Fôlego Compartilhado

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Summary

Um encontro intenso em uma boate na Suíça, um reencontro inesperado no escritório de arquitetura. Marianne busca o silêncio para curar seus traumas, mas o som do destino — e de uma tosse persistente — pode mudar tudo.

Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 - Parte 1

Meu nome é Alexander Cole, para os mais íntimos, Alex. Tenho uma irmã mais velha que construiu uma família linda; ela é compositora, enquanto eu sou arquiteto. Quando era mais novo, queria ser cantor de banda de rock. Cresci ouvindo os clássicos dos anos 70, 80 e 90, meus pais têm um excelente gosto musical. Cheguei a fazer aulas de canto e até de instrumentos, mas fui deixando de lado depois que fiz um curso de verão em desenho arquitetônico. Meu pai sempre teve sua empresa de médio porte na Califórnia. Sim, sou de Los Angeles, mas nunca me interessou aprofundar nesse assunto com ele. Ele, assim como minha mãe, que é formada em gastronomia e dona de um restaurante renomado na região, nunca nos forçou a seguir suas profissões. Eu e minha irmã somos muito gratos, pois nossos pais são maravilhosos.

Voltando ao curso de verão: estava prestes a me formar e resolvi me inscrever em um curso em Nova York. Apaixonei-me pela cidade e por sua arquitetura moderna. Voltei sabendo qual carreira iria seguir. Meus pais e minha irmã, que estudava em Londres, ficaram felizes. Um tempo depois, mudei-me para cursar arquitetura na Columbia University, em NY. Foi incrível; fiz amigos muito especiais, alguns dos quais trabalham comigo hoje. E conheci, Selena. Tudo aconteceu muito rápido. Foi amor? Paixão à primeira vista? Não sei. Só sei que doeu muito o término. Eu realmente achava que não iria sobreviver.

Tínhamos uma conexão perfeita. Formamo-nos, começamos o mestrado e pensamos em abrir uma empresa juntos. Foram cinco anos de namoro, até que um dia passo muito mal e descubro que tenho bronquite crônica. A Selena foi paciente comigo, mas a poluição de Nova York não ajudava muito. Eu sentia ela indo embora aos poucos. Um dia, entrei no nosso apartamento alugado e ela já estava com as malas prontas. Nossa conversa foi rápida.

Alex, me desculpa, eu não te amo mais, disse Selena. Eu não sei qual foi o momento certo em que isso aconteceu, mas acabou. Eu quero viver outro momento agora. Desculpa, mas esse seu diagnóstico também me incomoda, você passa mal três vezes por mês e talvez eu esteja sendo egoísta, ou estou precipitando. Ela respira fundo, levanta-se e vem até mim, chorando.

Eu gosto de você e te desejo tudo de melhor, mas não consigo mais ficar. Preciso explorar mais, estou sufocada e não há culpados, apenas acabou. Lembra do que dissemos no início do namoro? Se algum dia um não quisesse, seríamos maduros e respeitaríamos a escolha?

Eu apenas aceno com a cabeça, sem entender bem esse momento. Ela pergunta, com aquela sua voz tão adorável - ela é adorável até para terminar comigo:

Nós nunca terminamos.

Posso te abraçar? , disse.

Claro , respondo, sentindo-me sufocado, com o coração acelerado.

Nesse último abraço, choramos juntos e, depois, ela vai embora. Sento-me no chão da sala, arrancando a camisa e os sapatos. Choro tanto que nem percebo o tempo passar, até que uma crise vem e me traz de volta à realidade. Levanto-me e me arrasto para o banheiro, passando os olhos em cada canto e vendo que já não há nada dela aqui. Será que ela volta um dia? Entro no chuveiro e o choro volta forte. Ali mesmo decidi que, depois de defender meu mestrado, resolveria ir para os braços dos meus pais e contar que perdi a Selena e não sei mais como recomeçar.

Agora, estou sentado olhando para o mar. Depois de ser diagnosticado com bronquite crônica, passei a incluir a natação nos meus exercícios. Parei com a corrida, infelizmente, e mudei para a bicicleta e musculação. Já se passaram dois anos. Respiro fundo e escuto um chiado baixo. Ignoro. Quando voltei, recebi o apoio dos meus pais, fiz terapia e agora estou organizando um projeto para abrir minha empresa, pois trabalhar à distância já não está sendo possível. Além disso, o ar de Los Angeles já não é o mesmo para mim.

Cof, cof, cof…

Respiro já com dificuldade. É hora de voltar para o meu refúgio no momento: a casa dos meus pais. Chego em casa e sou recebido sempre com muito amor e com a muita comida da mamãe Alba.

— Como está nesta manhã, filho?

— Estou bem. Hoje, na natação, tossi muito e depois passei na praia, mas o ar está péssimo e aqui estou.

Ela me abraça com força.

— Vamos almoçar. Seu pai não virá, tem uma reunião.

— Tá, vou tomar banho e já desço.

Assim que entro no quarto, vou direto para o banheiro. Tiro a roupa e entro debaixo do chuveiro. Tusso tanto que tenho a sensação de que quebrei alguma costela. Recupero-me. Em crises assim, sinto um cansaço imenso; o ar está ruim hoje, ou seja, perfeito para destruir meus pulmões. Faço minha higiene, coloco uma cueca e uma bermuda e tento ficar com a melhor cara para almoçar com minha mãe.

Almoçamos sentados. Ela começa implicar por eu estar sem camisa.

Você não sente frio, ou vai querer ser um adolencente para sempre?

Rio e já tomo minha medicação, porque hoje não aguento mais crises. Vou até ela, dou um beijo e digo, com minha voz rouca pela crise:

Tem coisas que não mudam, mãe, nem com o passar dos anos. Continuo odiando camisas e uso apenas elas para o trabalho ou situações importantes. Por falar em situações importantes, hoje à noite vamos ter um jantar especial. Eu cozinho. Tenho um comunicado.

— Namorada?

— Não, mãe. Negócios. Vou trabalhar.

No meu quarto, a crise já acalmou. Sinto apenas dores ao respirar nas costas e no meu abdômen, de tanto tossir pela manhã. Detesto essa condição. Sei que no mundo existem piores, mas quando a crise vem, é complicado. Não tenho vontade de namorar ninguém desde que a Selena terminou comigo. Minha terapeuta perguntou se eu estou esperando por ela; disse que não. Ter bronquite crônica, seria complicado me expor em uma relação, talvez pelo término com Selena , ainda me assombrar por ter sido tão rápido, enfim… Mesmo assim, saio e me divirto quando estou bem, evito passar a noite com as garotas. Deixo claro que são apenas uns beijos ou sexo, nada sério. Se aceitarem, tudo bem. Nem troco números de telefone. Segundo minha terapeuta, estou com um bloqueio por causa da bronquite. Digo que não, porém não testei na prática como vou me sentir vulnerável ao ter uma crise perto de alguma garota com quem me relacione.

Tusso frequentemente, principalmente pela manhã. Sinto falta de ar com muito esforço, chiado, desconforto e peso no peito. Meu abdômen e costas doem de tanto contrair repetidamente. Posso ter infecções pulmonares frequentes e o estresse também acaba gerando crises. Quando estou vulnerável, fico em casa. Passei a ter sensibilidade ao frio, poeira, fumaça, mudanças bruscas de temperatura, pólen, mofo e poluição. Aqui em Los Angeles não está sendo fácil. Depois de muita pesquisa, decidi morar na Suíça; tem o ar bem mais limpo e é um ótimo mercado para abrir minha empresa física. Trabalho até o fim da tarde e depois desço para preparar o jantar.

Estou sentado diante dos meus pais agora e vejo, em seus olhos, alegria e preocupação.

— Então... queria explicar melhor para vocês antes de ir. A médica disse que, a longo prazo, a mudança vai ser boa para mim. O ar lá é muito mais limpo, então deve ajudar bastante na minha respiração. Mas no começo... vou ter que ter um pouco mais de cuidado.

Como é um ambiente novo, com outros vírus e outra rotina, é bem provável que eu acabe pegando alguns resfriados ou até gripe nesses primeiros meses. E como o meu corpo vai estar mais sensível nessa fase de adaptação, eu vou precisar me cuidar mais para isso não evoluir para uma infecção mais séria. Ela também comentou que o frio pode mexer com a minha respiração no início, então pode acontecer de eu ter algumas crises até o corpo se acostumar. Mas isso tudo é esperado. Não é que vai dar errado, é só uma fase de adaptação. Vou com tudo organizado: medicação, acompanhamento... e vou deixar a casa preparada também, com tudo que ajude a manter o ar mais limpo e confortável para mim. Não vou negligenciar nada. É só um começo mais cuidadoso, mas necessário.

Alba e Jack ainda estão com os olhos marejados, mas levantam-se e me dão um abraço, dizendo que estou certo e que tudo vai ficar bem. Estão orgulhosos. Fazemos uma chamada de vídeo com minha irmã, Stela. Duas semanas depois, estou dentro de um avião, na classe executiva, com duas máscaras e meu melhor amigo sem noção, que fez questão de me buscar em LA, já fazendo planos para nossas noitadas. Ele diz que eu não vou ter crises fortes na Suíça.

No quarto dia, estou na casa dele com um resfriado horrível.

— Atchim! Atchim! Atchim! - funguejo. Pegando outro lenço de papel. Que merda. Quarto dia, cara... Atchim! -funguejo.

O Tom está de máscara, me encarando enquanto estou esparramado em seu sofá.

— Cara, você continua com a mesma mania de ficar sem camisa. Vai ficar me humilhando com esse seu tanquinho? Vai se fuder! O que você está fazendo aos 32 anos?

— Funguejo... Sim. Sobre a camisa, não é uma mania, é um hábito. Faço natação, ciclismo e musculação três vezes por semana. Atchim! Atchim! Funguejo. Inclusive, não tem uma casa estilo a sua por perto? Esta piscina e essa vista já estão valendo o resfriado.

— Sim, Alex. Inclusive a que fica aqui ao lado, quando se sentir melhor, vamos visitar ela. A piscina é maior que essa e tem um sistema que permite fechar o teto. E o melhor, cara: é novinha, acabou de ficar pronta, tem um mês e com um sistema de ar que pode ser bom para você.

— Maravilha, Tom. Vou subir e descansar um pouco. Depois, tenho que começar a enviar os papéis para abrir imobiliária. Já adiantei muitas coisas online; estou ansioso para recomeçar no nosso escritório.

— Isso aí, irmão. Vou sair um pouco e prometo que, quando melhorar, vamos em uma balada boa.

Eu sorrio, lembrando que já faz um tempinho que não saio com ninguém.