Planos Marshall

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Summary

Stanley Marshall sempre soube como as coisas funcionam. Pessoas, decisões, consequências. Durante muito tempo, isso foi suficiente. Mas existem coisas que não seguem padrão. E existem limites que não podem ser ignorados. Agora, com o tempo se tornando incerto, dentro e fora dele, Stanley precisa voltar para onde tudo começou. Antes que não reste mais nada para controlar.

Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Ainda Está Aqui?

O dia começava antes do sol alcançar completamente o pátio.


A luz entrava torta pelas janelas altas, atravessando o pó suspenso no ar.


O asilo acordava aos poucos.


Não por vontade.


Por rotina.


Na cozinha, panelas batiam mais alto do que o necessário.


Alguém reclamava em espanhol, sem esperar resposta.


Café fraco sendo servido em copos de plástico.


Pão seco.


Sempre o mesmo.


No corredor principal, uma televisão antiga já estava ligada.


Volume alto demais para o horário.


Um programa matinal qualquer.


Risos enlatados.


Ninguém assistindo de verdade.


Uma senhora falava sozinha perto da parede.


Um homem repetia a mesma frase para quem passasse.


Outro dormia sentado, o corpo inclinado de um jeito desconfortável.


Ninguém corrigia.


Stanley Marshall já estava acordado.


Sentado na beira da cama.


O quarto era simples.


Duas camas.


Uma ocupada.


A outra vazia.


Lençóis mal esticados.


Uma janela pequena, com vista para parte do pátio externo.


Ele segurava um comprimido na mão.


Observava.


Girava levemente entre os dedos.


Depois colocou na boca.


Engoliu sem água.


Do lado de fora do quarto, passos.


Uma cuidadora parou na porta.


— Senhor Marshall? Já acordado?


Stanley levantou os olhos.


Assentiu.


Ela entrou.


Cheiro de perfume barato misturado com desinfetante.


— Hoje é quarta, lembra?


Ele continuou olhando para ela.


Sem responder.


— Dia do doutor Arthur — completou ela.


Como se ele pudesse esquecer.


Stanley levantou devagar.


Sem pressa.


Colocou os pés no chão.


O piso frio.


Levemente irregular.


Ele caminhou até a pia.


Abriu a torneira.


A água demorou dois segundos a sair.


Sempre dois.


Lavou o rosto.


Secou com uma toalha áspera.


No reflexo do espelho pequeno, o rosto dele parecia mais velho do que realmente era.


Ou talvez mais cansado.


Difícil dizer.


A cuidadora já esperava na porta.


— Vamos?


Stanley passou por ela.


Sem responder.


No corredor, o movimento aumentava.


Carrinho de remédios sendo empurrado.


Rodas desalinhadas.


Um som repetitivo.


Uma outra cuidadora falou alto:


— Cuidado com ele, ele cai fácil.


Stanley ouviu.


Não reagiu.


A mão da cuidadora tocou o braço dele.


Leve demais.


Simulada.


— Devagar, senhor Marshall…


Stanley deixou.


Enquanto caminhavam, ele observava.


Não tudo.


Só o que mudava.


Uma porta que normalmente ficava fechada, aberta.


Um funcionário novo no lugar errado.


Um copo no chão que não estava ali ontem.


E o reflexo.


De novo.


Num vidro torto.


Ele e a cuidadora.


Ela maior.


Ele menor.


Stanley ajustou levemente a postura.


Continuou andando.


Sem olhar para baixo—


evitou duas partes do piso.


O estalo veio atrás.


E então—


a porta da sala de terapia.


Entreaberta.


Stanley entrou.


A sala de terapia era organizada demais.


Mesa limpa.


Papéis alinhados.


Uma caneta perfeitamente reta.


Arthur estava sentado.


Jovem.


Atento demais.


Observando como quem já vinha pensando antes da conversa começar.


Stanley entrou.


Sentou.


Olhou rápido para a mesa.


— Você mudou seu trajeto hoje — disse Arthur.


Stanley não respondeu de imediato.


— Não.


Arthur inclinou a cabeça.


— Demorou menos para chegar.


(pausa)


— E você não passou pelo corredor central.


Stanley olhou para ele.


Sem pressa.


— Estava vazio.


Arthur manteve o olhar.


— Não estava.


Silêncio.


Arthur pegou um papel.


Não olhou para ele.


— Eu tenho registros de movimentação — continuou.


(pausa leve)


— Você começou a evitar pessoas nas últimas semanas.


Stanley não reagiu.


— E ao mesmo tempo… — Arthur encostou a caneta na mesa

— …você tem se colocado em lugares específicos com mais frequência.


Agora Stanley olha.


Direto.


— Jardim.


(pausa)


— Corredor da cozinha.


(pausa)


— Ala leste, fora do seu setor.


Silêncio.


Mais pesado.


— Isso não é aleatório — disse Arthur.


Stanley apoia as mãos na mesa.


— O senhor está observando muito.


Arthur respondeu sem mudar o tom:


— Não tanto quanto você.


Uma pausa.


Curta.


Cortante.


Arthur se inclina levemente.


— Você não prevê as coisas, Stanley.


(pausa)


— Você testa até que elas aconteçam.


O ventilador parece mais alto.


O ar mais pesado.


Stanley não responde.


Arthur continua:


— Pequenos ajustes.


— Pequenas escolhas.


— E depois você espera.


A caneta rola um milímetro.


— Isso funciona… — Arthur pausa

— …quando as pessoas se comportam como você espera.


Silêncio.


Arthur levanta os olhos.


Agora direto.


— Mas você já percebeu que isso não está funcionando como antes?


A visão de Stanley falha.


Por um instante.


Vozes.


Misturadas.


Distantes.


Arthur continua, sem perceber o efeito completo:


— Você está perdendo precisão.


Stanley aperta a lateral da cadeira.


Respira.


Volta.


— Não — diz Stanley.


Baixo.


Controlado.


Arthur não recua.


— Você mudou três rotinas nas últimas duas semanas.


— Nenhuma se manteve estável.


Silêncio.


— Isso te incomoda — diz Arthur.


Stanley olha para a caneta fora do lugar.


— Não é sobre controle — continua Arthur

— é sobre o que acontece quando você não consegue manter ele.


Stanley levanta os olhos.


Agora mais direto.


Mais presente.


— O senhor está tentando chegar em algum lugar — diz Stanley.


Arthur sustenta.


— Estou.


(pausa)


— Você tem medo de ficar aqui…


(pausa)


— …mas tem mais medo de não saber o que vem depois.


Silêncio.


Denso.


Stanley levanta.


— Terminou?


Arthur não responde.


Stanley sai.


A caneta permanece desalinhada.



O corredor parecia mais longo na volta.


Mais silencioso.


De algum quarto, vinha o som baixo de uma televisão.


Stanley diminuiu o passo.


Reconhecia aquele som.


Parou diante de uma porta entreaberta.


A de James.


A luz lá dentro era mais quente.


A televisão ligada projetava flashes de cor nas paredes.


Um programa qualquer.


Volume baixo.


Stanley ficou alguns segundos na porta.


Observando.


A respiração de James.


O ritmo da TV.


A bandeja ao lado da cama.


Entrou.


O quarto tinha cheiro doce.


Persistente.


Torta pela metade.


Leite de soja.


James estava na cama.


O olhar preso na televisão, mas sem realmente acompanhar.


Stanley fechou a porta com cuidado.


Se aproximou.


Desligou a TV.


O silêncio mudou o espaço.


James virou o rosto devagar.


Reconheceu.


Um leve sorriso.


— Trouxeram isso de novo — disse Stanley, olhando a bandeja.


— Eu gosto… — respondeu James.


Stanley sentou.


A cadeira rangeu baixo.


Pegou o copo.


— Eu sei.


Silêncio.


James respirou fundo.


— Meu filho vem amanhã…


Stanley olhou para ele.


— Quinta.


James hesitou.


— Ele disse… talvez…


Stanley manteve o olhar.


— Ele vem.


James relaxou.


Fechou os olhos por um momento.


Stanley ficou ali mais tempo do que o necessário.


Observando.


A posição do corpo de James.


A dificuldade de levantar.


O esforço para respirar.


Quando saiu do quarto, duas cuidadoras estavam no corredor.


— Ele não pode ficar só no quarto — disse uma.


— Ele não aguenta muito tempo fora — respondeu a outra.


— Mas ficar deitado o dia inteiro piora.


— Então leva mais cedo.


— Não tem gente.


— Então dá um jeito.


Stanley passou por elas.


Sem olhar.


Mas ouviu.


No dia seguinte, durante a medicação, Stanley demorou mais do que o normal.


Engoliu os comprimidos devagar.


Tossiu.


Forçou um pouco.


A cuidadora se aproximou.


— Tá tudo bem?


Stanley não respondeu de imediato.


Apenas assentiu.


Olhou para o corredor.


Depois para a janela.


Mais tarde, ao passar novamente pelo quarto de James, a porta estava fechada.


Uma cuidadora saía de lá.


— Ele precisa tomar sol — disse ela para outra.


— Então leva — respondeu a outra, cansada.


Dois dias depois, Stanley entrou no quarto de James novamente.


Sem televisão dessa vez.


James estava acordado.


O olhar mais cansado.


Stanley se aproximou.


— Não te levaram hoje.


James demorou para responder.


— Disseram… depois…


Stanley ficou em silêncio.


Olhou para a janela.


A luz entrando.


Depois para a cadeira ao lado da cama.


Vazia.


— Fica pesado aqui — disse Stanley, mais baixo.


James não respondeu.


Mas concordou.


No corredor, Stanley parou ao lado do carrinho de medicação.


Uma cuidadora procurava algo.


— Ele precisa sair mais cedo — disse Stanley.


A cuidadora olhou.


— Quem?


— James.


Ela suspirou.


— Não tem horário.


Stanley respondeu simples:


— Então leva junto quando já estiver levando outros.


A cuidadora hesitou.


— Talvez.


No dia seguinte:


— Leva ele junto — disse uma cuidadora para outra.


— Agora?


— Antes que esqueçam depois.


James foi levado ao jardim mais cedo.


Sem registro.


Sem planejamento.


Só… decisão prática.


Do lado de fora, ele foi colocado em um banco.


O corpo leve demais para resistir.


Os olhos fechando por alguns segundos.


Stanley observava de longe.


Sem se aproximar.



Alguns minutos depois, seguiu pelo mesmo corredor.


Sem pressa.


A porta para o jardim estava aberta.


Sempre ficava, mas nem sempre parecia convidativa.


Uma placa antiga, com a pintura descascando:


JARDÍN


A luz do lado de fora era mais forte.


Mais crua.


Stanley atravessou.


O jardim não era exatamente um jardim.


Era um espaço cercado por grades altas, enferrujadas em alguns pontos.


O chão alternava entre terra batida e pedaços irregulares de grama.


Algumas áreas secas.


Outras mal cuidadas.


Havia três bancos de concreto.


Todos rachados.


Um deles ligeiramente inclinado.


Uma árvore no canto tentava fazer sombra.


Mas não conseguia cobrir nem metade do espaço.


James estava lá.


Sentado em um dos bancos.


A cabeça levemente caída para frente.


O corpo solto demais para alguém acordado por completo.


Mas respirando melhor do que no quarto.


A cuidadora que o levou já não estava mais ali.


Outros dois pacientes ocupavam o espaço.


Um caminhava em círculos curtos.


O outro olhava fixo para a grade, como se esperasse algo do outro lado.


E no canto oposto—


um cercado improvisado.


Baixo.


Preso com arame.


Ali estava Mari.


A cachorra do asilo.


Pequena.


Branca, ou pelo menos já foi.


O pelo longo, embaraçado em algumas partes.


As pontas levemente amareladas.


Duas tigelas no chão.


Uma com água.


Outra com ração.


Nenhuma cheia.


Mari estava deitada.


A cabeça apoiada nas patas.


Olhos atentos.


Ela levantou assim que viu Stanley.


Demorou um segundo para reconhecer.


Depois—


latiu.


Alto.


Frequente.


Sem variação.


Stanley parou a alguns metros.


Observou.


Não a cachorra.


O comportamento.


A repetição.


O padrão.


Mari puxava a coleira curta.


Voltava.


Puxava de novo.


Sem mudar nada.


— Calma.


Ela não parou.


Stanley olhou ao redor.


Ninguém prestava atenção.


Deu mais alguns passos.


Se aproximou do cercado.


Abaixou.


Sem pressa.


Mari recuou um pouco.


Depois avançou.


Cheirou o ar.


Stanley estendeu a mão.


Não tocou.


Esperou.


Mari aproximou o focinho.


Encostou.


Recuou.


Voltou.


Stanley soltou a coleira.


Devagar.


Mari avançou dois passos.


Parou.


Olhou ao redor.


Para a grade.


Para os bancos.


Para Stanley.


Como se estivesse tentando entender o que fazer com aquilo.


Não correu.


Não fugiu.


Depois de alguns segundos—


voltou.


Parou perto dele.


Stanley prendeu a coleira novamente.


— É.


Ele se levantou.


Antes de sair, olhou para James.


Ainda no banco.


Respiração mais estável.


Stanley ficou ali mais alguns segundos.


Sem fazer nada.


Depois virou.


Saiu.


Atrás dele, Mari não latiu.


O jardim começava a encher em horários diferentes agora.


Nada oficial.


Só… acontecendo.


Alguns pacientes chegavam antes.


Outros nem chegavam.


Ninguém parecia acompanhar direito.


Stanley sentou em um dos bancos.


Mari estava deitada no canto.


Levantou a cabeça quando ele chegou.


Não latiu.


Do outro lado do jardim, o mesmo homem.


Sempre nos limites.


Nunca no centro.


Postura firme.


Olhos atentos.


As mãos imóveis.


Sem tremor.


Stanley já tinha visto ele antes.


Mais de uma vez.


Sempre perto de saídas.


Uma vez, no corredor da cozinha.


Um funcionário abriu a porta.


Saiu por alguns segundos.


Quando voltou—


o homem já não estava lá.


Stanley percebeu.


Não reagiu.


Minutos depois, ao atravessar o pátio lateral—


o homem voltava.


Pelo mesmo caminho.


Sem pressa.


Sem olhar para ninguém.


Como se nunca tivesse saído.


Outro dia, duas cuidadoras passaram conversando.


— O Guilherme sumiu de novo.


— Ele sempre volta.


— Por que deixam?


— Porque é mais fácil.


Stanley ouviu.


Guardou.


Agora, no jardim, os dois estavam mais próximos.


Dois bancos de distância.


Depois de alguns minutos—


Stanley levantou.


Sentou ao lado.


Sem olhar direto.


Silêncio.


— Você sai — disse Stanley.


Guilherme não respondeu.


Mas não ignorou.


— Já vi.


Uma pausa.


— Porta da cozinha. Lateral.


Guilherme virou levemente o rosto.


Olhou pela primeira vez.


— Às vezes.


A voz firme.


Sem hesitação.


Silêncio.


O vento moveu folhas secas no chão.


Stanley manteve o olhar à frente.


— Você consegue sair sem ninguém notar.


(pausa)


— Por que volta?


Guilherme ficou em silêncio por alguns segundos.


Não parecia ofendido.


Nem desconfortável.


Apenas… pensando.


— Aqui tem cama — disse ele.


(pausa)


— Tem comida.


Mais uma pausa.


— Ninguém cobra nada.


Stanley escutava.


Sem interromper.


Guilherme deu um leve encolher de ombros.


— Lá fora… não tem ninguém esperando.


Silêncio.


— Então eu volto.


Simples.


Sem peso.


Sem drama.


Stanley assentiu levemente.


Como se aquilo confirmasse algo.


O som distante de um portão metálico batendo ecoou.


Stanley colocou a mão no bolso.


Retirou um envelope.


Colocou no banco.


Entre os dois.


Guilherme olhou.


Depois olhou para Stanley.


— Pra quê?


Stanley respondeu sem olhar para ele:


— Pra quando sair.


Uma pausa.


— E não voltar.


Silêncio.


Mais pesado agora.


Guilherme não respondeu.


Mas não afastou o envelope.


Stanley levantou.


Saiu.


Guilherme permaneceu.


O envelope ainda ali.


Entre decisão e hábito.


O corredor estava mais vazio quando Stanley voltou para dentro.


O barulho do jardim ficou para trás assim que a porta fechou.


Aqui dentro, o som era outro.


Mais abafado.


Mais repetido.


Um carrinho de medicação vinha na direção oposta.


Rodas desalinhadas.


Um rangido curto a cada volta.


Sempre no mesmo ponto.


A cuidadora empurrando nem olhou direito.


— Cuidado — disse, sem parar.


Stanley encostou levemente na parede.


Deixou passar.


O cheiro era mais forte ali.


Remédio.


Desinfetante.


Algo cozinhando longe demais para identificar.


Ele voltou a andar.


Mais devagar do que antes.


Uma porta estava aberta.


Não estava antes.


Stanley passou por ela.


Olhou de relance.


Cama vazia.


Lençol dobrado errado.


Sem importância.


Seguiu.


No corredor principal, duas cuidadoras conversavam perto do quadro de horários.


Uma delas segurava uma prancheta.


— Isso tá errado — disse ela.


— Sempre tá — respondeu a outra.


— O turno da noite não preencheu nada.


— Então a gente ajusta.


A prancheta mudou de mão.


Uma caneta presa por um barbante.


Ela marcou algo.


Riscou outra coisa por cima.


Stanley passou por elas.


Sem olhar diretamente.


Mas acompanhou o movimento.


O quadro de horários ficou para trás.


Mas não saiu da cabeça.


Mais à frente, um paciente discutia com ninguém.


Repetia a mesma frase.


De novo.


E de novo.


Stanley não parou.


Virou no corredor lateral.


O que levava aos quartos.


A porta da cozinha estava entreaberta.


Pouco.


Mas o suficiente.


Ninguém por perto.


Stanley diminuiu o passo.


Não parou.


O som de algo metálico batendo lá dentro.


Uma panela.


Depois silêncio.


Ele passou pela porta.


Sem olhar diretamente.


Mas viu.


O fogão ligado.


Uma chama baixa.


Sozinha.


Stanley continuou andando.


No quarto, a cama estava como ele deixou.


A outra, ainda vazia.


Ele sentou.


Ficou ali por alguns segundos.


Sem fazer nada.


Então abriu a mão.


Nada nela.


Fechou de novo.


Deitou para trás.


Olhou para o teto.


O ventilador girava.


Mesmo ritmo.


Mas não parecia igual.


Do lado de fora, passos.


Alguém passando.


Depois outro.


Stanley virou o rosto levemente.


Escutando.


Um carrinho parou no corredor.


— Já deu o da ala leste? — perguntou uma voz.


— Ainda não — respondeu outra.


— Então leva antes que esqueçam de novo.


Passos se afastando.


Silêncio.


Stanley fechou os olhos.


Por um instante—


as vozes voltaram.


Baixas.


Sem forma.


Ele abriu os olhos.


O ventilador continuava ali.


Igual.


Stanley levantou devagar.


Foi até a porta.


Abriu.


Olhou o corredor.


Nada fora do lugar.


Ainda.


Ele fechou.


Sem fazer barulho.


Voltou para a cama.


Sentou primeiro.


Ficou alguns segundos imóvel.


Escutando.


Então se deitou.


Os olhos permaneceram abertos por um instante.


Acompanhando o movimento lento do ventilador.


Depois—


fechou.


Mas não completamente.


O tempo passou sem marcar.


Um som.


Distante.


Metal contra metal.


Stanley não se moveu.


Outro som.


Mais próximo.


Algo caindo.


O ventilador continuava.


Mesmo ritmo.


Uma voz no corredor.


Baixa.


Confusa.


— …tem alguma coisa…


Silêncio.


Então—


um estalo seco.


Stanley abriu os olhos.


Não rápido.


Controlado.


Inspirou.


O ar estava diferente.


Mais pesado.


Ele virou o rosto levemente.


Escutando melhor.


Passos.


Apressados.


Sem padrão.


Uma porta abriu com força.


— Ei! Ei!


Outra voz.


Mais distante.


— Tá saindo fumaça!


Stanley sentou na cama.


Sem pressa.


Olhou para a porta.


Uma sombra passou por baixo.


Rápida.


Ele levantou.


Foi até a porta.


Abriu.


O corredor não era mais o mesmo.


Fumaça fina no teto.


Descendo devagar.


Uma cuidadora corria de um lado para o outro.


Sem direção.


— Vai pro jardim! Vai pro jardim!


Ela repetia.


Sem olhar para ninguém específico.


Um paciente saiu do quarto ao lado.


Confuso.


Parou no meio do corredor.


Stanley passou por ele.


Sem encostar.


O cheiro agora era claro.


Queimado.


No fundo do corredor—


um brilho laranja refletia na parede.


Alguém gritou.


— FOGO!


Agora o som mudou.


Portas abrindo.


Gente correndo.


Alguém chorando.


O alarme tentou tocar.


Falhou.


Um som quebrado.


Intermitente.


Stanley caminhava.


Mesmo ritmo.


Nada nele acompanhava o caos.


Ele virou o corredor.


Mais fumaça.


Mais gente.


Uma cadeira de rodas passou rápido demais.


Quase tombou.


Stanley parou por um segundo.


Observou.


E então—


continuou.


Stanley continuou andando.


O corredor estava mais cheio agora.


Gente demais para um espaço que antes parecia vazio.


Uma senhora segurava o braço de uma cuidadora.


— O que tá acontecendo?


A cuidadora não respondeu.


Tentava puxar ela.


Sem conseguir direito.


Stanley desviou.


Quase esbarrou em outro paciente.


Parou por um segundo.


Recalculou o caminho.


Seguiu.


A fumaça descia mais.


Agora já incomodava nos olhos.


Ele piscou.


Uma vez.


Outra.


Um homem passou correndo.


Bateu no ombro dele.


Stanley perdeu o equilíbrio por um instante.


A mão foi na parede.


Se apoiou.


Ficou ali meio segundo a mais do que gostaria.


Depois seguiu.


Na curva do corredor, duas pessoas tentavam empurrar uma cadeira de rodas ao mesmo tempo.


Travaram.


Discutiram.


— Vai! Vai!


— Eu tô indo!


Stanley passou por trás.


Sem interferir.


Mais à frente, a saída.


Mais à frente, a saída.


Luz piscando.


Gente entrando.


Outros saindo.


O ar ali era melhor.


Ainda quente… mas respirável.


Um socorrista apareceu na frente dele.


Jovem.


Rosto suado.


Respiração curta, já no limite de quem está fazendo coisa demais ao mesmo tempo.


Enquanto falava, ajustava o próprio cinto com a mão—


onde uma carteira ficava presa de qualquer jeito.


Couro escuro.


Gasto nas bordas.


Levemente deformado, como se já tivesse sido dobrado mais vezes do que devia.


— Senhor, não pode sair por aqui—


Stanley parou.


Olhou para ele.


Depois ao redor, como se estivesse se situando.


— Eu já estou fora.


O socorrista hesitou.


Alguém gritou o nome dele atrás.


Ele olhou por cima do ombro.


— Preciso que o senhor vá pro ponto de encontro—


Stanley assentiu.


Antes mesmo da frase terminar.


Deu um passo.


O socorrista segurou o braço dele.


Mais para direcionar do que impedir.


— Por ali—


Stanley girou o corpo junto.


O movimento simples.


Natural.


Quase automático.


O socorrista já não estava mais prestando atenção.


— Já vou! — gritou para trás.


E saiu.


Stanley continuou andando.


Sem pressa.


Misturado ao fluxo.


Só depois de alguns passos, já longe o suficiente para não chamar atenção—


a mão dele foi até o bolso.


Encontrou algo que não estava ali antes.


Puxou.


A mesma carteira.


O couro marcado.


As bordas gastas.


Um leve inchaço de quem guarda mais do que precisa.


Stanley virou ela na mão por um instante.


Como quem avalia.


— Devia trocar isso — murmurou baixo.


Abriu.


Notas.


Algumas dobradas de qualquer jeito.


Outras mais alinhadas.


Ele separou o dinheiro.


Guardou.


A carteira ficou na mão por mais um segundo.


Sem utilidade agora.


Escapou dos dedos.


Desapareceu no chão atrás dele.


Stanley seguiu.


Sem olhar.


Stanley seguiu pela área externa.


O barulho do asilo ainda vinha atrás.


Mais distante agora.


Misturado com sirenes.


Gente falando alto.


Chamando nomes.


O ar estava diferente.


Mais frio.


Ele caminhava sem pressa.


Mas não parava.


Então—


um latido.


Agudo.


Insistente.


Stanley diminuiu o passo.


Virou o rosto.


Mari.


Ainda no cercado.


Pulando contra a coleira curta.


Sem entender o que estava acontecendo.


O som do caos não significava nada pra ela.


Só mudança.


Stanley ficou parado.


Por um instante.


Olhou para o portão.


Aberto.


Gente passando.


Depois para trás.


Fumaça começando a subir mais alto agora.


Mari latiu de novo.


Mais forte.


Stanley desviou o olhar.


Começou a andar.


Dois passos.


Três.


Parou.


Respirou.


Fechou os olhos por um segundo.


Quando abriu—


voltou.


Mais rápido dessa vez.


Se abaixou no cercado.


As mãos demoraram um pouco mais do que o necessário.


O fecho preso.


Mal colocado.


Ele puxou.


Ajustou.


Tentou de novo.


Abriu.


Mari avançou.


Mas não correu.


Ficou próxima.


Como se não soubesse até onde podia ir.


Stanley pegou ela no colo.


— Vem.


Levantou.


Agora não olhou mais para trás.


A estrada começava logo depois do portão.


O asfalto ainda quente.


Marcado por pneus antigos.


O som do asilo ficou menor.


Só sirenes agora.


Mari estava quieta.


Stanley ajustou ela no braço.


Ela escorregou um pouco.


Ele corrigiu.


Seguiu.


A estrada era estreita.


O asfalto irregular, marcado por remendos antigos.


Postes espaçados.


Fios cruzando acima.


Alguns metros à frente—


uma pequena loja.


Luz branca forte vazando pela porta aberta.


Uma placa antiga, meio apagada.


Nada chamativo.


Só… funcional.


Stanley diminuiu o passo.


Olhou rápido para dentro.


Entrou.


O ar mudou.


Frio artificial.


Parado.


Um ventilador girava no canto, rápido demais para fazer diferença.


O zumbido constante preenchia o espaço.


Prateleiras estreitas.


Produtos empilhados sem muita ordem.


Garrafas, pacotes, latas.


Stanley caminhou direto até o fundo.


Pegou uma garrafa de água.


Ficou com ela na mão por um segundo.


Depois pegou outra.


Olhou ao redor.


Um pote plástico simples perto do caixa.


Empilhado com outros.


Pegou um.


Mari se mexeu no braço dele.


Ele ajustou.


Foi até a fila.


Havia duas pessoas na frente.


Uma mulher contando moedas.


E um homem.


O homem segurava uma carteira aberta.


Mexia nos compartimentos.


Tentando achar algo que não estava ali.


Ao lado dele, uma menina pequena.


Segurando uma caixa de leite.


Apertando contra o peito.


Sem reclamar.


— Não passou… — disse a atendente.


Sem olhar muito.


Já acostumada.


O homem tentou de novo.


Mesmo resultado.


Ele soltou um pequeno riso sem graça.


Passou a mão no rosto.


— Debe ser el banco… siempre hace eso…


A menina olhou para ele.


Depois para o leite.


— Eu posso voltar depois… — disse ele, mais baixo agora.


A atendente já começava a tirar o produto do balcão.


Stanley deu um passo à frente.


Colocou o dinheiro no balcão.


— Passa junto.


O homem virou rápido.


Surpreso.


— No, no, señor… não precisa—


Stanley não olhou para ele.


Só para a atendente.


— Passa.


Ela assentiu.


Pegou o dinheiro.


Registrou.


Silêncio.


O homem ainda hesitou.


— Señor… de verdad… eu posso—


Stanley pegou a água.


Esperou o restante.


— Não precisa.


A menina agora olhava para Stanley.


Curiosa.


O homem fechou a carteira devagar.


Ainda meio sem entender.


— Gracias… de verdad…


(pausa)


— Dios lo bendiga, señor…


Stanley não reagiu.


A atendente entregou o troco.


Ele não contou.


Guardou.


Saiu.


O homem veio atrás.


Apurando o passo.


— Señor— espera—


Stanley parou.


Virou levemente.


O homem se aproximou.


Respiração um pouco acelerada.


— Como posso agradecer?


(pausa)


— De verdad… isso não se esquece assim…


Stanley observou ele por um segundo.


Como se medisse algo.


— Me dá seu número.


O homem franziu a testa.


Surpreso.


— Número?


Stanley assentiu.


— No futuro… a gente pode conversar.


Silêncio curto.


O homem ainda processava.


Depois assentiu rápido.


— Sí… sí, claro…


Procurou no bolso.


Pegou um papel amassado.


Uma caneta.


Escreveu apoiado na própria mão.


— Aqui… é meu… pode ligar quando quiser, señor…


(pausa, pequeno sorriso)


— Me chamo Rafael.


Stanley pegou o papel.


Olhou rápido.


Guardou.


— Stanley.


Rafael assentiu.


Como se guardasse o nome com cuidado.


— Gracias… Don Stanley.


Stanley não corrigiu.


Virou.


Saiu.


Do lado de fora, colocou o pote no chão.


Abriu a água.


Despejou.


Mari foi direto.


Bebeu rápido.


Sem pausa.


Stanley ficou ali.


Observando.


A estrada à frente seguia vazia.


E pela primeira vez desde que saiu—


não havia ninguém chamando.


Mari terminou de beber.


Ainda ofegante.


Stanley pegou o pote.


Virou o restante da água no chão.


Deixou ali.


Ergueu ela de volta para o braço.


A estrada seguia quase vazia.


O céu começava a escurecer.


Sem pressa.


Ao longe—


um som.


Motor.


Grave.


Constante.


Stanley olhou.


Faróis surgiram na curva.


Cortando a poeira leve do caminho.


O ônibus se aproximou devagar.


Como se aquele lugar não exigisse pressa de ninguém.


Parou com um suspiro longo de ar.


A porta abriu.


O motorista olhou rápido.


Sem curiosidade.


Só mais alguém entrando.


Stanley subiu.


O primeiro degrau rangeu.


O segundo menos.


Ele tirou o dinheiro do bolso.


Pagou.


O motorista já estava olhando para frente de novo.


Stanley seguiu pelo corredor estreito.


Algumas pessoas sentadas.


Espalhadas.


Silenciosas.


Cada uma no próprio espaço.


Ele foi até o fundo.


Sentou perto da janela.


Mari quieta no colo.


O corpo pequeno finalmente relaxando.


O ônibus começou a andar.


Lento primeiro.


Depois mais firme.


A luz da rua passava pelo vidro.


Distorcida.


Interrompida.


Stanley apoiou o braço no encosto.


Olhou para fora.


A estrada ficando para trás.


O asilo já não estava mais visível.


Só o escuro.


E os poucos pontos de luz.


O vidro refletiu.


Por um instante—


o rosto dele apareceu ali.


Sem a cuidadora.


Sem o corredor.


Sem ninguém ao lado.


Diferente.


Stanley observou.


Não por muito tempo.


Desviou.


Mari se mexeu levemente.


Ele ajustou ela.


Sem olhar.


O ônibus seguiu.


E o som do motor tomou o lugar de tudo.