Todo mundo me esqueceu
Todo mundo esqueceu quem eu sou.
Minha mãe.
Minha irmã.
Minha própria história.
Como se eu nunca tivesse existido.
Não foi metáfora.
Não foi exagero.
Foi real.
Eu soube no instante em que abri os olhos.
O teto branco foi a primeira coisa que vi. Branco demais. Limpo demais. Frio demais. A luz acima de mim ardia nos meus olhos, como se eu tivesse passado tempo demais no escuro.
O som veio depois.
Um bip constante. Ritmado. Irritantemente estável.
Hospital.
O ar tinha cheiro de álcool, de algo esterilizado demais para ser confortável. Meu corpo estava pesado, como se tivesse sido drenado de dentro para fora. Cada movimento parecia exigir esforço demais.
Minha garganta ardeu quando tentei falar.
— Mãe…
Minha voz saiu baixa.
Fraca.
E ninguém respondeu.
Virei o rosto lentamente. A poltrona ao lado da cama estava vazia. Nenhuma bolsa. Nenhum casaco. Nenhum sinal de que alguém tivesse estado ali por mim.
Engoli em seco.
Tudo bem.
Minha mãe devia estar falando com um médico. Sophia provavelmente estava no corredor, nervosa como sempre.
Era isso.
Tinha que ser.
A porta se abriu.
Uma enfermeira entrou com uma prancheta nas mãos. Jovem. Cabelos presos. Um sorriso profissional que não alcançava os olhos.
— Que bom que acordou.
Minha respiração acelerou.
— Minha mãe já chegou?
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Sua mãe?
— Eleanor Montgomery. — minha voz saiu mais firme — E minha irmã, Sophia.
O sorriso dela vacilou.
Foi pequeno.
Mas eu vi.
— Qual é o seu nome? — ela perguntou.
Meu estômago apertou.
— Charlotte Montgomery.
Ela olhou para a prancheta.
Folheou uma página.
Depois outra.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Tem algum problema? — perguntei.
— Só preciso confirmar algumas informações.
— Eu acabei de confirmar.
— O nome não consta nos dados de entrada.
O mundo pareceu inclinar.
— Então vocês erraram.
— Você foi encontrada sem documentos.
— Então liga pra minha mãe.
Ela hesitou.
E foi aí que o medo começou.
— Você lembra o número?
Lembrei.
Digitei automaticamente.
Chamou.
Uma vez.
Duas.
Na terceira, atenderam.
Meu peito se encheu de alívio.
— Mãe.
Silêncio.
Então:
— Quem está falando?
Franzi a testa.
— Mãe, sou eu.
— Acho que você ligou para o número errado.
Meu coração falhou.
— Não. Sou eu.
— Quem é você?
O ar sumiu.
— Para com isso.
Minha voz tremeu.
— Charlotte.
Silêncio.
Um silêncio longo demais.
— Eu não conheço nenhuma Charlotte.
Meu corpo inteiro ficou frio.
— Isso não tem graça.
— Você deve estar enganada, querida.
Querida.
Ela só usava essa palavra com estranhos.
— Sophia está aí?
— Minha filha está ocupada. E eu realmente não sei quem é você.
Clique.
A ligação caiu.
Fiquei olhando para o telefone como se ele pudesse desfazer aquilo.
Não desfez.
Disquei o número de Sophia.
Ela atendeu rápido.
— Alô?
— Sophia.
— Quem está falando?
Meu peito apertou.
— Para. Sou eu.
Ela soltou uma risada curta.
— Isso é alguma piada?
— Charlotte.
Silêncio.
Então, fria:
— Eu não conheço você.
Desliguei.
Minha mão tremia.
Meu corpo inteiro parecia errado dentro da própria pele.
— Isso não está acontecendo…
A enfermeira se aproximou.
— Senhorita—
— Não encosta em mim.
Ela parou.
— Acho melhor chamar o médico.
— Eu sei quem eu sou.
Mas ninguém mais sabia.
O médico entrou pouco depois. Dr. Mitchell. Calmo. Observador.
Perguntou tudo.
Meu nome.
Minha idade.
Minha vida.
Eu respondi tudo.
Cada detalhe.
Cada memória.
Ele ouviu.
E então disse:
— Acho melhor chamarmos a polícia.
Ryan apareceu pouco depois.
Silencioso. Atento.
Eu contei tudo de novo.
Ele saiu para verificar.
E voltou com a resposta que destruiu o resto de mim.
— A família Montgomery existe.
Meu coração disparou.
— Então—
— Eles dizem não conhecer você.
O silêncio foi pesado.
— Isso não é possível.
— Também não encontrei registros no seu nome.
Como se eu não existisse.
Como se nunca tivesse existido.
— Eu preciso sair daqui.
— Talvez você—
— Eu preciso ir pra casa.
Mas eu não tinha mais uma.
A porta se abriu novamente.
E o mundo parou.
Nathan Caldwell.
Ele estava ali.
Exatamente como eu lembrava.
Meu coração disparou.
— Nathan…
O nome escapou.
Ele me olhou.
Calmo.
Frio.
Distante.
— O senhor conhece a paciente? — Ryan perguntou.
Nathan não respondeu de imediato.
Apenas me observou por um segundo.
Então:
— Não.
Simples.
Direto.
— Eu a encontrei desacordada perto da avenida Riverside. Só a trouxe para o hospital.
Meu estômago afundou.
— Você está brincando comigo…
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Eu não estou entendendo.
Minha respiração falhou.
— Você me conhece.
— Não.
Sem hesitação.
Sem falha.
Aquilo me desestabilizou.
— Eu sei quem você é.
— Isso é bem possível.
Ryan observava.
Nathan continuou:
— Eu apareço com frequência em revistas. Entrevistas. Eventos. Não seria estranho você me reconhecer.
Meu peito apertou.
— Não é isso.
— Então o quê?
A pergunta veio calma.
Controlada.
— Eu lembro de você…
Um silêncio caiu.
Nathan cruzou os braços.
— Você sofreu um trauma — ele disse. — Confusão de memória não é incomum.
Dr. Mitchell assentiu.
— Às vezes o cérebro tenta preencher lacunas — acrescentou.
Meu coração acelerou.
— Você está dizendo que eu inventei isso?
Nathan me olhou.
E não havia nada.
Nada que eu pudesse segurar.
— Estou dizendo que você pode estar confundindo as coisas.
Minha cabeça girou.
E se fosse isso?
E se eu estivesse errada?
Ele era conhecido.
Importante.
Talvez eu tivesse visto ele antes.
Talvez…
— Não… — sussurrei.
Nathan deu um passo para trás.
Distante.
Controlado.
— O mais importante agora é você descansar.
Minha garganta apertou.
— Você tem certeza?
Ele sustentou meu olhar.
E eu não consegui ler nada.
— Absoluta.
O mundo inclinou.
Minhas certezas começaram a escorregar.
Uma por uma.
E, pela primeira vez desde que acordei…
Eu não sabia mais em quem confiar.
Nem nele.
Nem em mim mesma.