamavam, ou olhavam em nossa direção.
Era óbvio que Sthephany não sabia de nada. Se soubesse, seria a primeira em castrar o irmão enquanto ele dormia.
...
Talvez eu devesse conversar com ela mais tarde.
— Lindsay, Eliot... simplesmente se tornou um estúpido ao decorrer dos anos, nem mesmo Sthephany consegue reconhecê-lo as vezes. Você não é, e nunca foi um perdido, ou um prostituto Eliot. Não é você que é necessitado de atenção, e fica fazendo sexo descontroladamente para suprir essa falta de afeto, é ele, é Lindsay que faz isso. — o menor concorda suavemente, limpando o rosto a medida que suspirava e se soltava do meu meio-abraço, voltando a andar normalmente. — Se ainda estiverem dormindo juntos Eliot, pare com isso, o negue. Acredite em mim "irmão", eu ainda acredito naquelas palavras que eu disse. — ele me olha confuso.
— Palavras? Quais? — sorrio largo, tentando mudar de assunto ao invés de mantê-lo preso nele, embora, agora, seria eu que faria questão de mantê-los mais afastados ainda.
— Que o homem rico que vai te sustentar, em breve virá correndo atrás de você! — em silêncio ele me encara, antes de, simplesmente, cair na gargalhada.
— Ah, seu filho da puta... — ele diz entre risadas. — Eu abrindo meu coração e você me fala uma coisa dessas? — agora era a minha vez de rir também.
— Tudo bem... — murmuro acariciando seus fios escuros que caiam sobre seus óculos redondos. — Um dia de cada vez... não é?