As Mentiras Que Contamos • Danilo & Léo Ortiz by MAYNARD at Inkitt
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AS MENTIRAS QUE CONTAMOS • DANILO & LÉO ORTIZ

Summary

Laura passou sete anos tentando reconstruir a própria vida depois de um amor que nunca deveria ter existido e que, ainda assim, a marcou. Desde então, aprendeu a se proteger, a não se envolver e a não permitir que ninguém chegasse perto o suficiente para bagunçar o que levou tanto tempo pra organizar. Mas quando Léo Ortiz aparece, com seu jeito leve, olhar atento e uma facilidade irritante de atravessar suas barreiras, Laura percebe que talvez exista espaço pra sentir de novo… sem dor. O problema é que o passado nunca ficou realmente no passado. Danilo ainda está ali, mais próximo do que deveria, mais presente do que ela gostaria e carregando nos olhos tudo o que eles foram e tudo o que nunca conseguiram ser. E, entre a segurança perigosa de um amor que conhece cada pedaço seu e a intensidade de um novo começo que promete tudo aquilo que ela nunca teve, Laura se vê presa em uma escolha impossível: seguir em frente… ou voltar para quem ela nunca conseguiu esquecer.

Genre
Romance
Author
MAYNARD
Status
Ongoing
Chapters
10
Rating
n/a
Age Rating
18+

Chapter 1

LAURA MENDES

Capitulo 001

A coletiva de apresentação foi marcada para as dez da manhã na sala de imprensa da Gávea. Eu cheguei cedo, como sempre. Escolhi o lugar de sempre, terceira fileira, lado esquerdo.

Mas a tremedeira na ponta dos dedos me denunciava um pouco. Apesar de tentar fingir que não me importava nenhum pouco com o fato de precisar revê-lo, me importava sim. Não sei como vai ser vê-lo de novo, se vou me sentir como tantos anos atrás ou se finalmente já superei tudo o que aconteceu.

Dizem por aí que nunca esquecemos as pessoas que amamos intensamente e foi mesmo muito intenso, embora errado.

Quando ele entrou, o ar mudou. Não foi o flash das câmeras nem o burburinho dos colegas. Foi outra coisa. Uma densidade que eu reconheci antes mesmo de levantar os olhos.

Ele estava mais largo do que eu lembrava. Os anos na Europa tinham endurecido o corpo, mas o rosto… o rosto continuava o mesmo. Aquela linha reta da mandíbula, os olhos castanhos que pareciam sempre medir o mundo dois segundos antes de qualquer um. Usava uma camisa polo preta simples, o escudo do Flamengo já bordado no peito. Parecia desconfortável com tanta atenção, como sempre esteve.

O observei enquanto ele sentava.

Apertei uma mão contra a outra até ficar suada e delicadamente as passei sobre a saia longa que estou usando. Respirei fundo e me preparei. 

Quando chegou minha vez de perguntar, levantei a mão com calma. Ele me viu. Eu soube no exato instante em que nossos olhares se cruzaram. Algo atravessou o rosto dele, rápido demais para qualquer outra pessoa notar, mas eu notei. Um músculo tensionou na mandíbula. As pupilas dilataram por uma fração de segundo.

— Laura Mendes, do GE. Bem-vindo ao Flamengo, Danilo. — Minha voz saiu exatamente como eu queria: profissional, neutra. — Você chega com 34 anos, depois de uma carreira longa na Europa. O que espera encontrar aqui, além do título que todo mundo já cobra?

A pergunta era boa. Direta. Ele sustentou meu olhar por dois segundos a mais do que seria necessário e um arrepio involuntário começa a se espalhar pelo meu corpo.

Aparentemente ainda não perdemos esse lance do olhar. É tão, mas tão intenso que meu pulso acelera e eu preciso desviar.

— Expectativa alta, como sempre no Flamengo — respondeu, a voz grave e controlada, com aquele sotaque mineiro suavizado pelos anos fora. — Vim pra somar. Pra ajudar o time a ser competitivo em todas as frentes. O resto… a gente constrói dia a dia.

Resposta segura. Correta. Mas os olhos dele diziam outra coisa. Diziam: “Então é assim que vamos jogar agora?”

Eu assenti, anotando algo que não precisava ser anotado. 

Depois disso não tenho mais paz. Sinto que ele está olhando pra mim a cada intervalo de pergunta, sejam elas minhas ou não. Os olhos dele me queimam e me perseguem até o final da coletiva.

Depois, enquanto os outros repórteres se dispersam, fiquei mais um tempo organizando minhas coisas. Não sei bem por quê. Talvez pra testar.

Ele se aproximou quando quase todos já haviam saído. Parou a dois metros de distância, com mãos nos bolsos da calça de moletom.

— Laura. — Chamou meu nome.

— Danilo. — Eu levantei o rosto devagar.

O silêncio entre nós foi quente. Nenhum de nós preencheu com amenidades.

— Você está bem? — perguntou ele, por fim. A pergunta parecia simples, mas não era.

— Estou. — Respondi com a verdade parcial que eu podia oferecer. — E você? Separação, mudança de continente, pressão do Flamengo… bastante coisa ao mesmo tempo.

Ele inclinou a cabeça de leve, reconhecendo que eu sabia mais do que deveria.

— Estou tentando fazer o que é certo. Pros meninos, principalmente.

Miguel e João. Eu sabia os nomes, as idades, que o mais velho parecia com ele e o caçula era a cara da mãe. Informações que eu nunca deveria ter guardado, mas que por algum motivo guardei. E que ainda lembro.

— Entendo — falei, fechando o bloco com um clique seco. — Família em primeiro lugar. Sempre foi sua prioridade.

Havia uma aresta na minha voz. Eu não consegui esconder completamente.

Danilo me olhou por um longo momento. Não se defendeu, nem pediu desculpas, apenas aceitou o golpe.

— Algumas prioridades mudam de lugar com o tempo — disse ele. — Outras… não mudam tanto quanto a gente gostaria.

Meu estômago deu uma volta lenta. Senti o calor subir pela nuca, mas mantive o rosto impassível.

— Foi bom te ver, Danilo. Boa sorte com a adaptação.

Eu já estava virando quando a voz dele me parou de novo.

— Laura. — Parei, mas não me virei completamente. — A gente pode conversar direito em algum momento?

Respirei fundo, sentindo o peso de sete anos em um único suspiro.

— Não sei se é uma boa ideia.

— Provavelmente não é — ele concordou. — Mas mesmo assim. Por favor. 

As lembranças que me acometem não são nada boas, mesmo que tenhamos vivido coisas memoráveis. 

É assim mesmo. Sempre nos lembramos primeiro das coisas ruins, mas houveram momentos bons, ainda no começo quando estávamos tão envolvidos que esquecemos todas as outras coisas. Nossos problemas, responsabilidades. Famílias.

— Não acho que tenhamos algo pra conversar — soltei uma risada amarga. — Não resolvemos tudo da última vez?

As palavras saíram mais afiadas do que eu pretendia, mas não as recolhi. Sete anos guardados na garganta têm esse efeito. Elas queimam antes de sair.

Danilo não recuou. Ele nunca recuava. Apenas tirou as mãos dos bolsos e cruzou os braços devagar, como se precisasse se conter fisicamente. Seus olhos castanhos me prenderam ali, sem piedade.

— A gente não resolveu nada, Laura. Só paramos. — A voz dele estava baixa, controlada, mas havia uma rouquidão nova ali. Ou talvez sempre tivesse existido e eu é que tinha me obrigado a esquecer.

Meu peito apertou. Senti um calor incômodo subir pelo pescoço e se espalhar pelas bochechas. Odiei meu corpo por reagir tão rápido, por lembrar tão bem do tom que ele usava quando estávamos sozinhos, quando as palavras eram poucas e os toques diziam o resto.

— Parar foi a única coisa inteligente que fizemos — respondi, tentando manter a voz firme. — Ou você já esqueceu que tinha uma mulher e dois filhos esperando por você em casa enquanto a gente se encontrava em hotéis?

As palavras saíram frias. Eu vi o impacto delas no rosto dele. Um breve franzir de cenho, o maxilar travando com mais força.

— Eu não esqueci — disse ele, a voz ainda baixa, mas agora com um tom mais grave, quase rouco. — Eu lembro de cada detalhe. De cada hotel, cada mensagem que eu apagava antes de voltar pra casa, de como você olhava pra mim quando sabia que eu ia embora de novo.

Meu estômago revirou. Senti um aperto forte no peito, como se alguém tivesse apertado um parafuso bem no centro. A raiva e algo mais perigoso, mais quente, se misturavam dentro de mim. Minhas mãos tremiam levemente e eu as fechei com força ao lado do corpo para disfarçar.

— Que bom que você lembra — retruquei. — Porque eu também lembro. Lembro de esperar horas por respostas que demoravam dias, de me sentir suja toda vez que via uma foto sua com a Clarice e os meninos nas redes sociais. Lembro de ter que sorrir em entrevistas enquanto me perguntava se você estava transando com ela na mesma noite que tinha estado comigo.

As palavras saíram uma atrás da outra, sem filtro. Eu sentia o coração batendo forte contra as costelas, o sangue pulsando nos ouvidos. Parte de mim queria parar, queria ser fria e distante como eu havia planejado ser. Mas outra parte, mais velha e mais ferida, precisava cuspir tudo aquilo.

Ele deu um passo à frente, diminuindo um pouco a distância entre nós. Não o suficiente para tocar, mas o bastante para eu sentir o cheiro dele, o mesmo cheiro de sempre, misturado agora com algo mais amadeirado. Meu corpo reagiu antes da minha mente e um arrepio quente desceu pela minha espinha, se concentrando na barriga.

— Eu nunca te tratei como amante, Laura — ele disse, com os olhos fixos nos meus. — Nunca. Você sabe disso. O que a gente tinha… era errado, sim. Mas não era pouca coisa. Não pra mim.

Eu soltei uma risada curta e seca, sem humor nenhum.

— Errado o suficiente pra você terminar tudo por mensagem, Danilo. Errado o suficiente pra você escolher a família e me deixar lidando sozinha com o buraco que você abriu.

Senti meus olhos arderem. Não de lágrimas, eu me recusava a chorar na frente dele, mas de pura raiva. Meu corpo inteiro estava quente, a pele sensível demais. Eu odiava o jeito como ele ainda conseguia me desestabilizar com tão pouco. Odiava que depois de sete anos, depois de tantas noites me convencendo de que tinha superado, bastava ele me olhar assim para que tudo voltasse com força.

Ele passou a mão pelo rosto, visivelmente cansado, mas não desviou o olhar.

— Eu era casado, tinha dois filhos pequenos, entrei em pânico. — A voz dele baixou ainda mais, quase um murmúrio. — Mas isso não significa que eu não tenha pensado em você todos esses anos. Que eu não tenha me perguntado como teria sido se…

— Se o quê? — interrompi, o peito subindo e descendo mais rápido. — Se você tivesse largado tudo por mim? Não minta pra nós dois. Você nunca faria isso, e eu nunca pedi que fizesse.

O silêncio que caiu entre nós foi pesado, carregado. Eu podia ouvir minha própria respiração irregular. Sentia o calor subindo pelo meu colo, o latejar entre as pernas que eu tentava ignorar com todas as forças. Meu corpo traidor lembrava de coisas que minha mente lutava para enterrar.

Danilo me olhou por mais um longo segundo, como se estivesse decidindo se mergulhava ou recuava.

— Eu não vim aqui pra brigar com você — disse ele finalmente. — Mas também não vou fingir que te ver hoje não mexeu comigo. Ainda mexe. — Ele deu mais meio passo. Agora estávamos perto demais. Perto o suficiente para eu ver as pequenas linhas de expressão ao redor dos olhos dele, as que não existiam antes. — Me diz que não mexeu com você,  que me olhou hoje e não sentiu absolutamente nada. Se conseguir dizer isso olhando na minha cara… eu te deixo em paz.

Meu coração martelava tão forte que eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir. A boca estava seca. As mãos suadas. Eu queria gritar, bater no peito dele, puxá-lo pela camisa e beijá-lo até esquecer todos os anos que nos separaram.

Em vez disso, engoli em seco e levantei o queixo.

— Eu senti, sim — admiti, a voz tremendo de leve apesar de todo o meu esforço. — Senti raiva, vontade de te dar um tapa. Senti… muitas coisas. Mas isso não muda nada, Danilo. Eu não sou mais a mesma mulher que você deixou pra trás.

— Também não sou mais o mesmo homem, Laura. 

A frase dele cai entre nós como uma pedra na água parada. Eu sinto o impacto reverberar no peito. Ele está perto demais. Perto o suficiente para eu ver o leve movimento da veia no pescoço, o cansaço verdadeiro por trás daqueles olhos castanhos que ainda sabiam me desarmar.

Meu corpo inteiro traí a frieza que tento manter. O coração bate descompassado, as pernas parecem menos firmes dentro da saia, e um calor traiçoeiro se espalha devagar entre minhas coxas. Eu odeio isso. Odeio que depois de tanto tempo ele ainda tenha esse poder sobre mim.

— Que bom que você evoluiu — respondi, exalando ironia. — Eu também. Aprendi a não esperar por homens que não conseguem escolher, a proteger o que sobrou de mim depois que você decidiu que eu era um risco grande demais pra sua família perfeita.

Danilo fecha os olhos por um segundo, como se minhas palavras tivessem acertado em cheio. Quando os abre novamente, há algo mais cru ali, menos controle.

— Você acha que foi fácil pra mim? — A voz sai mais rouca, quase dolorida. — Acha que eu não carreguei culpa todos esses anos? Toda vez que via os meninos dormindo, toda vez que a Clarice me olhava e eu sabia que estava mentindo por omissão… eu pensava em você. E isso me corroía.

— Que lindo. O mártir da culpa. Enquanto isso eu tentava reconstruir minha vida sabendo que tinha sido a outra. A mulher que servia pra foder quando dava merda com sua esposa, mas não o suficiente pra ficar.

As palavras foram duras. Eu vi o momento exato em que elas o atingiram, o peito dele subiu e desceu mais rápido, ele descruzou os braços e deu mais um passo, agora quase invadindo meu espaço pessoal. O cheiro dele me envolveu por completo. Meu estômago contraiu.

— Para de reduzir o que a gente teve a isso — ele murmurou entre os dentes. — Você sabe que não foi só sexo. Você sabe.

Eu levantei o queixo, sustentando o olhar mesmo sentindo que minhas pernas ameaçavam falhar.

— Foi o suficiente pra você terminar por mensagem, Danilo. Foi o suficiente pra você desaparecer como se eu fosse um erro que dava pra apagar. — Minha voz falhou no final, e me odiei por isso. — Então me desculpe se hoje eu não tenho vontade de sentar e relembrar os velhos tempos com você.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos que pareceram eternos. Seus olhos desceram brevemente para minha boca antes de voltarem aos meus. Eu senti aquele olhar como um toque físico.

— Eu não quero relembrar os velhos tempos — disse ele por fim, quase sussurrando. — Eu quero saber quem você é agora. E quero que você saiba quem eu sou também.

O silêncio que se seguiu foi denso, sufocante. Meu corpo inteiro vibrava. Raiva, desejo, dor, saudade, tudo misturado numa única sensação quente e latejante.

Dei um passo para trás, quebrando o feitiço antes que fosse tarde demais.

— Talvez um dia a gente descubra — falei, a voz mais firme do que eu me sentia. — Mas hoje não. Hoje eu tenho trabalho pra fazer e você tem uma carreira pra recomeçar. Vamos deixar as coisas como estão.

Virei as costas antes que ele pudesse responder. Meus passos ecoaram na sala quase vazia enquanto eu caminhava em direção à porta. Sentia o olhar dele queimando minhas costas, pesado como uma mão.

Quando alcancei a saída, parei por um segundo, a mão na maçaneta. Sem me virar, falei por cima do ombro:

— Bem-vindo ao Flamengo, Danilo. Tente não destruir mais nada enquanto estiver aqui.

Saí sem esperar resposta, o coração martelando no peito e as pernas trêmulas. O ar do corredor pareceu mais frio, mas nada conseguia apagar o fogo que ele havia reacendido dentro de mim com apenas uma conversa.

Sete anos. E bastou um olhar para que tudo voltasse como se nunca tivesse ido embora.

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