O Eco da Carne
O laboratório não cheirava a produtos químicos; cheirava a ferro e vísceras quentes. Lipsilon, ferido e com a visão embaçada, arrastava-se pela parede fria, deixando um rastro de sangue que riscava o metal. À frente, o som era insuportável: gritos úmidos, abafados, de cientistas sendo desmantelados por algo que não deveria existir.
A criatura era uma convulsão de carne e instinto. Ela não caçava; ela sofria. A cada golpe, a cada rasgo de tecido humano, o monstro se contorcia, soluçando como se os ossos estivessem perfurando sua própria pele de dentro para fora.
Silon estava escondido atrás de um suporte metálico, prendendo a respiração até que seus pulmões ardessem. Então, o silêncio caiu.
A criatura parou de se alimentar. O som de ossos sendo mastigados cessou. Ela se levantou, incomodada, como se uma frequência invisível tivesse atingido seu cérebro. Com mãos trêmulas, a coisa tapou os ouvidos e começou a se lançar contra a parede, a estrutura metálica gemendo com o impacto. Seus ossos estalavam, mudando de lugar, contorcendo-se em um ritmo que não era natural.
Silon não sentiu medo. Ele sentiu a mesma agonia. O sangue começou a subir pela sua garganta, um gosto metálico e insuportável, conforme ele sentia as dores que rasgavam o ser à sua frente. Suas próprias mãos tremiam, querendo tapar os ouvidos para abafar o que não era som, mas sensação.
E então, o pior aconteceu. A criatura virou a cabeça e o olhou. Não havia maldade nos olhos daquele ser, apenas um reconhecimento doloroso.
Silon abriu a boca para gritar, mas tudo o que saiu foi uma torrente de sangue que tingiu o chão de escuro.
Ele despertou.
O ar do quarto era estático. O silêncio da noite parecia pesar toneladas. O peito de Silon subia e descia rápido, e quando ele levou a mão à boca, seus lábios ainda estavam úmidos pelo gosto metálico do pesadelo. Mas não era um sonho comum. A dor ainda pulsava em seus ossos, uma lembrança residual de algo que, em algum lugar, continuava a se contorcer.