01: O Milagre Assustador
O sinal da escola tocou como uma canção de vitória. Dimon cruzou os portões com um sorriso que parecia iluminar o asfalto. Finalmente, o peso do ensino médio e das provas finais havia ficado para trás. Enquanto caminhava pelas ruas familiares, ele sentia o calor do sol refletir sua própria liberdade. Por alguns minutos, o futuro parecia um horizonte aberto, cheio de promessas e amizades que ele acreditava serem eternas.
Mas, à medida que se aproximava de casa, o brilho do sol parecia perder a força.
Ao girar a maçaneta, o perfume da liberdade foi substituído pelo cheiro acre e familiar do álcool. A atmosfera estava pesada, densa. Sua mãe estava lá, perdida em sua própria batalha particular contra as garrafas, imersa em uma realidade onde Dimon mal conseguia alcançá-la. O sorriso dele murchou. Em segundos, o jovem formado deu lugar ao filho cuidador, aquele que aprendeu que manter tudo de pé era sua função solitária.
— Mãe... de novo? — A voz de Dimon saiu firme, mas carregada de uma decepção que ele tentava esconder.
A conversa que se seguiu foi um borrão de emoções cortantes. Houve lágrimas, promessas vazias que ele já tinha decorado e o silêncio doloroso que vem logo após uma briga. Dimon se retirou para o quarto, sentindo o cansaço de quem carrega o mundo nas costas. Ele olhou para o teto, tentando reconciliar a alegria de suas conquistas com a tragédia que era sua vida familiar.
Dormir não foi fácil. A decisão estava tomada.
Na manhã seguinte, o ar estava frio. Após uma última discussão intensa, Dimon juntou o que podia e saiu. Ele precisava de um novo começo, longe do ciclo que o sufocava. Enquanto caminhava pela estrada, perdido em pensamentos sobre o que o destino reservava para um jovem com cicatrizes invisíveis, ele não ouviu o som do perigo.
O ronco do motor surgiu como um trovão. Um caminhão, em velocidade absurda, surgiu do nada.
Não houve tempo para correr. O impacto foi inevitável.
No entanto, no milésimo de segundo em que o metal deveria esmagar seus ossos, algo impossível aconteceu. Uma força invisível, uma pressão que não pertencia a este mundo, envolveu o corpo de Dimon como um escudo. O ar ao redor dele vibrou.
O caminhão colidiu, mas não com ele. Foi como se o veículo batesse em uma muralha de aço invisível. O som foi ensurdecedor: metal retorcendo, vidros explodindo. Em uma reviravolta trágica e violenta, o motorista foi ejetado pelo para-brisa, sendo lançado contra um poste próximo. O silêncio que se seguiu foi mortal.
Dimon abriu os olhos. Ele estava parado no centro da estrada, ileso. Nem um arranhão. Nem uma gota de sangue.
Ele olhou para as próprias mãos, trêmulo e atordoado. A morte tinha acabado de passar por ele e, por algum motivo assustador, ela havia escolhido outro caminho. Ali, diante dos destroços e do corpo sem vida do motorista, Dimon percebeu que sua existência não era mais comum.
O milagre havia acontecido. Mas o medo que ele sentia agora era maior do que qualquer alívio.