Capítulo 1 - O Reencontro
Helena Duarte sabia exatamente para onde estava indo, e odiava cada fibra de seu ser por isso.
O edifício da Vasconcelos Holding se erguia contra o céu de São Paulo como um prédio imponente e impiedoso. Para qualquer outra pessoa, era apenas um símbolo de sucesso empresarial; para Helena, era um lembrete silencioso e monumental de tudo o que ela jurou nunca mais enfrentar.
Rafael Vasconcelos.
Apenas pronunciar esse nome mentalmente tinha o poder de causar um curto-circuito em sua racionalidade. Ele era o homem que ela amara com a entrega imprudente da juventude, e o mesmo homem que a destruíra com a precisão de um cirurgião.
Helena apertou a pasta de couro contra o peito, sentindo o suor frio humedecer a ponta de seus dedos. Ela não estava ali por saudade. Estava ali por sobrevivência. O que estava em jogo — o legado de sua família e o futuro que ela tentava reconstruir — não lhe deixava outra saída a não ser entrar na toca do lobo.
— É apenas um contrato — murmurou para si mesma, a voz falhando levemente. — Um negócio. Nada além disso.
Era a mentira mais descarada que já havia contado. Ela sabia que, no momento em que cruzasse aquelas portas giratórias, nada seria “apenas um negócio”. Ainda assim, ela deu o primeiro passo.
O interior da empresa era uma extensão da personalidade de seu dono: frio, sofisticado e absurdamente sufocante. O mármore polido refletia as luzes em ângulos agudos, e cada detalhe do design gritava poder, controle e uma riqueza que Helena conhecia bem demais. Rafael nunca fora fã de sutilezas.
Ela caminhou até a recepção, o som de seus saltos ecoando no hall como batidas de um metrônomo apressado.
— Tenho uma reunião com o senhor Rafael Vasconcelos — disse ela, mantendo a voz o mais estável possível.
A recepcionista, impecável em um terninho que provavelmente custava o aluguel de Helena, a analisou com a eficiência de um scanner.
— Nome?
— Helena Duarte.
Não houve hesitação ou a necessidade de checar a agenda. Apenas um leve aceno de cabeça.
— Ele a está esperando, Srta. Duarte. Pode subir. Cobertura.
Claro que ele estava esperando. Rafael nunca deixava nada ao acaso; ele gostava de preparar o palco antes de deixar suas vítimas entrarem.
O elevador subia em um silêncio absoluto, tão rápido que Helena sentiu os ouvidos estarem sob pressão. Pela primeira vez em anos, ela se permitiu olhar no espelho do elevador. O reflexo mostrava uma mulher de queixo erguido, maquiagem impecável e olhos que pareciam blindados. Mas por trás daquela máscara de controle, o que existia era o caos absoluto.
As portas se abriram diretamente na antessala da diretoria. A porta do escritório estava aberta, um convite silencioso e arrogante. Helena parou por um breve segundo, inspirando o ar condicionado gelado, e entrou.
Ele estava lá.
Rafael estava de costas, parado diante da imensa parede de vidro que oferecia uma visão panorâmica da cidade. Alto, ombros largos sob um terno feito sob medida, a postura de quem dominava não apenas aquela empresa, mas o mundo inteiro. Ele era exatamente como ela lembrava, mas com uma aura de periculosidade ainda mais refinada pelo tempo.
O corpo dela reagiu instantaneamente: o coração martelou contra as costelas e uma mistura tóxica de raiva, dor e um desejo que ela se recusava a nomear subiu por sua garganta.
— Você veio.
A voz dele, profunda e aveludada, preencheu o escritório antes mesmo que ele se movesse. Era uma voz segura, carregada da certeza absoluta de quem sabia que ela não teria outra escolha a não ser procurá-lo.
Helena não recuou. Ela não podia se dar ao luxo de parecer fraca.
— Eu não tinha outra opção e você sabe disso.
Rafael se virou lentamente. Quando os olhos escuros e intensos dele encontraram os dela, o mundo de Helena oscilou. Todas as memórias, cada toque e cada palavra cruel voltaram sem aviso, sem controle.
— Sempre dramática, Helena — disse ele, um sorriso mínimo e frio curvando seus lábios. O tipo de sorriso que nunca chegava aos olhos. — Continua a mesma.
— E você continua o mesmo arrogante de sempre — ela rebateu, sustentando o olhar.
Os olhos dele brilharam com algo perigoso. Ele começou a caminhar em direção a ela. Passos lentos, calculados, como um predador que saboreia o momento antes do ataque. Ele parou perto demais. O perfume dele — uma mistura de sândalo e algo puramente Rafael — invadiu os sentidos de Helena, bagunçando suas defesas.
— Ainda acha que tem forças para me enfrentar? — ele perguntou, a voz caindo para um tom quase íntimo.
Helena ergueu o queixo, recusando-se a dar um passo atrás.
— Eu não vim aqui por você, Rafael.
— Não? — Ele inclinou a cabeça, analisando-a como se ela fosse um enigma interessante. — Veio por quê, então?
Ela levantou a pasta entre eles, criando uma barreira física.
— Negócios. Vim aqui para salvar o que restou da minha empresa. Vim pelo contrato.
Rafael soltou um riso curto e sem humor, um som que fez os pelos dos braços de Helena se arrepiarem.
— Interessante. Você, vindo até mim pedindo ajuda... depois de tudo o que aconteceu.
O sangue de Helena ferveu.
— Eu não vim aqui para revisitar o passado. O passado está morto.
— Está mesmo? — Ele deu mais um passo, diminuindo a distância até que ela pudesse sentir o calor emanando do corpo dele. — Porque ele parece bem vivo nos seus olhos agora.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma eletricidade estática que ameaçava explodir a qualquer momento. Helena não respondeu porque ele estava certo, e a verdade era a coisa que mais a irritava.
Rafael cruzou os braços, subitamente voltando a uma postura de negócios, completamente à vontade em seu domínio.
— Então vamos direto ao ponto — disse ele, a frieza retornando.
— Por favor.
Ele a observou por longos segundos, como se estivesse jogando uma partida de xadrez mental onde ele já previra todos os movimentos dela.
— Eu aceito o acordo. Vou injetar o capital necessário e salvar sua empresa.
O coração de Helena deu um salto. Alívio e náusea lutaram dentro dela. Mas antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele continuou:
— Mas com uma condição inegociável.
Helena estreitou os olhos, a desconfiança imediata.
— Qual?
O sorriso de Rafael desta vez foi lento e predatório. O golpe final.
— Você se casa comigo.
O mundo pareceu parar. O som do tráfego lá fora desapareceu e o ar sumiu dos pulmões de Helena. Ela piscou, atordoada, esperando que fosse uma piada de péssimo gosto.
— O quê? Você enlouqueceu?
Rafael não desviou o olhar nem por um milésimo de segundo. Sua expressão era de pedra.
— Você me ouviu bem, Helena. Se quer o meu dinheiro e o meu nome para salvar o seu legado, terá que aceitar o meu contrato de casamento.
O ar no escritório ficou pesado, impossível de respirar. E, pela primeira vez desde que entrou naquele prédio, Helena sentiu o peso real da corrente que acabara de colocar em seu próprio pescoço. Ela viera para salvar seu futuro, mas percebeu, com um terror crescente, que acabara de se entregar de volta ao homem que mais odiava no mundo.