Entre regras e Olhares

All Rights Reserved ©

Summary

Helena sempre acreditou que controle era sinônimo de segurança. Como líder respeitada, construiu uma carreira impecável baseada em limites claros e decisões racionais. Laís, sua assistente, é eficiente, dedicada e silenciosamente ferida por um passado que ainda insiste em doer. ‎Entre agendas organizadas, reuniões longas e olhares que duram mais do que deveriam, nasce algo perigoso — um sentimento que nenhuma das duas planejou. O problema não é apenas o amor, mas o lugar onde ele acontece. ‎Enquanto Laís tenta se libertar de um ex-relacionamento tóxico que a ensinou a se diminuir, Helena luta contra o peso da própria posição e o medo de cruzar uma linha irreversível. Quanto mais tentam manter distância, mais se aproximam. ‎Entre escolhas difíceis, silêncios no escritório e decisões que podem mudar tudo, as duas precisarão enfrentar a pergunta que evitam desde o início: até onde vale a pena abrir mão de quem se é para se encaixar… e até quando é possível negar o que se sente? ‎Uma história intensa sobre poder, vulnerabilidade e a coragem de amar sem se esconder.

Genre
Lgbtq
Author
RD
Status
Ongoing
Chapters
13
Rating
n/a
Age Rating
16+

Chapter 1 Laís

O despertador tocou às seis em ponto.

‎Laís abriu os olhos devagar, como se o corpo pedisse mais tempo do que a vida permitia. O quarto ainda estava escuro, silencioso demais para uma mente que nunca descansava. Ela desligou o alarme antes do segundo toque e ficou alguns segundos encarando o teto, respirando fundo, tentando se convencer de que aquele era apenas mais um dia.

‎Levantou-se sem pressa, caminhando até o banheiro. O espelho devolveu uma imagem que ela conhecia bem — e evitava encarar por muito tempo. Ligou o chuveiro, deixando a água quente cair sobre os ombros, como se pudesse lavar não só o cansaço, mas também lembranças que insistiam em permanecer.

‎Não sentia fome. Ou talvez sentisse, mas tinha aprendido a ignorar.

‎No passado, ouvir tantas vezes que seu corpo não era suficiente fez com que comer se tornasse um conflito silencioso. “Você engordou”, “assim ninguém vai te querer”. Frases que ecoavam mesmo quando a voz que as dizia já não fazia parte da sua vida. Laís enxugou o rosto rapidamente, afastando o pensamento. Não era hora para isso. Nunca era.

‎Vestiu-se com roupas sóbrias, discretas. Tudo nela precisava parecer organizada, controlada — mesmo quando por dentro não estava. Prendeu o cabelo, pegou a bolsa, as chaves, e saiu de casa sem olhar para trás.

‎O trajeto até o trabalho era automático. O trânsito, os sinais, as ruas conhecidas. Quando estacionou em frente ao prédio da empresa, respirou fundo outra vez. Ali, ela sabia exatamente quem precisava ser.

‎Entrou, cumprimentou alguns colegas com acenos rápidos e seguiu direto para o setor que conhecia melhor do que qualquer outro: a sala de Helena.

‎Como assistente direta, Laís chegava sempre antes. Gostava da sensação de preparar o ambiente, como se organizar papéis fosse uma forma de colocar a própria mente em ordem. Ligou o computador, alinhou pastas, revisou a agenda do dia. Arrumou sua mesa — posicionada de frente para a de Helena — e, em seguida, a mesa da chefe.

‎Canetas alinhadas. Documentos separados. Tudo no lugar certo.

‎Aquela sala era um espaço compartilhado, mas carregava uma distância invisível. Laís sabia seu papel ali. Sabia onde podia pisar, onde precisava recuar. Ainda assim, toda vez que organizava a mesa de Helena, havia algo que a deixava inquieta — uma sensação que ela não sabia nomear, mas sentia crescer aos poucos.

‎Quando terminou, sentou-se em sua cadeira, abriu a agenda e revisou mentalmente as tarefas do dia. Profissional, eficiente, silenciosa.

‎Laís não sabia ainda, mas aquele seria o começo de algo que colocaria em dúvida todas as regras que ela havia aprendido a seguir.

Next Chapter