O Crepúsculo das Sombras
Notas Iniciais da Autora
Seja muito bem-vindo(a) ao início de Lua de Sangue.
Antes de você virar a página, preciso lhe fazer um aviso amigável: o mundo que você está prestes a entrar não é bucólico, nem gentil. Se você chegou até aqui esperando um romance sobrenatural tradicional, com cortejos lentos e dilemas leves, talvez esta não seja a história para você.
Esta é uma versão Dark.
Aqui, a floresta de Forks não é apenas um cenário chuvoso; é uma entidade opressora. A magia tem um custo de sangue, e os monstros não se desculpam por sua natureza predatória. Eu me propus a explorar os cantos mais sombrios da obsessão, da sobrevivência e da vingança. Desmond não é um herói incompreendido; ele é uma força devastadora da natureza. John e Annia não são apenas pais; são guerreiros cansados cujos passados finalmente os encontraram.
E Sarah... Sarah é a nossa fênix que precisa arder antes de renascer.
Eu escrevi este livro para ser sentido sensorialmente: o cheiro de ozônio e prata polida, o frio glacial que paralisa os pulmões e o som úmido de osso se partindo. Prepare-se para ser desconfortável. Prepare-se para duvidar de quem é mocinho e quem é vilão.
Se você gosta de histórias que o agarram pelo pescoço e o arrastam para a escuridão, segure minha mão. Vamos descer.
Com intensidade,
(Jussara Maria)
LUA DE SANGUE
Capítulo 1 – O Crepúsculo das Sombras (PARTE 1 - Seção A)
O pôr do sol em Forks não era um evento bucólico; era uma ferida aberta no horizonte, um rasgo purulento que sangrava sobre a terra indiferente. O céu parecia ter sido golpeado por uma divindade enfurecida, derramando tons de carmesim e um púrpura visceral sobre as copas das árvores milenares, cujos galhos se contorciam como dedos esqueléticos contra a luz moribunda. Aquela claridade pálida, que antes aquecia a terra úmida e o musgo espesso, agora se arrastava pelos troncos colossais como um fantasma em retirada, fugindo da escuridão densa que subia das raízes da floresta como um veneno silencioso, devorando cada resquício de esperança.
Isolada por quilômetros de uma vegetação tão fechada que parecia respirar em um uníssono opressor, a cabana dos Winchester permanecia como um dente de carvalho podre cravado na encosta da montanha. Suas paredes, feitas de toras de madeira escura e endurecida por séculos de invernos impiedosos, carregavam o musgo seco e as cicatrizes profundas de batalhas que a história oficial, em sua covardia, preferia ignorar. O vento uivava entre as frestas, um lamento constante que parecia avisar que o isolamento, outrora uma proteção, tornara-se agora uma armadilha mortal. Cada rangido da estrutura de madeira soava como um aviso prévio de que o mundo exterior, cruel e faminto, finalmente havia encontrado o caminho de casa.
Por dentro, o ar era denso, quase sólido, carregado por uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços se arrepiarem. O cheiro reconfortante de pão fresco que Annia havia assado pela manhã e o aroma de café forte eram violentamente soterrados pelo odor metálico e acre de óleo de armas, prata polida e o aroma inebriante, quase narcótico, da própria Annia. Era um cheiro que desafiava a lógica: misturava o frescor do jasmim noturno com o ozônio carregado de uma tempestade iminente e algo mais profundo, algo antigo que pulsava como o coração de uma floresta virgem. Era o cheiro da magia oculta, da linhagem das bruxas que ela tentara sufocar em nome de uma vida comum.
No centro da sala, guardando a entrada principal com a imobilidade de uma gárgula forjada nas fornalhas do inferno, estava Bob. O pitbull preto de proporções hercúleas não era, de forma alguma, um animal de estimação; era um veterano de mil guerras invisíveis. Seus olhos negros e vítreos não piscavam, e o rosnado que vibrava em seu peito largo não era um som comum, mas uma frequência subsônica que fazia os ossos humanos tremerem dentro da carne. Bob carregava no corpo o mapa sangrento de sua lealdade: uma orelha rasgada por garras que não pertenciam a este mundo e uma cicatriz longa e queloide no flanco que brilhava como uma ferida aberta sob a luz vacilante da lareira.
Ele sentiu o cheiro primeiro. Não era o rastro de um animal, nem o suor de um homem. Era o odor insuportável de terra revirada de túmulo, de séculos de estagnação e um magnetismo predatório que fazia o ar ao redor ficar escasso, como se o oxigênio estivesse sendo sugado por um vácuo maligno.
John Winchester levantou-se. Aos quarenta e dois anos, ele era a própria imagem da resistência humana levada ao limite. Seus ombros eram largos, forjados no peso do ferro e do martelo, mas naquele momento, ele sentiu a própria mortalidade pesar como uma armadura de chumbo. Cada fibra de seu ser gritava que o fim havia chegado. Ele olhou para as próprias mãos calejadas, manchadas de fuligem e trabalho, e então desviou o olhar para as filhas. O terror que ele tentou esconder nos olhos foi uma falha que Sarah percebeu imediatamente. Ela sempre fora observadora demais, uma pequena caçadora em formação que lia o medo nos outros antes mesmo que eles o sentissem.
— Sarah, leve Alice para o porão. Agora. Não olhe para trás, não importa o que ouça, não importa quem chame seu nome — a voz de John saiu como um estalo de osso seco, desprovida de qualquer calor, apenas a urgência crua de um animal tentando salvar sua cria.
Sarah, com seus dezesseis anos e olhos verdes que já carregavam o peso de sombras que nenhuma criança deveria conhecer, não questionou. Ela não era uma criança comum; a floresta a havia ensinado que o silêncio era a melhor resposta ao perigo. Ela agarrou o pulso de Alice, de 13 anos, sentindo o coração da irmã menor bater frenético, como um pássaro encurralado em uma gaiola de ossos. Enquanto as duas desapareciam no corredor escuro, em direção ao alçapão escondido sob o tapete pesado da despensa, Sarah sentiu a aura de morte começar a vazar pelas frestas da porta, um torpor ártico que não vinha do clima, mas do vazio existencial que se aproximava.
Enquanto o som dos passos miúdos das filhas desaparecia, John sentiu o peso do silêncio como uma laje de granito. Ele olhou para o lugar vazio ao lado da lareira e, por um segundo, a realidade se dissolveu. Ele não estava mais em Forks, à espera da morte; ele estava em uma taverna empoeirada no Alasca, quinze anos atrás.
Ele lembrou da primeira vez que vira Annia. Ela não era uma dona de casa; era uma força da natureza. Ele a vira desarmar dois homens o dobro do tamanho dela sem mover um único músculo, apenas com um olhar que parecia carregar o peso de galáxias mortas. Foi naquela noite que ele descobriu o que era o ozônio — aquele cheiro metálico e elétrico que agora impregnava a cabana. Quando ela toucou sua mão pela primeira vez, a pele dela não era apenas quente; ela vibrava com uma energia que John, um simples ferreiro e caçador, nunca seria capaz de compreender.
Ele sacrificara tudo por aquele fogo. Abandonara sua linhagem, suas terras e sua paz para esconder uma Rainha Bruxa no fim do mundo. Ele tentara construir uma normalidade feita de madeira, pão e rotina, mas sabia que era um castelo de cartas. “Nós seremos apenas pessoas normais, John”, ela sussurrara certa vez, enquanto amamentava Sarah sob a luz de uma lua de sangue. Que mentira doce e estúpida. Agora, o passado estava batendo à porta com punhos glaciais, e John percebeu que nunca houve “normalidade” para eles. Houve apenas um adiamento do inevitável. Suas mãos, que outrora moldaram o berço das filhas e o lar que habitavam, agora tremiam ao redor do cabo de um machado de prata que ele sabia ser pouco mais que um brinquedo contra o que estava lá fora.
Ele caminhou até a porta. Cada passo pesava uma tonelada. O mundo lá fora parecia ter silenciado para ouvir o som de sua derrota. John respirou fundo, sentindo o ar congelante queimar seus pulmões, e abriu a porta.
Lá estava ele. No centro da clareira, onde a grama parecia murchar sob sua presença, estava Desmond.
Ele não parecia um monstro à primeira vista, e esse era o seu aspecto mais perverso. Desmond era a personificação de uma perfeição devastadora, uma afronta aristocrática à imperfeição da vida mortal. Ele permanecia estático entre as árvores nuas, envolto em um manto de seda pesada que parecia ter sido tingido em sangue coagulado há séculos. Sua pele era de um mármore translúcido, tão pálida que brilhava sob a lua crescente com uma beleza cadavérica que atraía e repelia ao mesmo tempo. Seus trajes negros de corte impecável abraçavam um corpo esculpido para a predação, e seus olhos... seus olhos eram poços de um azul cortante, desprovidos de qualquer traço de empatia, preenchidos apenas por uma inteligência sádica e uma fome eterna que o tempo nunca seria capaz de saciar.
— Winchester... — O nome saiu da boca de Desmond como uma carícia pecaminosa, um barítono aveludado que vibrou diretamente no baixo ventre de John, arrancando-lhe qualquer vestígio de dignidade. — Você cheira a suor, ferro e um desespero tão... delicioso. Quase me dá pena interromper essa sua pequena e patética encenação de vida doméstica. Onde está ela, John? Onde está a minha joia?
John tentou erguer o machado, mas o magnetismo predatório de Desmond era como uma pressão gravitacional. O vampiro deu um passo à frente, e o mundo pareceu inclinar-se a seu favor. O ataque não foi um movimento que os olhos humanos pudessem acompanhar; foi um borrão na estrutura da realidade. Antes que John pudesse sequer processar o pensamento de defesa, um tronco de carvalho maciço, arrancado da terra como se fosse um graveto, foi arremessado contra ele com uma força que desafiava a física.
O impacto não foi apenas físico; foi uma explosão de agonia purulenta que obliterou qualquer sentido de eu. John sentiu o fêmur estraçalhar sob a pressão esmagadora. O som seco e úmido de osso partindo ecoou pela floresta silenciosa como um tiro de misericórdia. Ele desabou na terra enregelada, o impacto expulsando o ar de seus pulmões. O osso quebrado perfurou o músculo de dentro para fora, rasgando o tecido da calça e expondo o branco da cartilagem em meio ao rubro vibrante do sangue quente que agora tingia a neve suja e a lama. O grito que escapou de seus lábios não era humano; era um som animal, uma nota aguda de sofrimento que parecia nunca ter fim.
Abaixo dele, no escuro sufocante do porão, o mundo de Sarah Winchester desmoronou.
Ela pressionou as mãos sobre as orelhas de Alice com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos, mas não havia barreira no mundo capaz de tapar o que estava acontecendo acima delas. O teto de madeira não era mais uma proteção; era um amplificador de agonia. Sarah ouviu o baque pesado do pai caindo, mas foi o som do osso se partindo que mudou sua alma para sempre.
Foi um som que Sarah nunca esqueceria: o som de algo vital, de algo que representava sua segurança, sendo reduzido a estilhaços. Ela sentiu o tremor nas tábuas acima de sua cabeça e soube, com a precisão mórbida que só o terror puro permite, que o gigante de sua vida havia sido derrubado. O cheiro de mofo, terra batida e batatas velhas do porão parecia querer sufocá-la, misturando-se ao odor metálico que começava a vazar do teto.
Alice começou a tremer violentamente, um soluço silencioso sacudindo seu pequeno corpo como se ela estivesse prestes a quebrar, mas Sarah permaneceu estática. Ela não fechou os olhos. Através das frestas milimétricas das tábuas do assoalho, por onde a poeira dançava sob a luz fantasmagórica da sala, ela viu o impensável. Gotas de algo escuro, denso e quente começaram a pingar no chão de terra batida do porão.
Pingo. Pingo. Pingo.
O sangue de John Winchester estava batizando o esconderijo delas. Naquele momento, a Sarah de dezesseis anos que ainda acreditava em heróis morreu. No seu lugar, algo novo, rígido e afiado como uma lâmina de prata começou a tomar forma dentro de seu peito. Ela não estava apenas esperando o fim; ela estava catalogando cada som, cada inflexão da voz de Desmond, gravando o timbre daquele monstro em sua memória como um mapa para o futuro. Ela jurou, enquanto sentia o calor do sangue do pai cair perto de seus pés, que cada gota que atingia o chão seria devolvida em um oceano de vingança.
— JOHN!
O vulto ruivo surgiu na porta como um incêndio furioso que se recusava a ser apagado pelo rigor gélido de Forks. Annia.
Ela não correu para o marido caído para oferecer confortos inúteis ou lágrimas de desespero. Ela se posicionou entre o corpo quebrado de John e o demônio que o observava com uma curiosidade quase clínica, como um entomologista observando um inseto cujas pernas acabara de arrancar.
Annia era uma visão de fúria e luxúria contida, uma rainha que passara tempo demais fingindo ser uma camponesa. Seus cabelos ruivos eram uma cascata de fogo que caía sobre os ombros, contrastando violentamente com o vestido azul-safira que agora estava tenso sobre suas curvas de guerreira. Sua respiração era curta, letal, fazendo o peito subir e descer em um ritmo de batalha. Nas mãos, ela empunhava a espada de prata Winchester, a lâmina de metal sagrado que brilhava com uma luz violeta pulsante, uma luz que denunciava a linhagem de bruxa que ela tentara enterrar em nome de uma vida de paz.
Desmond parou de observar John e voltou sua atenção para ela. Um sorriso lento, carregado de uma malícia sensual e possessiva, curvou seus lábios perfeitamente desenhados. Ele não olhava para a lâmina que poderia decapitá-lo; ele devorava Annia com o olhar, despindo-a de sua resistência com a força de sua vontade.
— Ah... finalmente a Rainha decide sair de sua toca de ratos imundos. — Desmond deu um passo à frente, esmagando um galho seco sob sua bota cara, ignorando solenemente os gemidos de John que rastejava na lama.
A tensão entre os dois tornou-se um fio elétrico de ódio carnal e uma atração sombria e distorcida que parecia consumir o próprio oxigênio da clareira. O ar ao redor deles começou a estalar com a energia violeta que emanava de Annia.
— Você tem se escondido bem, Annia. Mas o cheiro da sua magia... ele é como o perfume de uma flor que floresce no centro de um massacre. Eu consigo senti-lo vibrando sob sua pele de porcelana, pulsando desesperado no arco delicado do seu pescoço. Você sente falta disso, não sente? Do poder? De mim?
— Dê mais um passo e eu vou descobrir se o seu sangue de verme é tão desalmado quanto a sua alma, Desmond — Annia cuspiu as palavras, a voz carregada de um desprezo ácido que apenas serviu para inflamar a obsessão doentia do vampiro.
Annia não esperou pelo próximo insulto. Ela avançou com um grito que não era humano, mas o rugido de uma linhagem de bruxas que se recusava a ser subjugada. O ar ao redor dela se tornou um redemoinho de calor violeta, distorcendo a visão da floresta. A espada de prata Winchester não era mais apenas metal; era um condutor para sua fúria. Quando a lâmina cortou o ar em direção ao pescoço de Desmond, ela emitiu um sibilo elétrico, como se o oxigênio estivesse sendo incinerado na trajetória do golpe.
Desmond se moveu com uma fluidez insultante, uma velocidade que transformava seus movimentos em sombras líquidas. Ele desviou da lâmina por uma fração de centímetro, o vento do golpe agitando seu manto de seda carmesim.
— Você envelheceu, minha Rainha — ele zombou, a voz saindo como uma fumaça imperturbável que parecia paralisar o calor que ela emanava. — A domesticidade e o cheiro de leite e fraldas enfraqueceram seus reflexos. Onde está a fúria que incendiou as Planícies de Cinzas? Onde está a mulher por quem eu destruiria mundos?
Annia não respondeu com palavras. Ela girou sobre os calcanhares, a sola de sua bota esmagando a neve suja e o sangue de John, e desferiu um golpe ascendente com uma força que estremeceu seus próprios músculos. O metal sagrado brilhou com uma intensidade ofuscante, e por um momento, a luz violeta iluminou o rosto de Desmond, revelando a sede sádica e a luxúria em seus olhos polares. Em um movimento de arrogância pura, ele agarrou a lâmina de prata com a mão nua.
O som da prata santificada queimando a pele do mestre vampiro foi um chiado grotesco, um som de fritura acompanhado pelo cheiro acre de carne podre sendo cauterizada instantaneamente. Desmond não recuou. Ele apertou os dedos ao redor do corte, o sangue negro e espesso escorrendo pelo metal violeta, enquanto puxava Annia para perto dele com uma força esmagadora.
Ele a prensou contra o tronco rugoso de um pinheiro secular, o impacto fazendo a casca da árvore rachar e o fôlego de Annia escapar em um suspiro de dor. Desmond segurou os pulsos dela acima da cabeça com apenas uma das mãos, uma pressão que parecia querer implodir o rádio e a ulna de seus braços.
— Sinta isso, Annia — ele sussurrou contra o lábio dela, tão perto que suas presas de cristal roçavam a pele trêmula dela. — Sinta a futilidade da sua resistência. Você prefere morrer como uma mortal medíocre, apodrecendo nesta cabana de madeira podre, do que reinar como uma deusa ao meu lado? Eu posso te dar a eternidade, e você escolhe... isso?
Ele indicou John com um movimento de cabeça, o homem que agora desfalecia na lama, o rosto pálido pelo choque hemorrágico. Annia reuniu o que restava de sua energia vital, o sangue subindo à sua boca pelo esforço interno. Ela não desviou o olhar.
— Eu prefiro o inferno... a qualquer trono que você me ofereça — ela sibilou, antes de cuspir o sangue misturado com veneno mágico diretamente no rosto pálido e perfeito dele.
Desmond rugiu — não de agonia, mas de um prazer sádico e ferido. A rejeição dela era o afrodisíaco mais potente que sua alma milenar já provara. Com um tapa brutal que cortou o lábio de Annia e jogou sua cabeça para o lado, ele a segurou pela nuca, seus dedos pálidos afundando no couro cabeludo ruivo.
— Se você deseja o abismo, Annia, eu serei o demônio que te jogará lá.
Com um movimento de desprezo, ele a lançou em direção ao despenhadeiro que marcava o limite da clareira. O corpo de Annia cortou a névoa como uma chama se apagando, desaparecendo no rugido das águas negras e gélidas do rio lá embaixo.
Desmond limpou o sangue do rosto com o dorso da mão, respirando fundo o rastro do ozônio que Annia deixara para trás. Ele ignorou John, que era pouco mais que um resto de carne quebrado, e caminhou em direção à cabana com a elegância de um predador que sabe que a caça não tem para onde ir.
As runas de proteção entalhadas na porta, que levaram anos para serem consagradas, desintegraram-se em cinzas negras sob o simples toque de suas unhas pálidas. Ele entrou, e o magnetismo de sua presença fez a temperatura da sala cair vinte graus em segundos. Ele caminhou com passos deliberados, o som de suas botas no assoalho de madeira ecoando como batidas de um coração fúnebre.
Ele parou exatamente sobre o alçapão do porão.
— Eu consigo ouvir o seu medo, pequena Sarah — ele sussurrou para o chão de madeira, sua voz carregada de uma sensualidade cruel que prometia horreores futuros. — Eu consigo ouvir o seu coração martelando contra as tábuas, implorando por um milagre que nunca virá. Guarde bem o seu ódio por mim. Alimente-o nas sombras. Deixe que ele cresça e se torne a única coisa que te mantém viva.
Ele se inclinou, aproximando os lábios das frestas do assoalho por onde o sangue de John ainda pingava.
— Porque o sabor da conquista é infinitamente melhor quando a presa morde de volta. Eu estarei esperando, Winchester. Não me decepcione.
Um uivo de autoridade absoluta, uma vibração que parecia vir das entranhas da própria terra, ecoou das profundezas da mata — o chamado do Rei dos Lobisomens, uma frequência que nenhum vampiro, por mais poderoso que fosse, ousava ignorar em território hostil. Desmond sorriu uma última vez, um brilho de dentes brancos na escuridão, e desapareceu em um borrão de sombras e seda, deixando para trás apenas o cheiro de incenso, sangue e uma promessa de ruína absoluta.
Do lado de fora, a neve começou a cair, tentando em vão cobrir o horror. John Winchester, quebrado e destruído, olhou com olhos vidrados para o abismo onde a esposa desaparecera. E no escuro sufocante do porão, Sarah Winchester abraçou Alice com tanta força que os braços da irmã pequena começaram a formigar. Ela não chorou. Seus olhos verdes, agora transformados em dois pedaços de vidro vibrante, fixaram-se no sangue do pai que banhava o chão.
Naquela noite, Sarah não apenas sobreviveu. Ela começou a contar os dias para o fim do mundo.
Notas Finais da Autora
Parabéns. Você sobreviveu à Parte 1: Seção A.
Eu avisei que seria intenso, não avisei?
Minha intenção com este gancho não foi apenas chocar, mas estabelecer, sem sombra de dúvidas, as apostas desta história. Eu precisava que você sentisse a mesma impotência de John diante de Desmond, e a mesma dor paralisante que Sarah sentiu no porão. Para forjar a Sarah que precisamos que ela se torne, seu mundo antigo precisava ser obliterado. Pingo por pingo.
Muitos leitores me perguntam por que Desmond é tão cruel logo de cara. A resposta é simples: ele é um predador milenar que não vê humanos como iguais, mas como joias ou obstáculos. A obsessão dele por Annia é o motor desta tragédia, e a rejeição dela é o afrodisíaco dele. É uma dinâmica tóxica que define o tom do Dark Romance.
O que vem a seguir?
Se você está chocado com o que aconteceu com John, prepare-se para o Capítulo 2. Vamos ver Sarah e Alice emergirem do porão, não como vítimas, mas como sobreviventes que precisam decidir o que fazer com o corpo do gigante caídos em sua sala. O luto de Sarah será breve; sua sede de vingança será eterna.
E sim, Bob sobreviverá. (Eu não sou tão cruel).
Gostaria muito de saber o que você sentiu ao ler esta primeira parte. Qual cena foi a mais marcante para você? Desmond conseguiu te aterrorizar? Deixe seu comentário ou me marque nas redes sociais. Sua reação é o sangue que alimenta esta autora.
Nos vemos na escuridão do próximo capítulo,
(Jussara Maria)