Prólogo
SAVANNAH
O chão estava frio, mas eu já não conseguia sentir nada. Sentei-me com os joelhos encostados no peito, enfiada no canto de um ponto de ônibus qualquer que não me pertencia. O tempo parecia estagnado. Um cachorrinho aleatório, com orelhas grandes demais para a cabeça, apareceu e me cheirou; logo começou a lamber minha mão e, depois, a curva da minha barriga através do meu vestido de formatura, antes de se deitar sobre mim, como se decidisse que eu era um lugar seguro. Eu não o impedi. Não me importava o suficiente para isso.
Tudo o que eu conseguia fazer era encarar o maldito poste. Nele, havia uma foto deles: minhas duas pessoas favoritas no mundo, sorrindo ao meu lado no campo de futebol. Olhei para a imagem me sentindo estúpida. Fui eu quem o ensinou a tocar, como fazer uma garota suspirar, como deslizar os dedos pela espinha devagar o suficiente para fazer as pernas dela tremerem. Eu o ensinei como arruinar alguém e fingir que aquilo não significou nada.
Ele tomou notas mentais. Ouviu com atenção. Fez tudo exatamente como eu disse — e então, ele usou tudo nela.
Eu não deveria me importar, afinal, eu era quem estava no controle. Mas sempre que o via sair cambaleando do quarto dela às 2h17 da manhã, fechando o zíper das calças com os lábios inchados, eu simplesmente não conseguia respirar. Eu o avisei para não se aproximar. Eu disse que ele iria me quebrar. Ele não ouviu, fez isso de qualquer maneira.
E agora estou aqui, em um ponto de ônibus esquecido, com um cachorro de rua enrolado em mim, sofrendo com o seu egoísmo. E não consigo parar de pensar em como, metodicamente, ele me arruinou.