Capitulo I - Existência, Inexistência e Persistência

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Summary

8 anos após escrever o primeiro texto, olho para trás na oportunidade de ver que o mundo não acabou, as dores em sua maioria passaram, as preocupações nem sempre foram válidas, mas o importante é... Mais que textos, isso é um lembrete que até as piores fases, uma hora terminam.

Genre
Other
Author
Joshua
Status
Complete
Chapters
12
Rating
n/a
Age Rating
16+

A estrada das telas vazias

Eu nasci, como qualquer outra pessoa, mais uma tela em branco no mundo, mais uma para brilhar, mais uma para apodrecer.

Sempre senti em mim, não uma vontade, mais a necessidade de me pintar, criar minha pintura, e gritar para o mundo o quanto era linda.

Porém, era só a vontade, não sabia como fazer, e em minha confusão, pintaram por mim, e pintaram em mim, coisas fúteis, sem profundidade, não era a pintura que eu queria para mim, mas diziam que era a que eu precisava.

E assim se fez, por muito tempo, e quando eu já desisti de pintar minha tela, disseram que eu estava pronto para o mundo. E novamente eu despertei, nasci de novo, pois aquilo era fascinante, eu era dono de mim novamente, e ainda assim, não sabia o que pintar, eu era um barco a vapor, em potência máxima, sem saber onde ir.

Então, fui para a academia, não atrás de rédeas, mas de caminhos que me guiasse. Achei incrível o número de telas brancas com o mesmo objetivo, preencher suas telas com pinturas que embriagaram o mundo de fascínio.

Talvez tenha sido ali que aprendi minha primeira lição, talvez a mais importante, não importa o quão bonitas sejam suas cores, se misturadas ardentemente com as tintas de outras pessoas, nascem cores tão bonitas, tão cheias de vida, capazes de colorir até a mais cinzenta das telas.

Com o tempo aprendi também, que nós somos os pintores de nossas próprias telas, e que nossas mentes são as telas, nosso âmbito de aprender são os pincéis, o mundo que nos rodeia são tintas que esperam ser descobertas, e nossas almas são as linhas a traçar os esboços de nossas pinturas no mundo, e logo, de almas pobres, não existia boas pinturas.

Foi derrepente que em uma manhã preguiçosa, uma ideia incendiou o combustível de minha imaginação, e tive o vislumbre do que talvez fosse a pintura mais bonita que alguém algum dia poderia contemplar, foi com ímpeto quase animal, que por incontáveis noites, de incontáveis anos, eu esbocei, tracei linhas, apenas para apagar e desenhá-las novamente, não aceitando nada menos que a perfeição, que era quase incapaz de descrever minha paixão.

E na medida que aumentavam-me os anos, também aumentava meu amor por minha obra-prima, quando por fim a terminei, não tive coragem de olhá-la novamente, temendo que ela perdesse seu encanto.

Quando com temor, compartilhei minha paixão, fui aclamado, exaltado e idolatrado, ganhei prêmios, tive o nome gravado em pedras para a posterioridade, mas nada disso me importava, minha maior gratificação foi ver minhas obras percorrerem as mentes, gerar conversas e debates, ser motivo de inspiração para novas pinturas, proporcionar vastas galerias de conhecimentos, e então me dei conta que, como um tolo, sem acreditar no paraíso, estava nele.

Porém, foi tudo dentro da academia, e logo eu questionava, por que obras tão fantásticas eram restringidas por paredes envelhecidas, quantas mentes fora delas poderiam se aproveitar destas pinturas?

E com maior ânimo, eu vaguei pelo mundo, gritando e mostrando minhas obras, explicando incontáveis vezes, para incontáveis telas em potencial. No começo eu juntava multidões, que vez após a outra, diminuiu, e sem que eu percebesse, eu falava com telas cinzentas, inertes em seu vazio, e com o tempo, já indagavam, o que eu poderia fazer com minha obra, se não apreciá-la, pois não servia para comer, muito menos para construir casas, ou nem mesmo para andar em cima, logo, era inútil, e que eu tinha jogado fora todo o brilhantismo de minha mente, em coisa fúteis, sem proveito.

Eu simplesmente não compreendia, como desprezar algo tão belo, que me enchia de alegria olhar tão belas cores. Foi nesta dúvida que eu me fragmentei, e na desilusão me caiam os pedaços, no desânimo eu não os juntava. E aos poucos se perdia, o que talvez tenha sido meu maior orgulho, na ignorância, se perdia uma mente, Enquanto eu refletia, se realmente não teria sido em vão tudo o que fiz, que meu amor era falho,logo, sem sentido, eu aos poucos selava algo irreversível. Nestas perguntas eu jogava na lama minha alma.

Por fim, minha pintura perdeu as cores, e minha alma empobreceu. Não passava de mais uma tela corrompida pela ignorância daqueles que não enxergam além, que não olham o céu, carregando nas costas o peso dos anos que se passavam, pela estrada dos que estavam por vir.

Eu já não vivia, apenas vagava, sem rumo, me faltava a chama de outrora, eu era apenas um jarro furado, uma tela rasgada, sem um propósito, e inevitavelmente, sem que eu percebesse, do paraíso, descobri o inferno.

Dentro do vazio que me corrompia, usei minha última e fraca brasa, para escrever esta mensagem, às minhas últimas linhas que serão gravadas nas telas de alguém, na esperança que estes últimos rabiscos de uma tela cinzenta, acendam em alguém, a chama que me falta.