Segunda-feira tem gosto de café recém-passado
CAPÍTULO 1
Segunda-feira tem gosto de café recém-passado
Vanessa acordou antes mesmo de abrir os olhos.
Não foi um barulho. Não foi um movimento ao lado. Foi o cheiro.
Um aroma quente, encorpado, quase íntimo — café recém-passado, forte, preciso, como se tivesse sido feito por alguém que não erra medidas.
Ela permaneceu imóvel por alguns segundos, ainda entre o sonho e a realidade. O travesseiro tinha o perfume dele — amadeirado, discreto, masculino sem exagero. Mas o que a puxava de volta não era o cheiro da pele. Era o cheiro do cuidado.
Abriu os olhos devagar.
O quarto era amplo, silencioso, envolvido por uma luz dourada que atravessava as cortinas de linho claro. O teto alto criava uma sensação de liberdade, e as paredes claras refletiam a manhã como se a casa inteira respirasse com o sol.
A vista da Baía de Guanabara ainda estava levemente coberta por uma névoa fina. O mar parecia calmo demais para alguém que acabara de viver uma tempestade por dentro.
Demorou alguns instantes até que a memória se organizasse.
Botafogo. A casa de vidro. A noite que parecera ter durado dias.
Ela virou o rosto lentamente para o lado.
O espaço ao lado dela estava vazio.
Mas ainda morno.
Passou a mão sobre o lençol como quem testa a realidade. O tecido guardava o calor recente de dois corpos que, por algumas horas, tinham dividido não apenas o mesmo espaço — mas a mesma vulnerabilidade.
Ele não estava ali.
Ela não se assustou.
No fundo, sabia.
Havia algo na forma como ele olhara o relógio antes de adormecer. Um detalhe pequeno, quase imperceptível, mas que agora fazia sentido.
Vanessa sentou-se devagar. O corpo estava leve. Não pela exaustão física — mas pela estranha sensação de ter sido ouvida.
Recolheu o vestido do chão. A seda ainda carregava o cheiro da noite — samba, rua, vinho e ele.
Vestiu-se sem pressa. Não havia urgência. A casa não transmitia abandono. Transmitia organização.
Era diferente.
Quando abriu a porta do quarto e iniciou a descida pela escada curva, percebeu que o silêncio tinha estrutura. Nada fora deixado ao acaso. O cheiro do café se intensificava, misturado ao perfume suave de flores frescas.
A sala de jantar, envolta em vidro, parecia suspensa sobre a cidade. A mesa estava posta com precisão quase artística: frutas cortadas com simetria exata, croissants ainda soltando vapor, suco recém-espremido sem espuma excessiva, porcelana branca de alto padrão, talheres alinhados milimetricamente.
No centro, rosas claras.
Não vermelhas.
Claras.
Atrás da mesa, duas mulheres aguardavam com postura profissional, elegantes em sua discrição. Não havia submissão. Havia treinamento.
Uma delas deu um passo à frente.
— Bom dia, dona Vanessa.
A voz era firme, gentil, treinada para não invadir.
— O senhor Eduardo pediu que o café estivesse pronto quando a senhora acordasse. Ele precisou sair cedo, mas deixou tudo preparado para o seu conforto.
Vanessa sentiu algo apertar por dentro.
Ele não apenas saía cedo.
Ele organizava a ausência.
— Ele já foi? — perguntou, mesmo sabendo.
— Sim, senhora. E, após o café, o senhor Roberto estará à disposição para levá-la ao destino que preferir.
Não era descaso.
Era protocolo.
Ela caminhou até a mesa e sentou-se diante da vista da enseada. O mar refletia o sol com uma serenidade quase ofensiva para quem estava emocionalmente em movimento.
Sobre o prato, um envelope.
Reconheceu a caligrafia antes mesmo de tocar.
Abriu.
Vanessa, Algumas noites existem para nos lembrar quem somos quando não estamos com medo. Espero que você leve isso com você. — Eduardo
Nenhum número. Nenhuma promessa. Nenhuma abertura.
A noite voltou em fragmentos.
A Pedra do Sal vibrando sob os pés. O samba entrando no corpo. O jeito como ele a conduzia sem invadir. O olhar fixo quando ela falava. O silêncio respeitoso quando ela hesitava.
Depois a caminhada pela Gamboa.
Depois a cozinha.
Ela nunca tinha visto um homem daquele nível financeiro picar ervas com tamanha concentração. Ele não delegava tudo. Ele sabia fazer.
Ela falou do divórcio. Da traição. Da sensação de ter sido invisível durante anos.
Ele não ofereceu solução.
Ele apenas ficou.
E ficou inteiro.
A noite inteira.
Menos pelo amanhecer.
Vanessa levou a xícara aos lábios.
Percebeu algo que a assustou mais do que a ausência.
Ela não se sentia usada.
Sentia-se vista.
E isso criava uma expectativa perigosa.
Do lado de fora, o carro preto aguardava na rua silenciosa.
Roberto observava o relógio no painel com a tranquilidade de quem conhece a coreografia.
Meia hora antes, no portão da propriedade, ele havia perguntado:
— Vai repetir?
Eduardo ajustou o relógio.
Olhou o céu ainda pálido.
E respondeu:
— Eu nunca fico.
Mas a frase saiu com uma leve pausa antes do verbo.
Roberto percebeu.
Vanessa terminou o café sem sentir o gosto do que comia. A vista já não era paisagem — era memória em formação.
Desceu os últimos degraus externos. O carro a aguardava.
Roberto abriu a porta.
— Qual o destino, dona Vanessa?
— Copacabana. Rua Siqueira Campos.
O carro desceu a ladeira suavemente.
Ela observava a cidade acordando: jornaleiros abrindo bancas, mães apressadas, ônibus lotados, o mundo seguindo seu curso.
Ela não.
— Seu Roberto… ele sempre faz isso?
— O senhor Eduardo é um homem de hábitos.
Ela respirou fundo.
— Ele nunca fica para o café? Ou foi só comigo?
O retrovisor captou o brilho nos olhos dela.
— Dona Vanessa… não é sobre ser suficiente. Ele nunca fica.
Ela virou o rosto para a janela.
— Foi a melhor noite da minha vida.
A confissão saiu sem filtro.
— Eu me senti viva. Vista. Há anos eu não me sentia assim.
O silêncio ficou pesado.
Ela retirou da bolsa um cartão elegante.
— Entregue a ele. Se sentir minha saudade… que me ligue.
Roberto pegou o cartão.
— Entregarei.
Quando o carro parou, ela ainda disse:
— Não esqueça. Eu quero vê-lo de novo.
— Eu entregarei.
Ela desceu.
O carro partiu.
E Roberto, dessa vez, não olhou pelo retrovisor.
No Alto da Boa Vista, a manhã era outra.
A mansão estava cercada por mata fechada e silêncio absoluto.
Eduardo nadava.
Braçadas longas. Ritmo controlado. Respiração técnica.
A água era o único lugar onde o passado não falava.
Roberto aproximou-se da borda.
— Meu filho…
Eduardo continuou nadando.
— Por que você continua fazendo isso?
Ele segurou a borda, mas não saiu.
— Fazendo o quê?
— Repetindo o que seu pai fazia.
A frase atravessou o ar.
Eduardo saiu da piscina. A água escorria pelo corpo definido.
— Eu não sou ele.
— Não. Mas está andando pelo mesmo caminho.
Silêncio.
— Você não se dá a chance de amar — Roberto insistiu. — Você vai embora antes de qualquer coisa se tornar real.
Eduardo vestiu o roupão.
— Antes de subir… — Roberto estendeu o cartão — ela pediu que você ligasse.
Eduardo leu o nome.
Vanessa Duarte.
— Disse que foi a melhor noite da vida dela.
Eduardo segurou o cartão por alguns segundos.
Não havia ironia.
Havia contenção.
— Ainda não foi dessa vez.
Levantou o olhar.
— Eu não quero me envolver. Não quero sofrer. Não quero acabar como meu pai.
Entrou na casa.
O telefone tocou.
Ele atendeu já transformado.
— Bom dia. Vamos falar de números.
Lá fora, Roberto permaneceu parado por alguns instantes.
Não pensava em mulheres.
Pensava no menino que aprendera cedo demais que amar podia ser perda.
E que, por isso, tinha decidido nunca mais ficar para o café.
Eduardo segurou o cartão entre os dedos por alguns segundos antes de entregá-lo de volta ao tio.
Mas, dessa vez, ele não se virou imediatamente para entrar.
Ficou ali. Parado. Pensativo.
— Ela é interessante — disse de repente, ainda olhando para o nome gravado no papel. — Muito interessante.
Roberto ergueu os olhos.
— Interessante como?
Eduardo respirou fundo.
— Inteligente. Independente. Arquiteta. Me contou da mudança dela para o Rio. Do divórcio. Do medo de recomeçar aos trinta e oito anos. Disse que passou anos se sentindo invisível dentro do próprio casamento.
Ele falava com calma, como se revivesse a conversa.
— Ela não estava atrás de dinheiro. Não estava tentando impressionar. Só queria ser ouvida. E ela fala bem, tio… fala com verdade.
Roberto cruzou os braços, atento.
— E você ouviu?
— Ouvi.
Uma pausa.
— E achei bonito. Achei ela linda. Cheirosa. Elegante. Dança bem. Cozinha comigo sem fingir que sabe tudo. Ri fácil. Tem aquele jeito de mulher que já sofreu, mas não ficou amarga.
Roberto inclinou levemente a cabeça.
— Então?
Eduardo levantou o olhar.
— Não foi a minha melhor noite.
O silêncio caiu diferente.
— Como assim, meu sobrinho? — Roberto insistiu. — Ela saiu daqui com os olhos cheios d’água. Disse que foi a melhor noite da vida dela.
Eduardo apertou o maxilar.
— Eu sei.
— Então como não mexeu com você?
Ele passou a mão pelo cabelo ainda úmido da piscina.
— Porque não mexeu aqui.
Tocou o próprio peito.
— Foi bom. Foi leve. Foi bonito. Mas não me desmontou. Não me tirou do eixo. Não fez meu coração acelerar daquele jeito que parece que vai sair pela boca.
Roberto respirou fundo.
— Você está esperando o quê? Um terremoto?
Eduardo deu um meio sorriso sem humor.
— Talvez.
Depois o sorriso desapareceu.
— Eu sei que eu não sou meu pai. Sei disso racionalmente. Mas emocionalmente… eu tenho medo, tio. Só eu sei o que eu vi. Só eu sei o que foi ouvir ele chorando escondido. Só eu sei o que foi ver ele tentando substituir a dor com outras mulheres e acordando mais vazio.
A voz dele ficou mais grave.
— Eu não quero isso pra mim. Eu não quero sofrer daquele jeito. Não quero virar um homem quebrado tentando se anestesiar.
Roberto se aproximou um pouco.
— Amar não é sentença de sofrimento.
— Mas pode ser.
Os dois ficaram se encarando por alguns segundos.
Eduardo respirou fundo, como quem encerra o assunto.
— Ainda não foi dessa vez.
Agora a frase veio mais firme.
— Quando for… eu vou saber.
Ele devolveu o cartão ao tio.
— Guarda isso.
Virou-se e entrou na casa.
O telefone tocou antes mesmo que ele terminasse de subir as escadas.
Ele atendeu ainda no corredor.
A voz mudou.
Ficou mais seca. Estratégica. Precisa.
— Victor.
— Já soube? — o primo respondeu do outro lado.
— Estou acompanhando. Como estão as coisas aí?
— A audiência está mantida. Mas o escritório de São Paulo cometeu um erro técnico sério na última movimentação. Isso pode nos prejudicar.
Eduardo parou diante da janela do escritório e observou a mata fechada.
— Não podemos perder esse processo. Aquela patente é a base da nossa expansão no Vale do Silício.
A voz ficou mais firme.
— Já revisaram toda a documentação? Quero tudo nos conformes. Sem margem para falha.
— Estamos revisando. Mas eu sugiro reforçar a equipe.
— Reforce. Troque se for necessário. Eu não tolero amadorismo.
Uma pausa.
— E Victor…
— Fala.
— Se essa audiência escapar por descuido… eu rompo com eles no mesmo dia.
— Entendido.
Eduardo desligou.
Ficou alguns segundos olhando para o próprio reflexo no vidro.
O homem que conduzia negócios bilionários com frieza cirúrgica.
E o homem que tinha medo de amar.
Ele ajeitou o relógio no pulso.
No mundo dos negócios, ele nunca esperava terremotos.
Ele criava.
No amor… ele esperava sentir algo que talvez estivesse impedindo de acontecer.
Lá fora, Roberto ainda segurava o cartão de Vanessa.
E, pela primeira vez em muito tempo, se perguntou se o sobrinho estava procurando amor…
Ou procurando uma desculpa perfeita para continuar indo embora antes do café.
O carro parou na Rua Siqueira Campos.
Vanessa desceu com a sensação de que tinha deixado algo para trás. Não um objeto. Não uma promessa. Algo mais sutil.
Uma possibilidade.
O prédio onde morava não tinha vista para o mar. Não tinha vidro do chão ao teto. Não tinha funcionários aguardando em silêncio.
Tinha porteiro sonolento e elevador antigo.
Ela entrou.
— Bom dia, dona Vanessa.
— Bom dia.
A voz saiu automática.
Subiu sozinha.
Quando abriu a porta do apartamento, o silêncio era diferente do da casa de vidro.
Ali era um silêncio comum.
Vivido.
Real.
Ela colocou a bolsa sobre o aparador, tirou os sapatos e caminhou até a janela da sala.
A vista dava para prédios. Antenas. Céu recortado por concreto.
Nada errado.
Nada extraordinário.
Encostou a testa no vidro por alguns segundos.
A memória da noite voltava em detalhes pequenos.
O jeito como ele segurou a mão dela quando atravessaram a rua.
O modo como ele escutava, sem interromper.
O cuidado ao servir o vinho.
O beijo que não era apressado.
E o olhar.
Aquele olhar que não tentava possuir.
Tentava entender.
Ela fechou os olhos.
Não se sentia usada.
Isso a desarmava.
Porque, no fundo, depois do divórcio, ela tinha criado uma regra silenciosa:
Nunca mais se entregar inteira a alguém que pudesse ir embora.
E ele tinha ido embora.
Mas, estranhamente, ela não se sentia descartada.
Sentia-se escolhida.
Por uma noite.
Ela caminhou até o banheiro, lavou o rosto e encarou o próprio reflexo.
— Foi só uma noite — murmurou para si mesma.
Mas não parecia só isso.
Sentou-se na cama.
Pegou o celular.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação.
Nenhuma tentativa.
Ela respirou fundo.
E então sorriu.
Não um sorriso ingênuo.
Um sorriso maduro.
— Se ele quiser, ele liga.
Deitou-se de lado, ainda vestida.
O corpo estava cansado, mas a mente desperta.
E ali, naquele quarto comum de Copacabana, ela percebeu algo que não admitiria para ninguém:
Ela queria que ele quebrasse o próprio padrão.
Queria ser a mulher que o fizesse ficar para o café.
Mas não iria implorar por isso.
Se fosse para acontecer…
Ele teria que escolher.
No Alto da Boa Vista, Eduardo fechava o laptop após a ligação com Victor.
Negócios sob controle.
Processo em andamento.
Tudo organizado.
Ele caminhou até a varanda.
O sol já estava mais alto.
Pegou o celular.
Olhou para o visor por alguns segundos.
Pensou no cartão que deixara com o tio.
Pensou nos olhos dela ao falar do divórcio.
Pensou na frase que ela tinha dito enquanto dançavam:
“Eu só queria alguém que ficasse.”
Ele bloqueou a tela.
Colocou o celular sobre a mesa.
E virou as costas.
Porque ainda não era aquela que faria o coração bater forte o suficiente para ficar.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, a ideia de ficar não parecia impossível.