Sempre fomos nós
Quando a conheci, estava num dos momentos mais difíceis da minha vida. Sentia-me completamente derrotada por dentro, mergulhada numa tristeza tão profunda que parecia não ter fim. Nunca imaginei que, no meio daquele caos, ela se tornaria o meu porto seguro.
Numa quinta-feira chuvosa, descia as escadas a chorar, perdida nos meus pensamentos, a questionar-me constantemente: porque é que sou assim? Porque é que me importo tanto com pessoas que nem sequer se importam comigo? Sentia-me sozinha, vazia, como se ninguém fosse capaz de entender o que eu estava a sentir.
Foi nesse instante que ela apareceu.
Aproximou-se de mim com uma calma inesperada, como se soubesse exatamente o que eu precisava. Ofereceu-me o seu colo para eu desabafar, as suas piadas para me distrair e o seu abraço para aquecer um coração que já mal sentia. Naquele momento, sem eu perceber, algo começou a mudar dentro de mim.
A partir daí, começámos a falar mais. Fomos-nos conhecendo aos poucos, partilhando histórias, dores, sonhos. Lia… uma mulher sábia, sempre com palavras intensas e certeiras. Tinha um olhar marcante, um sorriso genuíno, daqueles que não se esquecem. Era uma mulher que também já tinha sofrido, mas que sabia esconder isso como ninguém.
Eu, por outro lado, era o oposto. Intensa demais, impulsiva, falava sem pensar, sem filtros. Muitas vezes dizia mais do que devia, sentia mais do que conseguia suportar. Mas, de alguma forma, completávamo-nos.
Tornámo-nos inseparáveis.
Saíamos juntas, ríamos por tudo e por nada, partilhávamos momentos simples que, para nós, significavam o mundo. Tínhamos gostos diferentes, é verdade, mas sabíamos lidar com isso — ou pelo menos achávamos que sim. Na escola, nos intervalos, era como se o resto desaparecesse. Havia uma liberdade entre nós que não era comum. Confiávamos uma na outra de uma forma quase absoluta.
E foi assim que conheci a minha melhor amiga.
Numa manhã, liguei à Lia: — Queres que passe aí para irmos juntas ou vens aqui?
Ela respondeu: — Podes deixar, eu passo aí. Tenho uma coisa muito importante para te contar.
Fiquei curiosa, mas antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, desligámos.
Passados uns minutos, o telemóvel tocou novamente. Era ela. — Afinal não vai dar para eu passar aí… a minha mãe decidiu levar-me hoje à escola.
Achei estranho, mas não dei muita importância. Algo no tom dela, no entanto, deixou-me inquieta.
Mais tarde, no intervalo, estávamos na escola como sempre. O barulho à nossa volta era ensurdecedor — vozes, risos, passos — tudo misturado num caos habitual. Ainda assim, quando a vi aproximar-se, senti que algo estava diferente.
Ela caminhava devagar, com um ar sério, pouco habitual.
— Preciso de te contar uma coisa muito importante — disse, olhando para o chão por um breve instante antes de levantar os olhos para mim.
Fiquei imóvel, sem saber o que esperar. — O quê? — perguntei, já com o coração acelerado.
Ela respirou fundo, como se estivesse a reunir coragem. Mas, naquele exacto momento, o sino tocou. O som cortou o momento abruptamente.
— Depois falamos — disse ela, afastando-se rapidamente em direcção à sua sala.
Fiquei ali, parada, a vê-la ir embora, com mil pensamentos a invadirem-me a cabeça. O que seria assim tão importante? Porque estava ela tão nervosa?
Duas aulas de português depois, que pareceram durar uma eternidade, ela veio ter comigo.
— Vamos almoçar fora? — sugeriu. — O almoço da escola é peixe… e já sabes que não gosto.
Concordei imediatamente. Precisava daquela conversa.
Enquanto caminhávamos, olhei para ela e não aguentei mais: — Então… o que era assim tão importante que me querias contar?
Ela olhou para mim e sorriu. Mas não era um sorriso qualquer… havia ali algo diferente, quase nervoso.
— Não é nada de especial… — disse ela. — Mas queria contar-te. Não consigo esconder nada de ti.
Olhei-a com intensidade. — Então conta… estou a morrer de curiosidade.
Ela parou por um momento. O silêncio entre nós parecia mais pesado do que nunca. E, pela primeira vez desde que a conhecia, senti que aquilo que ela ia dizer podia mudar tudo.