Nosso jogo secreto

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Summary

Sinopse - Nosso Jogo Secreto Renato Noleto Albuquerque sempre foi o capitão perfeito. Dentro da quadra, liderança. Fora dela, expectativa demais. Filho único de pais brilhantes e ausentes, ele carrega o peso de ser o melhor - nas notas, no esporte, na vida. Mas quando seu rendimento escolar começa a cair, Renato se vê à beira de perder aquilo que mais ama: o basquete. Do outro lado da quadra está Caíque Monteiro Linhares ,Talentoso, provocador e confiante. Vindo de uma realidade completamente diferente, ele não joga para agradar ninguém - joga porque ama. Rival à altura, Caíque surge como ameaça... e como tentação. Uma derrota amarga. Um erro decisivo. Uma discussão que vira faísca. Obrigados a conviver por causa de aulas particulares, os dois descobrem que a rivalidade esconde algo mais intenso. Entre olhares roubados, provocações e segredos, o jogo deixa de ser apenas sobre pontos no placar. Porque algumas partidas não são vencidas na quadra. São vencidas no coração. E esse... é o jogo que ninguém pode ver.

Genre
Lgbtq
Author
vanessa
Status
Ongoing
Chapters
9
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo 1 Placar zerado

( Narrado por Renato)

Eu acordo com o silêncio.

Não aquele silêncio bom, de domingo preguiçoso.

É o silêncio de uma casa grande demais para três pessoas que quase nunca se encontram.

O relógio digital ao lado da cama marca 6h12. Ainda tenho tempo antes da escola, mas meu corpo já desperta tenso, como se estivesse atrasado para alguma coisa que nunca termina. Me levanto, piso no chão gelado e atravesso o corredor impecável. A casa dos meus pais parece uma vitrine: tudo no lugar, tudo limpo, tudo... distante.

Na cozinha, minha mãe já está pronta para sair. Jaleco branco dobrado sobre o braço, cabelo preso com precisão. Meu pai mexe no celular enquanto toma café, a gravata perfeitamente alinhada.

- Bom dia - digo.

- Bom dia, filho - minha mãe responde, sem olhar muito tempo. - Dormiu bem?

- Dormi.

Mentira. Mas aprendi cedo que respostas curtas economizam explicações.

- E a prova de matemática? - meu pai pergunta, finalmente levantando os olhos. - Saiu a nota?

Meu estômago se contrai.

- Ainda não.

Ele apenas assente, como se estivesse anotando mentalmente mais um item pendente da minha performance. Minha mãe coloca uma xícara à minha frente.

- Você precisa se dedicar mais, Renato. Não dá pra viver só de basquete.

Eu não vivo só de basquete.

Eu sobrevivo por causa dele.

- Eu sei - respondo.

Eles se despedem rápido. Beijos no ar, recomendações práticas, agendas cheias. A porta se fecha e, de novo, fico sozinho naquela casa que tem tudo... menos espaço para errar.

🏀🧡

O Complexo Educacional Santa Terezinha sempre parece acordado demais. Alunos espalhados pelos corredores, risadas altas, celulares escondidos, professores apressados. Assim que entro, Felipe me puxa pelo ombro.

- Capitão! Preparado pra hoje?

- Preparado pra ganhar - respondo.

Luis aparece logo atrás, com aquele olhar atento de quem observa mais do que fala.

- Ouvi dizer que o técnico tá de olho em você. De novo.

Cristiano ri.

- Como se ele tivesse escolha. Sem o Renato, o time morre.

Sorrio de lado. Eles falam como se eu fosse invencível. Como se eu não estivesse a um boletim ruim de perder tudo.

Paula aparece, linda como sempre, se encaixando no meu braço.

- Jogo hoje, né? Vou estar lá.

- Você sempre está - digo, automático.

Na sala de aula, o tempo se arrasta. A professora explica equações enquanto minha mente faz cálculos diferentes: minutos para o intervalo, horas até o jogo, pontos que preciso marcar para lembrar todo mundo - inclusive meus pais - de quem eu sou.

A professora Rita começa a distribuir as provas sem dizer uma palavra. O som das folhas deslizando pelas carteiras é alto demais. Meu coração bate no mesmo ritmo, descompassado.

Quando a prova cai sobre a minha mesa, viro rápido.

Os números pulam na minha frente antes mesmo que eu queira olhar direito.

5,8.

Meu estômago afunda.

Antes que eu consiga dobrar a folha, Felipe se inclina por cima da carteira.

- E aí? Quanto foi?

- Deixa, cara - digo, puxando a prova para perto do peito.

- Ih... - Cristiano se estica do outro lado. - Isso é cara de nota ruim.

Ele tenta puxar o papel da minha mão. Eu seguro mais forte.

- Para com isso.

- Mostra aí, capitão - Felipe insiste, meio rindo, meio tenso. - Se não for pelo time, vai ser por curiosidade.

Paula aparece atrás de mim, apoiando o braço no encosto da cadeira.

- Amor, deixa eu ver.

Respiro fundo. Não tem como fugir. Solto a folha sobre a mesa.

O sorriso deles some.

- Poxa... - Felipe murmura.

- De novo, Renato? - Cristiano solta, sem pensar. - Cara, assim não dá.

Paula morde o lábio.

- Você disse que tinha estudado, amor.

- Eu estudei - respondo, rápido demais.

- 5,8 não é estudar - Cristiano rebate. - O técnico já avisou. Nota baixa, fora do time.

Essa frase pesa mais que qualquer cobrança dos meus pais.

- Relaxa - Felipe tenta consertar. - Ainda dá tempo de recuperar.

Mas ninguém acredita de verdade. Nem eles. Nem eu.

Paula pega a prova, olha de novo, como se o número pudesse mudar.

- Você precisa se esforçar mais, Renato - diz, devolvendo o papel. - Não pode jogar tudo fora por causa disso.

Isso.

Como se fosse pouca coisa. Como se não fosse exatamente onde tudo começa a dar errado.

Dobro a prova e enfio na mochila. Meu olhar se perde no quadro, mas eu não vejo mais nada.

Só penso em uma coisa:

Se eu perder o basquete...

o que sobra de mim?

O sinal toca, eu respiro aliviado, mas a professora Rita não se levanta.

- Renato Albuquerque - ela chama, olhando direto para mim. - Pode ficar um instante?

Meus amigos trocam olhares. Felipe faz um gesto de depois a gente se fala. Paula hesita, mas sai com os outros. A sala vai esvaziando até ficar só eu, a professora e o barulho distante do corredor.

Ela fecha o diário com cuidado e cruza os braços.

- Renato, eu vou ser direta com você.

Assinto, já sabendo que coisa boa não vem.

- Suas notas estão caindo - ela continua. - Não é só essa prova. É um redimento que vem de meses. Exercícios incompletos, erros básicos, falta de atenção.

- Eu estou tentando melhorar - digo, baixo.

- Eu sei que você joga basquete. Sei que é importante pra você. Mas a escola não pode fechar os olhos pra isso.

5,8. De novo.

- Se continuar assim, você não fecha média no bimestre.

Meu peito aperta.

- Professora... eu não posso ficar fora do time.

Ela suspira, como quem já ouviu isso antes.

- Renato, você vai ter que escolher prioridades. Neste momento, matemática vem antes do jogo.

Escolher.

Sempre essa palavra.

- Vou precisar entrar em contato com seus pais - ela diz. - Eles precisam saber o que está acontecendo.

Sinto o chão ceder.

- Não... por favor.

Ela me encara com firmeza, mas sem crueldade.

- Não é um castigo. É uma tentativa de te ajudar.

Fico em silêncio.

- Existe uma alternativa - ela continua. - Aulas particulares. Reforço focado. Mas só funciona se você se comprometer de verdade.

- Eu me comprometo - respondo rápido demais. - Eu juro.

Ela anota algo no caderno.

- Vou organizar isso. Mas fique claro: se não houver melhora, você pode esquecer o basquete por um tempo.

Esquecer o jogo.

É como pedir para eu esquecer quem eu sou.

- Pode ir - ela diz, mais suave. - E pense nisso com responsabilidade.

Pego a mochila e saio da sala com a sensação de estar andando contra o vento. No corredor, o barulho da escola parece distante demais.

Pela primeira vez, o jogo não parece suficiente para me salvar.

Quando saio da sala, encontro os três encostados no bebedouro, fingindo que conversam sobre qualquer coisa. Paula está com eles, braços cruzados, expressão impaciente.

- E aí? - Felipe pergunta primeiro. - O que foi dessa vez?

- Deixa eu adivinhar - Cristiano completa. - Nota baixa, né?

Passo a mão no rosto.

- Preciso melhorar minhas notas em matemática.

- Sempre matemática - Luis diz, num tom mais baixo.

__ Isso é porque ainda não recebemos as provas de física e química. Com certeza Renato tirou bomba também. __Cristino disse rindo.

___ Cala a boca mané.

__ Cara tu é péssimo com os números o único lugar que você não briga com eles é no placar na quadra.

Não falo nada porque é verdade.

Paula se aproxima.

- Ela falou o quê?

- Que minhas notas estão caindo. Que vai ligar pros meus pais.

O silêncio pesa por um segundo.

- Cara... - Felipe solta devagar. - Aí complica.

- Complica nada - Cristiano rebate. - Você precisa focar. Se continuar assim, vai acabar fora do time.

Olho pra ele.

- Eu sei.

- Não é só você - ele continua. - O time depende de você. Se você ficar de fora, a gente se ferra.

Essa frase dói mais do que eu esperava.

- Ela falou de aula particular - digo, tentando mudar de assunto. - Reforço.

- Aula particular? - Felipe faz uma careta. - Vai virar nerd agora?

- Se for pra continuar jogando, vira o que for - Cristiano responde por mim.

Paula cruza os braços.

- Renato, você não pode errar hoje - ela diz. - Todo mundo vai estar olhando.

Todo mundo sempre está olhando.

E isso me deixa pilhado.

Não pelo ginásio cheio mas pela espectativa colocada sobre mim.

É como se eu não pudesse ter falhas e eu tenho, muitas.

O sinal toca e o burburinho aumenta. Seguimos pelo corredor que leva ao ginásio. Cada passo parece me empurrar para um lugar conhecido, seguro.

Quando atravesso a porta, o cheiro da quadra me atinge como um choque bom. O barulho da torcida chegando, o eco das bolas quicando, o time adversário aquecendo.

Aqui, eu respiro.

Jogo não exige boletim.

Não cobra média.

Não liga pros meus pais.

No vestiário, visto o uniforme como quem coloca uma armadura. Amarrei o tênis com força demais, tentando amarrar também os pensamentos.

Quando volto para a quadra, levanto os olhos.

Do outro lado, ele está lá de novo.

Caique Linhares

Ele quica a bola com calma, concentrado, como se nada ao redor o atingisse. Por um segundo, nossos olhares se encontram.

E eu tenho certeza de uma coisa:

Esse jogo não vai ser como os outros.

Minha cabeça não cala.

Mesmo quando o juiz chama os dois capitães para o centro da quadra, as vozes continuam lá dentro:

nota baixa

ligar pros pais

fora do time

responsabilidade

Olho para o outro lado.

Caíque Linhares está ali, firme, braços cruzados, expressão tranquila demais para quem vai entrar num jogo decisivo. Eu conheço aquele rosto. Já o enfrentei antes. Sei do que ele é capaz.

Adversário à minha altura.

Talvez até mais.

A bola sobe. O jogo começa.

Nos primeiros minutos, percebo rápido: a marcação é toda em cima de mim. Dois jogadores alternando, fechando linhas de passe, antecipando meus movimentos.

- Bola, Renato! - Felipe grita.

Passo. Recebo de volta. Tento infiltrar. Fecho cercado. Volto a bola. Meu corpo está ali, mas a mente tropeça.

Caique marca outro cara, mas sempre me observa. Quando cruza comigo, solta, baixo o suficiente só pra eu ouvir:

- Capitão meio distraído hoje, hein?

Cerco os dentes.

- Vai cuidar do seu jogo.

Ele sorri. Debochado. Calmo.

Isso me tira do eixo.

O placar anda ponto a ponto. Empate. Vira. Empata de novo. A torcida grita. O técnico grita. Meus amigos gritam. Tudo é barulho demais.

Recebo a bola livre por um segundo. Arremesso.

Erro.

- Droga! - bato palmas, tentando me recompor.

Na jogada seguinte, Caique rouba uma bola, acelera e converte dois pontos limpos. Simples. Preciso.

- Foca, Renato! - Cristiano berra.

Eu foco. Ou tento.

Converto uma bola de três. A torcida vibra. Por alguns segundos, volto a respirar. Sou eu de novo. Sou o capitão.

Mas a pressão não some. Ela espera.

Último quarto. O placar mostra uma diferença mínima. Dois pontos. Tudo em aberto.

Recebo a bola. A marcação dobra. Tenho Felipe livre no canto. Tenho tempo.

Ou acho que tenho.

Decido ir pra cima.

Caique aparece do nada. Fecha o espaço. Estica o braço. A bola escapa dos meus dedos.

- Não! - grito.

Contra-ataque rápido. Dois pontos para eles.

O ginásio silencia.

Pedido de tempo. Olhos em mim. Decepção sem palavras.

- Era pra passar! - Cristiano solta, seco.

Não respondo.

Volta do jogo. Última posse. Precisamos de três.

A bola vem pra mim de novo. Sempre vem.

Arremesso forçado. Pressa. Desespero.

Erro.

O apito final corta o ar.

Perdemos por dois pontos.

Fico parado, mãos nos joelhos, tentando entender como tudo escapou tão fácil. O barulho da torcida agora é distante. O time adversário comemora.

Caique passa por mim, ainda sorrindo.

- Às vezes o problema não é o jogo - ele diz. - É a cabeça.

Isso é demais.

Empurro o peito dele sem pensar.

- Fica na sua.

Ele dá um passo para trás, mas não perde o sorriso.

- Pavio curto assim vai acabar te queimando, capitão.

A tensão explode. Jogadores se aproximam. Alguém segura meu braço. Outro puxa Caique.

- Chega! - o juiz grita.

Meus próprios companheiros me olham como se eu tivesse falhado duas vezes: no jogo... e agora.

Felipe evita meu olhar.

Cristiano balança a cabeça, decepcionado.

Paula nem chega perto.

Caminho para o vestiário sentindo o peso de cada passo.

Capitão.

Responsável.

Culpado.

E, mesmo assim, a única coisa que não consigo tirar da cabeça é o olhar de Caique.

Debochado. Seguro.

Como se ele soubesse exatamente onde apertar pra me desmontar.

E o pior:

ele conseguiu.

O vestiário está silencioso demais.

O som da porta batendo atrás de nós ecoa como um ponto final. Ninguém fala. Ninguém brinca. O barulho da água caindo no ralo parece alto demais.

Sento no banco, ainda com o uniforme, encarando o chão.

- A gente treinou isso - Cristiano diz, quebrando o silêncio. Não olha pra mim. - Treinou passe rápido. Jogo coletivo.

Engulo seco.

- Eu vi o Felipe livre - continuo, tentando me defender. - Achei que dava pra infiltrar.

- Achou errado - ele responde, sem agressividade. Isso é pior.

Felipe passa a toalha no rosto.

- Cara... - suspira. - Você não costuma errar assim.

Essa frase pesa mais que qualquer grito.

Luis, encostado no armário, finalmente fala:

- Não foi só o erro. Foi a cabeça. Você tava fora do jogo.

- Eu sei - digo baixo.

Paula entra depois de alguns segundos. Olha pra mim, mas não se aproxima.

- Todo mundo tava contando com você, Renato - ela diz. - Era um jogo importante.

- Eu sei - repito.

Sempre sei.

Mas hoje falhei.

O técnico aparece na porta.

- Amanhã a gente conversa - diz, sério. - Agora vão pra casa.

Tiro a camisa molhada de suor, com mãos tremendo.

Perder o jogo doeu.

Perder a confiança... doeu mais.

O vestiário vai esvaziando devagar.

Os outros falam baixo, evitam olhar pra mim.

Não por raiva, por decepção.

Essa dó silenciosa pesa muito mais.

Se o resultado do jogo fosse outro eles me olhariam de outra forma.

Continuo sentado no banco, o coração acelerado como se o jogo não tivesse acabado.

Ouço passos.

Paula.

Ela pega a bolsa, ajeita o cabelo diante do espelho. Está pronta para ir.

Para seguir em frente.

- Paula - chamo.

Ela para, suspira antes mesmo de responder.

- O que foi, Renato?

Levanto o rosto. Não é um pedido ensaiado. Não é dramático.

É simples. Cru.

- Fica comigo um pouco.

Ela me encara, surpresa.

Não pela frase.

Mas pelo tom.

- Agora? - pergunta.

- Só... não vai .

Eu pensei que a gente pudesse ir lá casa um pouco, eu não quero ficar sozinho.

O silêncio cresce entre nós.

Paula cruza os braços. O corpo fechado diz mais do que qualquer palavra.

- Você sabe que eu odeio quando você fica assim - ela diz.

- Assim como?

Ela hesita.

- Como se o mundo tivesse acabado.

Dou um meio sorriso cansado.

- Não acabou. Só ficou pesado demais hoje.

Ela balança a cabeça, impaciente.

- Renato, você é o capitão. Todo mundo te segue. Você não pode se permitir cair desse jeito.

- Cair? - repito. - Eu só perdi um jogo.

- Não é só isso - ela rebate. - É essa coisa... essa necessidade. Parece que você espera que alguém te segure. Eu não sei lhe dar com você assim.

A frase entra fundo.

Me levanto devagar, ficando de frente pra ela.

- Eu seguro todo mundo - digo, baixo. - Hoje eu só... não queria segurar sozinho, queria ao menos poder descansar minha cabeça no seu ombro.

Ela desvia o olhar.

- Eu preciso de alguém forte - responde. - Não de alguém ...

Vulnerável que duvida.

- Eu não tô duvidando de mim - afirmo. - Eu tô cansado.

Ela me encara de novo. Não há raiva ali.

Há desconforto.

- Você sempre dá um jeito - diz. - Sempre deu.

Pega a bolsa.

- Descansa. Amanhã você volta a ser você.

Ela se vira, abre a porta.

- Paula - chamo uma última vez.

Ela para, mas não olha pra trás.

- Hoje... eu também sou eu.

___ Eu prefiro o seu eu de sempre.

A porta se fecha.

Parado ali, começo a entender que a dor não vem da derrota.

E, contra a minha vontade, quem insiste em permanecer na minha mente não é ela.

É Caíque Monteiro Linhares.

🏀🧡

Volto para a quadra.

As luzes estão apagadas, exceto por uma fileira acesa perto da tabela. O ginásio parece maior assim, vazio, silencioso, como se estivesse me engolindo.

Pego a bola esquecida perto do banco.

Quicar.

Respirar.

Arremessar.

A bola bate no aro e sai.

Pego de novo.

Arremesso.

Erro.

Outra vez.

som seco da bola ecoa pelo ginásio, se espalha, volta pra mim como um lembrete de tudo o que deu errado hoje. Não tem técnico, não tem torcida, não tem capitão. Só eu.

Lanço a bola com mais força.

Ela cai limpa na rede.

Não comemoro.

Arremesso de novo. E de novo. E de novo.

O braço começa a queimar. O peito aperta. O suor escorre pelo rosto, misturando cansaço e raiva. Cada lançamento carrega algo que eu não consegui dizer: para meus pais, para a Paula, para o time.

Erro.

Acerto.

Erro.

Paro no meio da quadra, ofegante, a bola presa contra o peito.

- Droga! - grito, a voz rasgando o silêncio. - Droga!

Lanço a bola longe. Ela bate na parede, volta quicando, indiferente.

Passo a mão pelos cabelos, o corpo tremendo.

- Me deixa em paz! - grito, sem saber exatamente para quem. - Só... me deixa em paz!

O eco devolve minha voz, vazia.

Então ouço um barulho.

Um som leve. Um passo? Uma porta? Não sei.

Meu corpo trava por um segundo.

Olho ao redor da quadra.

Nada.

O silêncio volta a ocupar tudo, como se nunca tivesse sido interrompido.

Respiro fundo, pego a mochila e caminho para a saída. Antes de ir embora, olho

uma última vez para a tabela.

Talvez eu não esteja perdendo o jogo.

Talvez eu esteja só cansado de jogar sozinho.

Apago a luz e saio.

🏀🧡

Chego em casa mais tarde do que o normal.

A luz da sala está acesa.

Isso, por si só, já é um aviso.

Fecho a porta devagar e deixo a mochila no chão. Antes mesmo de subir para o quarto, escuto a voz do meu pai.

- Renato.

Paro.

Marcelo está sentado no sofá, o jaleco dobrado ao lado. Minha mãe, Janaína, permanece em pé, braços cruzados, celular na mão. Os dois me encaram como se eu tivesse chegado atrasado para um julgamento.

- A professora Rita de Cássia ligou hoje - minha mãe diz, sem rodeios.

Respiro fundo.

- Ligou para falar das suas notas - completa meu pai. - Matemática, de novo.

Não respondo.

- Você tem ideia do que isso significa? - Janaína continua. - Complexo Educacional Santa Terezinha não é qualquer escola. Existe um regimento. Existe um nome a zelar.

- Suas notas estão caindo - Marcelo diz, a voz controlada demais. - E isso não é aceitável.

- Eu estou tentando - digo, baixo.

Minha mãe solta um riso curto, sem humor.

- Tentando? Renato, tentar não é suficiente. Você sempre foi acima da média. O que está acontecendo?

Olho para os dois. Penso em dizer muita coisa. Penso em falar do peso, da solidão, do quanto eu me sinto cansado.

Mas sei que não adianta.

- A professora sugeriu aulas particulares - Marcelo diz. - E foi clara: se você não melhorar, vai ter consequências.

- Inclusive no esporte - minha mãe acrescenta. - Basquete não pode ser desculpa para negligenciar os estudos.

- Eu não negligenciei - respondo, mais firme do que pretendia.

- Então por que suas notas estão assim? - ela rebate.

Silêncio.

Meu pai se levanta.

- Você precisa decidir o que quer, Renato. Não pode agir como se tudo girasse em torno do jogo.

- O jogo é importante pra mim - digo.

- Importante não é prioridade - ele responde. - Sua prioridade é ser o melhor aluno que você pode ser.

Engulo seco.

- Nós já marcamos uma conversa na escola - Janaína diz. - E vamos acompanhar isso de perto.

Acompanhar.

A palavra pesa.

- Pode subir - meu pai finaliza. - Amanhã conversamos mais.

Pego a mochila e subo as escadas.

No quarto, fecho a porta com cuidado, como se não quisesse incomodar nem o silêncio. Me sento na cama, o corpo finalmente cedendo ao cansaço.

Eles querem um filho exemplar.

Eu só queria que alguém perguntasse se eu estou bem.

Deito olhando para o teto, o som da bola quicando ainda ecoando na minha cabeça.

Demoro a pegar no sono.

Quando pego, não descanso.

A quadra aparece de repente, iluminada demais, como se estivesse sob holofotes de um jogo decisivo. O barulho da torcida é alto, confuso, impossível de distinguir palavras.

Estou em quadra.

Uniforme colado ao corpo. O suor escorre antes mesmo do jogo começar.

O apito soa.

Corro. A bola vem. Escapa.

- Capitão? - uma voz ecoa.

Levanto o olhar.

Caíque Linhares está parado do outro lado da quadra, apoiado na bola, como se aquilo fosse um treino qualquer. Sorriso torto no rosto. Olhar afiado.

- Ué... não era você que resolvia tudo sozinho?

A torcida ri. Não sei de quem.

A bola volta para mim. Arremesso.

Erro.

- De novo - Caíque diz, batendo palmas devagar. - Vai, tenta mais uma. Você gosta disso, não gosta?

Meu braço pesa. O aro parece mais alto.

- Cala a boca - respondo, ofegante.

Ele caminha em minha direção, ainda sorrindo.

- Relaxa, capitão. Errar faz parte - diz. - O problema é fingir que não dói.

A quadra começa a se fechar, como se as linhas no chão se aproximassem de mim.

- Você não cansa? - ele pergunta. - De carregar todo mundo nas costas?

- Eu dou conta - respondo, automático.

Caíque inclina a cabeça, debochado.

- Claro que dá. Sempre dá... até não dar mais.

Ele lança a bola para o alto. Ela nunca cai.

Tudo fica em silêncio.

- No fundo, você só não sabe jogar quando tá sozinho - ele diz, a voz ecoando.

Tento responder, mas o apito soa alto demais.

Acordo de repente.

O quarto está escuro. Meu coração bate forte, a respiração irregular. Passo a mão no rosto, sentindo o suor frio.

Olho ao redor, tentando me convencer de que foi só um sonho.

Mas a frase insiste, grudada em mim como a derrota.

Você só não sabe jogar quando tá sozinho.

Viro para o lado, encarando a parede, sabendo que, mesmo dormindo, Caíque encontrou um jeito de entrar no meu jogo.

Olá amores!

Nova história.

Espero que vocês dêem muito amor para essa nova escrita.

Nesse capítulo conhecemos um pouquinho do Renato, o que vocês estão achando dele?

Não esqueçam de curtir e comentar.

Beijinhos e até o próximo capítulo 😘