Chapter 1 †“Saint Aruda”†
A pequena cidade de Saint Aruda parecia viver suspensa no tempo.
Aninhada entre colinas suaves e ruas de pedra antigas, no sul da Europa, ela respirava silêncio, tradição… e fé. Os sinos da igreja marcavam as horas como um coração constante, ecoando pelos telhados envelhecidos e pelas janelas sempre entreabertas. Era ali que Nathaniel crescera.
Desde muito jovem, ele aprendera a ajoelhar antes mesmo de compreender o peso daquilo.
Sua mãe, uma mulher de devoção inabalável, era presença constante nos bancos de madeira da igreja. Seus dedos sempre entrelaçados em oração, seus lábios murmurando palavras sagradas mesmo fora das missas. Nathaniel a observava com olhos atentos, absorvendo cada gesto, cada ritual, cada silêncio reverente.
Não demorou para que aquilo deixasse de ser apenas um costume.
Tornou-se parte dele.
Ainda criança, Nathaniel já demonstrava uma dedicação incomum. Enquanto outros corriam pelas ruas ou brincavam nas praças, ele preferia permanecer dentro da igreja, envolto pelo cheiro de incenso e pelo eco suave das orações. Havia algo naquele lugar que o chamava — algo que ele não sabia explicar, mas sentia profundamente.
Era como se estivesse destinado àquilo.
Os anos passaram como páginas viradas pelo vento. Sua fé não vacilou, não enfraqueceu. Pelo contrário, tornou-se mais rígida, mais presente, mais necessária. Nathaniel cresceu moldando a si mesmo para se tornar puro, digno… aceitável aos olhos de Deus.
E então, ainda jovem, tornou-se sacerdote.
A cidade o acolheu com admiração. Para muitos, ele era um símbolo de devoção genuína, alguém que havia sido escolhido. Seus sermões, ainda que simples, tocavam os fiéis. Sua presença trazia conforto.
Mas por trás de sua imagem serena… havia insegurança.
Nathaniel tremia antes de cada missa.
Seus dedos vacilavam ao virar as páginas das escrituras. Às vezes esquecia trechos, tropeçava nas palavras, perdia o ritmo das orações. O silêncio da igreja, que antes o confortava, tornava-se opressor nesses momentos. Cada erro parecia ecoar mais alto do que deveria.
Ele se sentia insuficiente.
Mas persistia.
Com o tempo, a prática trouxe alguma estabilidade. Ele começou a memorizar melhor, a controlar o nervosismo, a esconder as falhas por trás de uma postura mais firme. Os fiéis continuavam a vê-lo como alguém digno, alguém escolhido.
E talvez… ele começasse a acreditar um pouco nisso também.
Foi então que as coisas mudaram.
Não de forma brusca. Não de maneira evidente.
Mas o suficiente.
Tudo começou com uma sensação.
No início, era sutil — quase insignificante. Um arrepio repentino, um desconforto inexplicável, como se estivesse sendo observado. Nathaniel atribuía isso ao cansaço, à pressão, ao peso de suas responsabilidades.
Mas a sensação persistia.
E crescia.
Durante suas orações solitárias, ele começou a perceber algo… estranho. Um silêncio diferente. Não o silêncio acolhedor da igreja vazia, mas algo mais denso, mais carregado. Como se o ar ao seu redor estivesse… ocupado.
Ele passou a olhar por cima do ombro com mais frequência.
Nada.
Sempre o vazio.
Ainda assim, não conseguia ignorar.
Com o passar dos dias, aquilo se intensificou.
Às vezes, sentia como se algo estivesse próximo demais. Como se uma presença invisível estivesse pairando ao seu redor, circulando, observando. Em certos momentos… tocando.
Um roçar leve.
Quase imperceptível.
Ele poderia jurar que havia sentido algo… mas, ao tentar lembrar, a sensação parecia escapar, como um sonho que se desfaz.
Seu coração acelerava, suas mãos suavam, e ele se virava rapidamente, esperando — temendo — encontrar algo atrás de si.
Nunca havia nada.
Apenas o vazio.
Apenas a ausência.
Mas não o mesmo silêncio de antes.
Agora, havia algo errado nele.
Algo…
vivo.
E pela primeira vez em toda a sua vida, Nathaniel — o jovem que dedicara tudo à fé, à pureza, à devoção — sentiu algo que não conseguia transformar em oração.
Medo.
E no fundo desse medo… uma certeza inquietante começava a surgir.
Ele não estava mais sozinho.