Chapter 1
Sofia não acreditava em destino.
Ela acreditava em café forte, turnos longos e clientes estranhos que pediam coisas ainda mais estranhas às sete da manhã.
Naquela terça-feira, por exemplo, um homem pediu um cappuccino “com personalidade”. Ela entregou o mesmo cappuccino de sempre e desejou boa sorte pra personalidade dele.
Era uma manhã comum. Até deixar de ser.
O sino da porta tocou, e Sofia nem levantou os olhos de imediato.
— Bom dia, pode ir escolhendo que eu já atendo — disse automaticamente, limpando o balcão.
Silêncio.
Ela franziu a testa e olhou pra cima.
Erro.
Grande erro.
O garoto parado na porta não parecia pertencer àquele lugar. Não era só porque ele estava bem vestido demais pra uma cafeteria simples, nem pelo jeito relaxado demais pra alguém que claramente não tinha pressa.
Era o sorriso.
Confiante. Fácil. Perigoso no tipo de jeito que Sofia não sabia explicar — só sabia reconhecer.
— Você sempre ignora clientes ou eu sou especial? — ele perguntou, se aproximando.
Sofia piscou, voltando ao modo profissional com um pequeno atraso.
— Eu… não ignoro. Eu priorizo. É diferente.
— Então eu tô em que posição?
— Em observação.
Ele riu baixo, apoiando os cotovelos no balcão como se já fosse de casa.
— Justo. Então, o que você recomenda?
Sofia cruzou os braços.
— Recomendo não vir aqui esperando recomendações. Isso aqui é sobrevivência, não experiência gourmet.
— Gostei — ele disse. — Me vê um café. Forte. Igual ao seu humor.
— Meu humor é excelente.
— Claro. Dá pra ver.
Ela virou de costas antes que ele percebesse o canto de sorriso escapando.
Enquanto preparava o café, Sofia tentou ignorar a sensação estranha de estar sendo observada.
— Você trabalha aqui faz tempo? — ele perguntou.
— Tempo suficiente pra saber quando alguém tá puxando conversa sem motivo.
— E se eu disser que tenho motivo?
Ela colocou a xícara no balcão, encarando ele.
— Eu diria que você tá mentindo. Mas pode tentar me convencer.
Ele pegou o café, mas não bebeu.
— Talvez eu só tenha achado você interessante.
Sofia arqueou uma sobrancelha.
— Talvez?
— Tô sendo cauteloso. Você parece perigosa.
Ela soltou uma risada curta.
— Eu? Perigosa? Você claramente nunca conheceu gente de verdade.
— Talvez não — ele disse. — Mas tô disposto a aprender.
— Nome? — perguntou Sofia.
— Luca.
— Sofia.
— Eu sei.
Ela parou.
— Como assim você sabe?
— Tá no crachá.
— Certo. Menos misterioso do que eu esperava.
— Quer que eu seja mais misterioso?
— Não. Quero que você pague o café.
Ele riu.
— Você é sempre assim?
— Só com quem merece.
— Então eu vou voltar.
— Clientes sempre voltam.
— A gente vê.
— Até amanhã, Sofia.
O sino tocou quando ele saiu.
E, por algum motivo completamente idiota, Sofia percebeu que estava sorrindo.
— Não… — murmurou. — Nem começa.
Mas já tinha começado.
O problema não era o Luca.
Sofia repetiu isso mentalmente enquanto organizava as mesas, como se dissesse muitas vezes fosse tornar verdade.
O problema definitivamente não era o Luca.
Era só um garoto. Um cliente. Um cara bonito demais pra si próprio, mas ainda assim… só isso.
Nada demais.
Absolutamente nada demais.
— Você está sorrindo sozinha — disse Clara, surgindo atrás do balcão com um pano no ombro e zero respeito pela privacidade alheia.
Sofia quase derrubou a colher que estava segurando.
— Não tô.
— Tá sim.
— Não tô.
— Tá com cara de quem acabou de ganhar um cachorro ou um problema — Clara apoiou os braços no balcão. — Qual dos dois?
Sofia bufou.
— Nenhum. Só tô trabalhando.
Clara estreitou os olhos, desconfiada.
— Ah, claro. E eu sou uma pessoa discreta.
— Isso pelo menos é verdade — Sofia rebateu. — Discretamente fofoqueira.
— Informação é poder.
— Você trabalha numa cafeteria.
— Exatamente. Aqui passa mais segredo do que em filme de espionagem.
Sofia revirou os olhos, mas não conseguiu segurar o sorriso.
— Era só um cliente.
— “Só um cliente” nunca faz você limpar a mesma mesa três vezes.
Sofia congelou por meio segundo.
Clara sorriu, vitoriosa.
— AHA.
— Não significa nada.
— Nome?
— Não interessa.
— Nome. — Clara insistiu.
Sofia suspirou, derrotada.
— Luca.
Clara fez uma cara pensativa.
— Hm. Nome de problema.
— Você acha que tudo é problema.
— E normalmente eu tô certa.
Sofia ia responder, mas a porta da cafeteria abriu de novo, o sino tilintando.
As duas olharam ao mesmo tempo.
Não era Luca.
Mas, por algum motivo, a decepção veio rápida demais.
Quem entrou foram dois homens que claramente não estavam ali pelo café.
Ternos escuros, postura rígida, olhar atento demais para um lugar tão simples.
Clara foi a primeira a perceber.
— Ok… esses são definitivamente problema — murmurou.
Sofia concordou em silêncio.
Um deles se aproximou do balcão.
— Boa tarde — disse, com uma voz educada demais pra parecer natural. — Estamos procurando alguém.
Sofia cruzou os braços, imediatamente na defensiva.
— Isso aqui é uma cafeteria, não um ponto de encontro secreto.
O homem ignorou o comentário.
— Um rapaz. Alto, cabelo escuro. Esteve aqui hoje mais cedo.
Sofia sentiu o estômago apertar — só um pouco.
Só o suficiente pra irritar.
— Muita gente passa por aqui — respondeu, neutra.
O outro homem observava o ambiente, analisando cada detalhe como se estivesse procurando algo fora do lugar.
— Ele falou com você — o primeiro continuou.
Não era uma pergunta.
Clara deu um passo discreto pro lado.
Sofia manteve o olhar firme.
— Clientes falam comigo o tempo todo. Faz parte do trabalho.
Um segundo de silêncio.
Tenso.
Então o homem assentiu lentamente.
— Se ele voltar… você nos avisa.
Não era um pedido.
Ele deslizou um cartão pelo balcão.
Sofia nem olhou.
— Eu não faço esse tipo de coisa.
O homem inclinou a cabeça, como se estivesse avaliando ela de um jeito que Sofia não gostou nem um pouco.
— Deveria considerar.
— E você deveria considerar pedir um café ou ir embora.
Clara prendeu a respiração.
O homem… sorriu.
Mas não era um sorriso como o do Luca.
Era frio. Calculado.
— Tenha uma boa tarde.
Eles saíram.
O sino tocou de novo.
E dessa vez, o silêncio que ficou parecia mais pesado.
Clara foi a primeira a falar:
— Ok. Oficialmente: problema.
Sofia olhou para o cartão ainda sobre o balcão.
Não tocou nele.
— Eu não vou me meter nisso.
— Você já tá metida.
Sofia odiava quando Clara estava certa.
Ela pegou o cartão, hesitando por um segundo antes de virar.
Sem nome.
Sem logo.
Só um número.
— Ótimo — murmurou. — Misterioso e assustador. Exatamente o que eu precisava.
Clara cruzou os braços.
— E aí?
Sofia respirou fundo.
Olhou pra porta.
Como se, de alguma forma, ele pudesse simplesmente aparecer de novo.
— Se ele voltar… — começou.
— Você vai avisar?
Sofia fez uma careta.
— Eu vou cobrar outro café.
Clara riu.
— Sabia.
Sofia tentou ignorar o peso estranho no peito.
Mas uma coisa estava clara agora.
Luca não era “só um cliente”.
E, talvez…
Ela também já não estivesse mais fora disso.








