A torre dos corvos

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Summary

Algumas cartas não deveriam ser abertas. Algumas ilhas não deveriam ser visitadas. E alguns festins — por mais suntuosos que pareçam — nunca foram feitos para terminar bem. Andreas Ravel recebeu um convite perfumado numa manhã comum. Era carmesim, rendado, e carregava versos que não soavam como cortesia — soavam como profecia. Ele foi assim mesmo. Todos foram. O que os aguardava do outro lado do mar não era exatamente um baile. Era um espelho. E nele, cada convidado veria refletido não o que é — mas o que o destino sempre soube que seria. Dizem que a Torre dos Corvos guarda uma lenda muito antiga. Dizem também que lendas têm memória longa. E paciência infinita.

Status
Ongoing
Chapters
5
Rating
n/a
Age Rating
16+

Chapter 1-Destino


Parte um: “ Quando o céu se veste de carmesim, não é o sol que nasce — é o destino.”


1

Já amanhecia quando a fatídica carta cruzou o pequeno jardim ressequido da pensão que eu alugava na rua Mont Blanc, vindo a ser entregue em minhas mãos apenas na hora do desjejum.

A senhorita Montserrat adentrou ao meu aposento a passadas largas, e de forma displicente serviu a bandeja de chá com torradas francesas enquanto eu olhava os classificados de um jornaleco da semana anterior.

MontSerrat era uma beldade catalã que não tivera sorte e acabou por fugir da casa de seus pais antes da maioridade para tornar-se atriz, ou pelo menos foi o que ela contou durante uma de nossas muitas noites de ébrio divertimento em casa de Gascão, outro de meus fieis asseclas.

Sophie Cortés de Montserrat me encantava com seus imponentes 1,70 de altura, as ancas férteis como se as fossem da própria Démeter bamboleavam para aqui e para lá distraindo minha atenção do ofício urgente, fato que a divertia em demasia.

Eu contudo não passava sem vingar-me, não permitindo que a mesma cumprisse seus rituais de etiqueta, os quais lhe eram de certa forma sagrados. Mas tal comportamento vindo de minha parte acabou por acarretar uma consequência inesperada: tornei-a errática, pelo menos para comigo, deixava o profissionalismo de lado ao adentrar meu quarto e ali era quase minha esposa, ou mesmo minha amante.

— Foste descoberto! — disse atirando a carta envelopada em papel vermelho e aveludado por sobre meu peito com certo desdém, sua voz trazia um certo ar de escarninho.

— Mas que moça encantadora! De quem seria a carta? Você a abriu? — respondi contendo uma leve irritação que me invadiu momentaneamente.


Sophie virou-se de lado, cruzando os braços sobre o avental impecável, e lançou um olhar de soslaio ao jornal em minhas mãos.


— Impressionante como ainda há quem se dê ao trabalho de folhear essas múmias de papel. — sorriu sarcástica . — Mas suponho que certas tradições morram tão lentamente quanto certas paixões.

Eu olhei-a debaixo ainda incrédulo com tamanha audácia.

— Acho que acabei dando-lhe liberdade demais, estou certo de que corrigi-la-ei no tempo certo.

Ela endireitou a cabeça que jazia oblíqua, enquanto me lançava um olhar de desafio, tal olhar era para mim delicioso vindo dela, de tal forma que me arrancou um riso sincero.

Ao tomar da carta em mãos pude sentir a textura macia do papel rendado e adornado, o envelope miúdo levemente estufado pelo conteúdo dava-lhe um certo erotismo.

— Está até perfumado! — disse eu a Sophie se conter minha surpresa, ao que ela revirou os olhos.

— Não vais lê-la?

— Acho que não estou no clima para leituras… — meu tom jocoso acabou por me denunciar, ao que ela acabou por tomar o envelope e ao abrir leu-o de soslaio antes de efetivamente interpretar o conteúdo com mais atenção. Por fim ela olhou-me com incontida surpresa antes de ler os trechos mais mais importantes em voz altiva, na qual o sotaque estrangeiro voltara a aparecer por um breve momento.

— Foste convidado para um baile!—Disse com um misto de espanto e incredulidade que ficava encantador em sua voz.

— Catapimbas!— respondi debochadamente— Deixe-me ver!

Eu estendi-lhe a mão para que me entregasse a carta, ela contudo prosseguiu a ler, agora com voz altiva como se tentasse me inteirar de algum absurdo cometido ou mesmo um engano redondamente perpetrado, ou qualquer coisa do gênero.

“É com muita honra e altivez que dirijo-me por meio desta ao excelentíssimo e estimado senhor Andreas Ravel para solicitar a vossa prestimosa companhia ao nosso festival dionisíaco em honra ao festim nupcial do príncipe regente de Voronetz…”

Retirei bruscamente a carta das mãos de Sophie e com certa irritação, e até, verdade seja dita, indignação.

Pus-me a reinterpretar o seu conteúdo que era muito mais suavizado e lírico do que os olhos práticos de minha dama catalã o fizeram parecer.

Estava tudo ali! Todo o contexto da cena, os juizes, jurados e executores, e ao fim do texto, repentinamente a carta assume um tom totalmente diferente do coloquial com o qual fora empregada a contenda.

“ Quando voares trajado nas cores de vitima e vilão, através do arco luminoso, pousarte-ei em ombros ébrios de forma que possas sussurrar as mais altivas crônicas com as quais enriquecerá nossa humilde reunião…”

Levantei-me e desatei a andar pelo quarto franzindo o cenho e meditando a respeito do que de fato significava aquilo, esqueci-me de Sophie que esperava com impaciência meu desjejum acabar para retirar os talheres, mas creio que na verdade ela estava mesmo curiosa e afoita q tal ponto que não deixaria meu aposento sem uma explicação que em sua mente eu devia a ela.

— Parece que comparecerei a um baile não é mesmo? — disse me aproximando e mirando um beijo em sua bochecha, mas ela inclinou-se contrariada e ao corrigir a trajetória acabei de beijar muito próximo a sua boca, sendo que pelo menos de soslaio creio que nossos lábios se encontraram ligeiramente nos cantos.

Joguei de canto a carta e saí para a rua com mais duvidas pairando sobre minhas ideias do que certezas arregimentadas em meus porões.