Chapter 1
No crepúsculo da noite, sobre as águas refletidas do ciclo lunar, o reflexo da lua brilhava como poeira cósmica no lago. Entre diversas árvores em volta do lago, quase invisíveis com a neblina suspensa no ar, existia na margem uma grande e única árvore de salgueiro, com seus galhos caídos sobre a água, chorando sobre elas, e suas raízes profundas à procura de outra amiga para se entrelaçar.
Sentada embaixo dessa grande árvore, em uma grande rocha sedimentar, com os pés na água fria, sentindo cócegas com girinos nadando sobre eles, estava uma pequena criatura humana.
A criatura possui a pele extremamente pálida. Tinha olhos verdes que brilhavam iguais de felinos. Suas vestes eram as mais comuns, com couro e lino fino de seda, a não ser a sua capa vermelho-sangue, feita por ela mesma com sobra de tecido que encontrou em casa. Aquela cor significava que existia um ser que não permitia que a escuridão engolisse tudo, menos o seu medo do escuro.
Ela tinha cabelos tão longos, era como uma cascata de fios que beijava o chão, e eram tão loiros que transcendiam a luz de Lumithia, a deusa da Lua.
Abruptamente, essa criatura se chamava Circle.
Ela lia, prostrada sobre o solo, com uma pequena pilha de livros ao seu lado, ouvindo as vozes da floresta ou a melodia das fadas, até observar a estrela de fogo emergir do breu lunar.
Subitamente, se levantou, pegou as suas coisas e partiu de volta para casa.
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Circle morava com os pais em uma pequena cidade intitulada Powerful, do lado oeste da capital Norhaven.
A capital era a segunda maior potência do continente Queniz, famosa pelas suas indústrias e comércio de pedras cristalizadas por lava vulcânica.
A capital estava passando por uma grande revolta dos trabalhadores colonatos, que era um sistema econômico agrário para cultivo e comercialização de bens de superior. Os trabalhadores estavam recebendo apenas 22 lépton (moeda de Norhaven de cobre ou bronze). Eles exigiam o dobro do salário fixo anual, porém o governo pagava apenas o dia iniciais do solstício.
A revolta foi tão grande que resultou na violência tanto da capital quanto dos próprios revoltantes. A capital, a fim de amenizar a rebeldia, colocava as cabeças em uma estaca no grande portão de aço Valeriano do Castelo Norha de todos que participavam dessa rebelião, que incluía mulheres e crianças.
Durante quase dois anos, Gogue de Magogue — Gogue é a capital e Magogue são os homens —, a aliança hipócrita para salvar a paz, resultou em diversas mortes, tortura, inflação por todo o continente e canibalismo por falta de suprimentos.
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O pai de Circle trabalhava em uma grande fábrica de tecido, porém, quando ele viu que a rebelião estava aumentando cada vez mais, conseguiu um trabalho em Powerful, onde se mudaram imediatamente.
Quando chegaram, tiveram que passar pelas famílias das guildas, que eram as famílias ricas da capital.
Eles se mudaram para uma casa a alguns passos da igreja e dos vizinhos. As suas condições na capital eram precárias; os altos impostos e moradia provisórias os levaram ao exterior em busca de melhores condições de vida.
Por conta do trabalho, o seu pai passava o solstício fora de casa. Por isso, Circle tinha que ficar com a mãe.
Sua mãe era uma completa estranha para ela. Elas quase nem se olhavam. Ela tinha um imenso ódio pela própria filha; Circle não sabia o porquê.
Ela ignorava a existência da filha, simplesmente fingia que ela não existia, odiava tanto a ponto de deixá-la passar fome.
Sua mãe era alcoólatra. Todos os domingos de manhã dizia ir à igreja, mas, quando voltava, vinha tão embriagada que mal conseguia ficar em pé e vinha completamente possuída por um demônio.
Ela batia e espancava a pobre garota, que não fazia nada além de ler.
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No domingo de manhã de solstício, quando Circle não estava em casa, queimou todos os seus livros.
Ela ficou paralisada quando viu suas vidas sendo queimadas e virando pó. Sem eles, ela não era ninguém, era um monólito sem vida.
Quando entrou dentro de casa, viu o demônio de sete cabeças no corpo da sua mãe, e ela veio em sua direção, deu uma bofetada no seu peito e a prendeu contra a parede.
Quando ela viu apanhar a faca pelas costas, sentiu a respiração falhar. Pensava que eram seus últimos suspiros.
Até que, de repente, sentiu que os seus cabelos estavam cortados, as cascatas de fios caindo sobre o chão.
Circle nunca desejou tanto decapitar alguém, ter poder de sentir o gosto de sangue, de ódio e de ira.
Mas ela apenas cedeu e caiu sem forças no chão.
Ainda assim, o demônio a pegou e arrastou até a porta do quarto.
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De repente, acordou no chão e fugiu pela janela do quarto para a floresta.
Já era de manhã quando chegou na caverna do lago, uma cratera que penetrava o solo para baixo das árvores. Dentro tinha um poço velho, com uma grade de metal e um cadeado; antes era usado para tirar água.
Todas as vezes que Circle passava próximo a esse poço, ouvia vozes e sons diferentes vindo do seu interior. Ela não ficava com medo; pelo contrário, sentia curiosidade de saber o que era.
Quando ela passou pelas ruínas de uma ponte para o outro lado do lago, Circle caiu em lágrimas, implorando pela morte.
Abruptamente, depois de chorar rios de lágrimas, viu uma andorinha morta na margem do lago.
Ela acreditava que a vida era um ciclo contínuo, onde, independentemente da forma de vida, o ciclo recomeçava com o fim do último, reencarnando em outro ciclo para continuar o interior.
Por isso, sempre enterrava os insetos, animais e outros seres vivos, para que as fadas pudessem reencarnar.
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Ao anoitecer, voltou para casa, onde, de imediato, viu o pai dentro.
Ela apenas ficou imóvel, sentindo um vazio, a dor de ser abandonada e de ser jogada no abismo.
Ela fugiu de novo para o breu. Depois de um tempo, voltou e correu para o quarto.
Quando abriu a porta, tinha uma criatura peluda de patas; se assustou enquanto ele a jogava no chão.
— Foi presente do seu pai, filha. Ele disse que te ama muito e que tá com saudade!!
Disse uma voz atrás dela. Era sua mãe.
Circle ignorou e fechou a porta na sua cara.
— Sua putinha desgraçada, me respeite, eu sou sua mãe!
— Cala boca, sua alcoólatra de merda.
— Amanhã tu não vai comer, e nem esse saco de pulga imundo que seu pai trouxe!
— Vai se fuder!
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Ainda de noite, Circle observava o cão e deu o nome de Mandy, porque era o nome da sua única amiga de Norhaven.
Depois de duas semanas, Circle pegou uma infecção no estômago muito forte. Sem poder pedir ajuda de ninguém, suportou as dores até não aguentar mais.
Todas as noites tinha convulsões e vomitava sangue, e não conseguia andar de tanta dor.
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Até que uma noite, convencida a acabar com a dor, pegou um lençol de cama e o cão, e foi para a floresta.
Destinada a morrer na presença das fadas, para que pudessem a perdoar por cometer esse ato, amarrou o lençol no galho de uma árvore em frente à caverna. Depois enrolou no pescoço. Ela subiu em cima de um tronco.
De repente, antes que cometesse o suicídio e pensasse em qualquer remorso, ouviu gritos muito altos vindo da caverna e, junto, uma luz muito forte igual fogo saindo de dentro.
Com medo, desenrolou o lençol do pescoço e pegou o cão no colo.
— Que porra é essa, Mandy?!
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Depois de um tempo, a luz sumiu, porém ainda estava vindo uma luz de dentro da caverna.
Curiosa, foi até essa luz e viu que estava saindo de dentro do poço. Percebeu que a grade não existia mais.
Por isso, foi até a borda para ver.
Mas deslizou os pés nas pedras e tropeçou para dentro do poço.
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Quando acordou, não estava mais em Powerful.
Estava em um mundo oculto.