Hel Trinco Imperfeito

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Summary

Existem coisas que não deveriam ter espaço neste mundo. Lipsilon sabe disso melhor do que ninguém. Consumido por uma consciência que vai além da sanidade humana, ele se tornou um trinco imperfeito — uma falha na estrutura da existência. Quando o sangue mancha o vidro e a mão estende-se do outro lado, não há para onde correr. O que está do lado de cá não é o alvo; é apenas a testemunha. •Autor: Fellipe Rennê

Genre
Horror
Author
Fellipe
Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

O Eco da Carne

O laboratório não cheirava a produtos químicos; cheirava a ferro e vísceras quentes. Lipsilon, ferido e com a visão embaçada, arrastava-se pela parede fria, deixando um rastro de sangue que riscava o metal. À frente, o som era insuportável: gritos úmidos, abafados, de cientistas sendo desmantelados por algo que não deveria existir.

A criatura era uma convulsão de carne e instinto. Ela não caçava; ela sofria. A cada golpe, a cada rasgo de tecido humano, o monstro se contorcia, soluçando como se os ossos estivessem perfurando sua própria pele de dentro para fora.

Silon estava escondido atrás de um suporte metálico, prendendo a respiração até que seus pulmões ardessem. Então, o silêncio caiu.

A criatura parou de se alimentar. O som de ossos sendo mastigados cessou. Ela se levantou, incomodada, como se uma frequência invisível tivesse atingido seu cérebro. Com mãos trêmulas, a coisa tapou os ouvidos e começou a se lançar contra a parede, a estrutura metálica gemendo com o impacto. Seus ossos estalavam, mudando de lugar, contorcendo-se em um ritmo que não era natural.

Silon não sentiu medo. Ele sentiu a mesma agonia. O sangue começou a subir pela sua garganta, um gosto metálico e insuportável, conforme ele sentia as dores que rasgavam o ser à sua frente. Suas próprias mãos tremiam, querendo tapar os ouvidos para abafar o que não era som, mas sensação.

E então, o pior aconteceu. A criatura virou a cabeça e o olhou. Não havia maldade nos olhos daquele ser, apenas um reconhecimento doloroso.

Silon abriu a boca para gritar, mas tudo o que saiu foi uma torrente de sangue que tingiu o chão de escuro.

Ele despertou.

O ar do quarto era estático. O silêncio da noite parecia pesar toneladas. O peito de Silon subia e descia rápido, e quando ele levou a mão à boca, seus lábios ainda estavam úmidos pelo gosto metálico do pesadelo. Mas não era um sonho comum. A dor ainda pulsava em seus ossos, uma lembrança residual de algo que, em algum lugar, continuava a se contorcer.