Chapter 1 Laís
O despertador tocou às seis em ponto.
Laís abriu os olhos devagar, como se o corpo pedisse mais tempo do que a vida permitia. O quarto ainda estava escuro, silencioso demais para uma mente que nunca descansava. Ela desligou o alarme antes do segundo toque e ficou alguns segundos encarando o teto, respirando fundo, tentando se convencer de que aquele era apenas mais um dia.
Levantou-se sem pressa, caminhando até o banheiro. O espelho devolveu uma imagem que ela conhecia bem — e evitava encarar por muito tempo. Ligou o chuveiro, deixando a água quente cair sobre os ombros, como se pudesse lavar não só o cansaço, mas também lembranças que insistiam em permanecer.
Não sentia fome. Ou talvez sentisse, mas tinha aprendido a ignorar.
No passado, ouvir tantas vezes que seu corpo não era suficiente fez com que comer se tornasse um conflito silencioso. “Você engordou”, “assim ninguém vai te querer”. Frases que ecoavam mesmo quando a voz que as dizia já não fazia parte da sua vida. Laís enxugou o rosto rapidamente, afastando o pensamento. Não era hora para isso. Nunca era.
Vestiu-se com roupas sóbrias, discretas. Tudo nela precisava parecer organizada, controlada — mesmo quando por dentro não estava. Prendeu o cabelo, pegou a bolsa, as chaves, e saiu de casa sem olhar para trás.
O trajeto até o trabalho era automático. O trânsito, os sinais, as ruas conhecidas. Quando estacionou em frente ao prédio da empresa, respirou fundo outra vez. Ali, ela sabia exatamente quem precisava ser.
Entrou, cumprimentou alguns colegas com acenos rápidos e seguiu direto para o setor que conhecia melhor do que qualquer outro: a sala de Helena.
Como assistente direta, Laís chegava sempre antes. Gostava da sensação de preparar o ambiente, como se organizar papéis fosse uma forma de colocar a própria mente em ordem. Ligou o computador, alinhou pastas, revisou a agenda do dia. Arrumou sua mesa — posicionada de frente para a de Helena — e, em seguida, a mesa da chefe.
Canetas alinhadas. Documentos separados. Tudo no lugar certo.
Aquela sala era um espaço compartilhado, mas carregava uma distância invisível. Laís sabia seu papel ali. Sabia onde podia pisar, onde precisava recuar. Ainda assim, toda vez que organizava a mesa de Helena, havia algo que a deixava inquieta — uma sensação que ela não sabia nomear, mas sentia crescer aos poucos.
Quando terminou, sentou-se em sua cadeira, abriu a agenda e revisou mentalmente as tarefas do dia. Profissional, eficiente, silenciosa.
Laís não sabia ainda, mas aquele seria o começo de algo que colocaria em dúvida todas as regras que ela havia aprendido a seguir.