Os 9 círculos do inferno

All Rights Reserved ©

Summary

Lúcia acorda no inferno, não sabe como e nem o porquê acordou ali, mas sabe que precisa sair, com a ajuda de Lucífer com quem cria um vínculo, os dois precisam passar por todos os 9 níveis do inferno para chegar a superfície, mas não vai ser nada fácil, pois cada nível é um pecado diferente a ser superado. O início começa no fim.

Status
Ongoing
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1

Frio, era a única coisa que eu conseguia sentir, frio, intenso, que queimava apesar de ser frio.

Acordo sobressaltada, e a primeira coisa que percebo é que não estou em um lugar conhecido, minha respiração condensa assim que sai da minha boca, estalactites descem do teto estou em uma caverna gigantesca, não consigo ver o fim, nem o teto, não sei como vim parar aqui.

Estou morrendo de frio, literalmente, meus braços e pernas estão dormente, meus dentes batem violentamente e tremores atravessam meu corpo, eu estava com hipotermia, meu pouco conhecimento de medicina me dizia isso, precisava sair dali, me movimentar para tentar aquecer meu corpo e procurar um local mais quente, ou eu morreria aqui sem saber como vim parar aqui.

— Cara, onde eu estou?

Tento me lembrar o que aconteceu, de como vim parar aqui, e onde era esse aqui, mas minha cabeça dói e eu não consigo lembrar de nada, continuo forçando a mente a lembrar até de quem eu sou, mas está vazio, só consigo lembrar meu nome, parece que alguém tirou tudo o que tinha, o que eu lembrava.

— No inferno, alias seja muito bem vinda — disse uma voz grossa e melodiosa.

Virei a cabeça de modo que eu o visse o dono da voz, o gelo estava em todos os lugares por onde meus olhos pousavam, e ali preso com correntes tão negras que pareciam sugar toda a luz, havia um homem sentado, parecia não sentir frio algum, visto que estava sem camisa, e apenas com uma calça social preta, ele sorria amplamente, acabei, sem querer, reparando o quão bonito ele era, dentro dos seus olhos tinha um céu inteiro, naquele instante eram azuis escuros como o céu no final do dia, mas eu tinha certeza que na claridade eram da cor do céu numa manhã ensolarada. Ele tinha cabelos pretos feito o breu noturno, e um sorriso que parecia iluminar o espaço em si.

— Quem é você? — perguntei – Onde estamos?

— Lúcifer — Sorriu ele.

— Lúcifer? Tipo o Diabo? — Pedi confusa.

— Sim, eu mesmo, em pessoa, divindade e correntes — Deu ombros.

— Isso só pode ser uma brincadeira de mal gosto — bufei — Aliás o diabo não deve ser tão bonito – corei na mesma hora que essas palavras saíram da minha boca.

— Só uma dica mocinha, o diabo não é tão feio como se pinta — riu alto — e estamos no inferno, e não, não é brincadeira, aliás, como você veio parar aqui?

— Como eu vou saber? Só consigo lembrar do meu nome, não há nada mais aqui – bati com os dedos na cabeça – Mas falando sério, onde estamos? Por que estamos aqui? Eu to morrendo de frio.

— Olhe para si mesmo, e veja o porquê sentes frio — disse olhando para mim – Eu já te disse, estamos no inferno, mas não sei o que você fez para estar aqui.

Fiz o que ele me disse e bufei irritada, alguém muito sem noção colocou em mim uma calça extremamente colada, uma bota e enfaixou meus seios com uma faixa amarelada, e nada mais que isso.

— Mas de quem foi a ideia genial de me vestir assim dentro dessa geladeira? Tá, não importa, tenho que sair daqui o mais rápido possível, ou vou morrer de hipotermia.

— Você não pode sair — disse indiferente — não sei o que você fez em vida de tão grave para vir parar na minha sela, mas nenhuma alma sai do inferno, principalmente dessa parte.

— Alma? Você só pode estar brincando — bufei novamente — Eu estou viva, não lembro de morrer.

Procurei uma saída, mas não conseguia encontrar, o desespero já começava a bater, eu bati nas paredes buscando algum ponto oco, mas só consegui queimar minha mão com as paredes geladas, Lúcifer apenas me olhava sem emoção alguma.

— Não adianta, não há como sair daqui, acredite eu tentei muitas vezes quando podia, agora prenderam até minhas asas — disse ele.

Só depois dessa “revelação” que observei onde ele estava preso, as imensas algemas vinham de algum lugar onde eu não podia ver, e na parede atrás de si havia um par de asas brancas pregadas com pregos de aparência enferrujada, sangue escorria dos buracos e faltavam muitas penas, aquela outrora deveria ter sido uma asa esplêndida.

— Que coisa horrível — falei enquanto as minhas mãos voavam até minha boca, eu quase podia sentir a dor que ele passava, quase dava para ver na sua expressão a dor que aquilo lhe causava, uma lágrima solitária escorreu lentamente pelo meu rosto, enquanto ele a seguia com o olhar — Quem fez isso com você? Como fizeram isso com você.

— Meu pai, fui acusado de traição, então jogaram-me aqui — comentou.

— Que desgraçado, mas me diga o nome dele, saindo daqui vamos direto para a delegacia, tortura é

crime, seu pai precisa pegar uns bons anos de cadeia, como ele pode pregar essas asas em você, e te manter acorrentado igual um bicho, ainda nesse frio congelante, e você mal está vestido.

Dito isso ele começou a rir alto, o som era incrível, eu poderia ouvir aquela risada por muito tempo.

— Você ainda não acredita que está no inferno?

— E tem como acreditar? Acho que fomos sequestrados por pessoas malucas, que nos enfiaram em um congelador gigantesco e prenderam você desse jeito — comentei tentando me fazer acreditar no que eu dizia, já que algo me dizia que ele não estava mentindo.

— Você não deveria estar aqui, não mesmo, você parece inocente demais para este lugar imundo, o que meu pai está fazendo com você? — disse mais para si do que para mim.

— Este é mesmo o inferno? — refleti aflita.

— É sim, o último círculo do inferno, o mais fundo, tão longe de Deus que é gelado, já que ele detém o calor — respondeu suspirando.

— E você não deveria reinar aqui? — perguntei me aproximando.

— É isso que dizem na superfície? — riu ele.

— Lúcifer, precisamos sair daqui, ou vamos morrer congelados – falei.

— Já não lhe disse que não há saída? — brigou ele em um rompante de raiva, seus olhos adquiriram um brilho avermelhado, e em um ato de reação eu cai para trás quando ele veio para frente, ouvi um grunhido de dor e um som de algo rasgando.

Olhando suas asas novamente eu precisei segurar um grito, os pregos fizeram um imenso corte a partir de onde estavam, sangue escorria rapidamente de cada um, mais penas caíram ensanguentadas no chão.

— Suas asas – falei quase choramingando.

— A culpa foi minha, não se preocupe, mas entenda que não há saída deste lugar — falou com a voz embargada e dolorida.

Decidi naquele instante que eu iria ao menos libertá-lo dos pregos e daquelas asas que tanto lhe torturava, caminhei sem dizer nada até às asas dele, cheguei perto e vi que elas não estavam grudadas nele com pontos ou algo assim, elas se projetavam das suas costas, como asas de verdade, vacilei um pouco, acreditando por um instante que tudo o que ele dizia era real.

— O que você está fazendo? — pediu.

— Eu não aguento ver isso — grunhi enquanto puxava o imenso prego, depois de muito esforço ele saiu, joguei perto dele e disse novamente — Um já foi, faltam nove.

— Porque está fazendo isso? Eu sou o Diabo, o mal encarnado — disse confuso.

— Você é o que é, mas não me impede de tentar tirar a gente daqui, e se estamos mesmo no inferno, vou precisar de ajuda — falei suavemente enquanto retirava mais um prego, e outro e outro.

Ao fim dos dez pregos a minha mão estava em frangalhos, algumas unhas saíram completamente da carne, arranhões e cortes vertiam sangue, e apesar de doer, eu estava feliz.

— Espere um pouquinho e resolveremos as algemas — comentei com uma careta.

— Você não precisava ter feito isso — disse sorrindo tristonho – Alias nem sei como você fez isso.

— Eu precisava sim — sorri – eu também não sei como fiz, mas consegui.

— Você não pode ficar aqui, você é pura demais para este lugar — disse novamente.

— Nós não podemos, por isso vamos sair daqui — comentei olhando para as inscrições que havia onde estavam suas asas.

Eu não sabia o que significavam, talvez Lúcifer conhecesse a linguagem, entretanto ele não conseguia se virar e eu não tinha nenhuma noção de como recitá-la para que ele a traduza. Eu tinha que dar um jeito naquelas algemas estranhas, mas por agora eu precisava descansar, os pregos pareciam ter sugado minha energia, o mundo começou a fica mais escuro, as bordas da visão começavam a ficar pretas enquanto estrelas dançavam, meu corpo parecia flutuar, eu ia desmaiar a qualquer momento

— Preciso descansar um pouco, e então daremos um jeito nessa porcaria que te prende aí — falei apontando para os seus pulsos, de repente o lugar começou a girar e girar, cada vez mais rápido, minhas pernas fraquejaram e eu ia cair, mas Lúcifer me segurou e me aninhou nos seus braços quentes antes que eu desmaiasse.

Acordo com um par de olhos azuis me fitando.

- Você está bem?

- Sim, estou melhor, não sei o que aconteceu – falei confusa.

- Os pregos sugam a energia de quem os tenta tirar, por isso eu não posso tirá-los, já que eu estou constantemente com eles – comentou ele.

O semblante dele já estava bem melhor que antes, o que me deixou muito satisfeita comigo mesma, eu tinha uma única certeza ali, ele não era malvado, pois poderia ter me deixado no chão frio, mas deixou-me em seus braços quentes e de maneira confortável.

- Por quanto tempo eu apaguei? – pedi.

-Por pouco tempo, não se preocupe, senhorita – Sorriu – Aliás, como se chama?

- Lúcia – comentei.

Lúcifer ficou em silencio por alguns segundos, não consegui ler o que estava pensando, mas um pequeno sorriso quase imperceptível estampou seus lábios.

-Vamos, vamos tirar essas algemas – falei.

-Não vai ser fácil tirá-las – respondeu.

-Por que?

-Apenas pessoas vivas e com boas intenções.... - começou e travou ali, rindo em seguida – Acho que temos todos os requisitos, não é?

- Talvez – sorri – não custa tentar, não é?

- Você sabe que não precisa, eu fui criado para isso – comentou cabisbaixo.

- Shiu, apenas cale a boca, eu vou dar um jeito nisso – comentei sentando na sua frente.

Coloquei uma das suas mãos em cima da minha coxa, era áspera e calejada, mas quente e suave, ele deu um beliscão de leve e sorriu, balancei a cabeça e continuei a procurar por algum tipo de abertura, mas aquelas algemas pareciam ser feitas a partir da pele dele, tentei forçá-las para abrir, apertei, bati, girei, porém não surtia efeito algum.

- Como abre essa porcaria?

- Não tenho a menor ideia – falou simplesmente.

- Mas eu não vou desistir, nem que o inferno congele.

- Tecnicamente ele é congelado, Lúcia deixe-me aqui e tente sair deste lugar, você me ajudou muito tirando os pregos, mas não há saída para mim.

- Eu já lhe disse, não saio daqui sem você, alguma coisa me diz que você é a chave para sair daqui – falei ainda fuçando na algema – Abre de sésamo, abracadabra, abre esta merda – rosnei.

Lúcifer ria sem parar, balançava a cabeça parecendo negar a cena que desenrolava na sua frente, a risada era tão verdadeira e cheia de sentimentos que eu não podia resistir, acabei rindo também e deixando toda a angústia, estranheza e dor saírem naquela crise de riso, as duas mãos dele encontraram as minhas e os olhos também, as risadas não cessaram, mas em um gesto de carinho ele depositou um casto beijo na minha testa, e tão rápido que ele se afastou o som de algemas tintilando no chão preencheu o espaço e refrearam as risadas.

- Abriu? - sussurrei em espanto.

- Abriu sim!! – exclamou ele me envolvendo em um abraço.