O Acordo
Katia
Acordei com o som de pessoas cantando muito mal.
— Parabéns pra você... — Piscei com força contra a luz do sol que filtrava pelas cortinas, meu cérebro demorando a religar. As vozes estavam ficando mais altas, e por um segundo, achei que estava sonhando. Um sonho muito estranho e desafinado.
— Parabéns, querida Katia...
A porta do meu quarto se abriu de repente. Me sentei tão rápido que o cobertor se enrolou nas minhas pernas como uma armadilha. Minha visão ajustou bem a tempo de ver um pequeno desfile entrando no meu quarto — Delia na frente com um cupcake numa bandeja, papai atrás dela segurando o celular como se estivesse filmando um vídeo de reféns, e então... minha mãe. Sorrindo. Quase engasguei, porque minha mãe nunca sorriu pra mim.
— Feliz aniversário, meu bem — ela disse, a voz suave e artificial, como se tivesse borrifado perfume nela antes de deixá-la sair da boca.
Fiquei olhando pra ela como se tivesse nascido uma segunda cabeça. Porque eis a questão: Martha não fazia aniversários. Pelo menos não o meu. Delia ganhava aniversários. Temas de princesa, bexigas, vestidos novos e um coro de parentes fingindo que se toleravam. Eu ganhava silêncios constrangedores e cartões comprados em posto de gasolina na última hora. Uma vez ganhei um aspirador de pó. Eu tinha doze anos.
Então isso aqui? Isso cheirava a armadilha.
— Hm... obrigada? — disse, minha voz rouca de sono e desconfiança.
Delia jogou a bandeja no meu colo como se estivesse apresentando uma oferta de paz. — Fiz o cupcake eu mesma — ela disse docemente, o que significava que a empregada provavelmente fez enquanto Delia supervisionava com uma taça de vinho.
Olhei pra ele. Baunilha com cobertura branca e uma velinha solitária enfiada no centro como um sinalizador de alerta.
— Apaga — meu pai disse animado, mas os olhos dele estavam fazendo aquela coisa que sempre faziam quando ele estava nervoso — ficando em vai e vem, como se procurassem uma saída.
Franzi os olhos. — Tá, sério. O que tá acontecendo?
Minha mãe deu uma risada suave, como se eu fosse boba por ter os instintos certos. Sentou na beira da cama, alisando o cobertor como se já tivesse tocado nele antes.
— Você tem vinte anos agora — ela disse gentilmente. — Essa é uma idade muito importante.
— Legal — respondi, sem graça. — Devo me preparar pra um seminário de imposto de renda ou algo assim?
Delia riu. Papai tossiu.
Mamãe continuou, imperturbável. — Você é uma mulher agora, Katia. E seu pai e eu temos algo muito empolgante e importante pra te contar.
Era isso. O ferrão no glacê. A armadilha embaixo do laço.
Me sentei mais reta. — Tá bom...
Ela me olhou como se estivesse prestes a me entregar uma tiara. — Você foi escolhida pra se casar com Julian Windsor.
O quarto não ficou silencioso — ficou vazio.
Por um segundo, não consegui nem processar as palavras. Fiquei olhando pra ela, esperando uma piada, uma equipe de câmera, qualquer coisa.
— Quem? — perguntei, mesmo tendo ouvido perfeitamente.
— Julian Windsor — ela repetiu, como se eu fosse a idiota da história. — O herdeiro dos Windsor. A família deles tem interesse numa aliança há anos. Você foi prometida quando tinha dezesseis anos.
Piscei. — O quê?!
Papai me deu um olhar envergonhado. — A gente não queria te sobrecarregar na época.
— Na época? Quer dizer quando eu tinha dezesseis anos?!
O sorriso de mamãe não vacilou. — Foi um acordo estratégico. A família dele é muito reservada. Muito poderosa. Isso é uma coisa boa, Katia. Você é incrivelmente sortuda.
Sortuda?
Como se isso fosse algum tipo de prêmio.
Como se eu devesse estar pulando de alegria porque era o bilhete dourado numa loteria genética de bilionários.
— Eu nunca nem o conheci — disse, ainda tentando digerir o horror casual do que ela havia jogado no meu colo como se fosse assunto de brunch.
— A Delia também não — ela respondeu com calma. — Mas se as coisas tivessem sido diferentes, ela teria casado com ele no lugar. Você deveria ser grata que foi escolhida você.
— Caramba — murmurei. — Que generosidade a sua, mãe.
Delia se encostou na coluna da cama, enrolando o cabelo no dedo. — Dizem que ele é muito bonito. E rico. Tipo... rico rico. Os Windsor possuem, tipo, tudo. Cassinos. Petróleo. Talvez até uma espaçonave? Não sei. São super secretos.
— Ótimo — retruquei. — Então vou me casar com um fantasma com fundo fiduciário, e você sabe isso como?
Os olhos da minha mãe endureceram, por apenas um segundo. — Não seja dramática. Ele é real. E eles escolheram você. Isso deveria significar alguma coisa.
— Não — eu disse. — O que significa alguma coisa é que vocês esperaram quatro anos pra me dizer que fui prometida a um completo estranho, como se isso fosse um leilão medieval.
Meu pai pigarreou. — A gente achou melhor esperar os Windsor entrarem em contato. E... eles entraram.
Fiquei olhando pra ele. — Quer dizer que isso tá acontecendo agora?
— Eles organizaram um encontro pra daqui a algumas semanas — minha mãe disse. — Haverá um jantar. Formalidades. Vocês vão se conhecer antes do noivado se tornar público.
Público? Claro. Porque isso não era um relacionamento. Era um comunicado de imprensa esperando pra acontecer.
— Não acredito nisso — disse, minha voz apagada. — Vocês nem me perguntaram.
— Não se pergunta sobre oportunidades assim — ela disse com firmeza. — Você as aceita.
Era esse o tom dela agora. A máscara estava escorregando. Ela não era mais a mãe sorridente com um cupcake. Era a CEO desta família, e eu era uma aquisição falha sendo forçada a uma fusão.
Me levantei da cama, empurrando a bandeja do meu colo. O cupcake tombou de lado, a velinha espalhando cobertura pelo cobertor como uma mancha de mentiras brancas.
— Preciso de ar — disse.
Mamãe se levantou. — Katia, não seja ridícula—
— Não. Preciso pensar. Vou pra Vegas.
Isso a pegou de surpresa. — Vegas?
— Só um fim de semana — menti. — Pra limpar minha cabeça. Vocês querem que eu me case com um estranho? Tudo bem. Mas me deixem ter um momento de liberdade antes.
Ela parecia querer argumentar, mas papai tocou no braço dela. — Deixa ela ir. Ela vai entrar na linha.
Observei a guerra silenciosa se desenrolar na expressão dela. No fim, o controle venceu. Porque ela achava que já o tinha.
— Tudo bem — ela disse, aquele sorriso horrível retornando. — Vai. Aproveite um tempo. Mas não esqueça o que te espera quando você voltar.
Não respondi.
Já estava fazendo as malas no segundo em que a porta fechou.
Eles achavam que estavam me dando espaço. O que não sabiam era que eu não estava indo pra Vegas por ar.
Estava indo pela velocidade.