O som do silêncio
O relógio marcava 22h17 quando ela finalmente girou a chave na porta.
O apartamento estava escuro, silencioso… vazio.
Ela encostou a testa na madeira por alguns segundos antes de respirar fundo. O dia tinha sido longo. Clientes irritantes, mensagens ignoradas, trânsito, cobranças. E agora, ali estava ela outra vez: sozinha.
Largou a bolsa no chão e caminhou devagar pela sala iluminada apenas pela luz da cidade entrando pela janela. O salto alto foi abandonado no meio do caminho. O blazer caiu sobre o sofá.
Seu corpo doía.
Mas havia uma parte dela que permanecia acordada.
Uma inquietação quente. Crescente. Quase impossível de ignorar.
No banheiro, abriu o chuveiro quente e deixou a água escorrer lentamente pelo pescoço, descendo pelos ombros tensos. Fechou os olhos. A respiração desacelerou enquanto os dedos afastavam os fios molhados da pele.
Ela sentia falta de alguma coisa.
Não exatamente de alguém.
De toque.
De presença.
De si mesma.
Quando saiu do banho usando apenas um robe leve de cetim preto, caminhou até a cômoda do quarto distraidamente. Foi então que abriu a última gaveta.
Lá estava.
O pequeno vibrador rosé que comprara meses atrás numa madrugada impulsiva depois de assistir vídeos sobre prazer feminino e autoconhecimento.
Nunca tinha usado.
Passou os dedos pela caixa lentamente, sentindo o coração acelerar de um jeito quase adolescente. Uma mistura de vergonha, curiosidade e desejo percorreu seu corpo inteiro.
Ela riu sozinha.
— Talvez esteja na hora…
Acendeu a vela aromática sobre o criado-mudo. O quarto ganhou um brilho dourado e íntimo. Pegou um óleo corporal de baunilha e espalhou um pouco nos braços, colo e pernas, sentindo a pele aquecer sob os próprios toques.
Naquela noite, ela não queria agradar ninguém.
Nem parecer perfeita.
Nem esperar mensagens.
Pela primeira vez em muito tempo, queria apenas ouvir o próprio corpo.