📱O Testemunho do Vácuo❤️🩹
A escuridão da sala era sólida, rompida apenas pelo círculo amarelado de uma lamparina sobre a cômoda carcomida. Dona Eunice, aos 78 anos, não via o nome no topo da tela do celular. Para ela, aquele campo de texto era apenas um diário digital, um espaço onde as palavras podiam cair sem o perigo de serem ouvidas por quem ainda habitava a fazenda. Ela acreditava estar escrevendo para si mesma no WhatsApp , ou talvez para o nada já que ninguém leria.
Na delegacia gélida, a jovem policial recebeu a primeira notificação.
“Preciso dizer antes que a luz apague”
Dizia a mensagem. A agente posicionou os dedos sobre o teclado, pronta para interromper e explicar que aquele era o número do WhatsApp oficial de denúncias, mas parou. As bolhas de digitação surgiam ritmadas, desesperadas. Algo no tom de Eunice a fez recuar. Ela decidiu, em um silêncio cúmplice, apenas observar o naufrágio.
Eunice digitava o que nunca sussurrara.
Descreveu o cheiro de álcool do marido falecido e como, para proteger os filhos da fúria dele, os empurrou para um refúgio selado: os braços um do outro, não do jeito certo, mas do único jeito que achou que seria uma solução. A policial, do outro lado da tela, sentia o impacto de cada palavra.
O choque veio com a :
“simbiose do trauma”
No isolamento, o afeto fraterno dissolveu-se sob o olhar de uma mãe quebrada demais para intervir. O pecado cresceu porque era o único lugar onde os filhos não choravam, mas sim procuravam apoio e um amor confuso.
A história atingiu seu ápice quando Eunice descreveu o nascimento do neto. O bebê nasceu com anomalias genéticas cruéis, ele tinha autismo e muito provavelmente no futuro, dificuldades para aprender as coisas como outras crianças, um espelho biológico da união imprópria de dois irmãos.
“O choro dele era um lamento de gerações”
Escreveu ela. A culpa virou ódio; os filhos, incapazes de encarar o próprio reflexo, não acreditaram que sua própria mãe não os avisaram sobre as consequências, ai baniram a mãe para a periferia da casa. Ela ouvia o neto através das paredes, proibida de tocá-lo, tratada como a arquiteta da tragédia parental.
A policial tentou digitar uma palavra de apoio, mas percebeu que qualquer interferência destruiria a pureza daquela rendição. Ela preferiu ver até onde a dor a levaria.
A luz da lamparina falhou. Eunice, achando estar apenas desabafando com a própria solidão, acreditando que ninguém a escutava, deixou seu testamento espiritual:
“Meus filhos, aceitei o inferno para que tivessem um teto. O erro nasceu do desamparo e tristeza que tentaram tirar um do outro. Não odeiem o pequeno mesmo com suas dificuldades, ele não tem culpa dos pecados que todos nós fizemos; amem-no pelo que não fomos capazes de fazer um com o outro, Não importa o que for, sempre os amarei...”
As mensagens pararam, a polícial esperou mais uns minutos para ver, mas não importa o quanto esperasse, ela percebeu que a senhora mesmo mostrando ela online, não escreveria mas nada. Lá na delegacia, a policial soluçava, o rosto nas mãos, sentindo o peso de ter sido a única testemunha de um segredo sepulcral.
Na fazenda, o celular escorregou dos dedos de Eunice. O brilho da tela iluminou, por segundos, até se desligar por completo, o rosto de quem finalmente entregou seu peso e pecados ao mundo, sem saber que alguém, no vácuo, havia lido suas últimas palavras.
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“E foi isso, foi a primeira vez que eu escrevo um livro, então eu espero que gostem do primeiro capítulo, e até a próxima 👋🏾☺️💕”
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