Um novo mundo
Ele não sabe quando ou como,mas um gosto metálico invadiu-o na boca dele quando abriu os olhos.A primeira coisa que viu foi o teto de madeira escura acima de sua cabeça, iluminado por uma luz fraca de velas. Tudo girava devagar, como se o mundo inteiro estivesse balançando junto com ele. O corpo doía. Não… não era exatamente dor. Era uma sensação estranha, pesada, como se estivesse usando músculos que não eram seus.
— Abraham…? — uma voz masculina chamou, baixa, incrédula. — Pelo amor de Deus… ele acordou.
O nome ecoou na cabeça dele como um sino,levando um tempo para completar o pensamento .
– Abraham? –
Seu coração disparou na mesma hora.Ele tentou se levantar rápido demais e quase caiu da cama estreita. Mãos fortes o seguraram antes disso. Um homem alto, de barba curta e expressão cansada o encarava como se tivesse visto um fantasma.
— Você quase morreu, seu idiota — disse outro homem mais ao fundo. — Achamos que o conde tinha arrancado seu coração.
– Quem? –
O quarto parecia diminuir lentamente ao redor dele.
Não, não, não.
Aquilo era impossível.
Os olhos dele correram pelo lugar desesperadamente. As roupas antigas,as armas espalhadas sobre a mesa. Frascos de prata, crucifixos, estacas… e então viu, jogado sobre uma cadeira, o casaco vermelho longo com detalhes brancos que ele conhecia perfeitamente pela capa do livro.
– O livro...–
O maldito livro estranho que tinha encontrado semanas atrás numa estante esquecida do sebo.
– Drácula...–
Não o Drácula famoso,era um livro velho, sem editora, sem autor, cheio de páginas amareladas e frases estranhas escritas nas bordas. Ele lembrava de ter lido até tarde da noite… lembrava da exaustão… e depois..Escuridão.
Só isso.
E agora…
Agora estava ali.
Dentro do livro.
Dentro do corpo do protagonista.
Abraham Van Hellsing.
— Ei — o homem ao lado dele chamou outra vez, franzindo a testa. — Você bateu a cabeça mais forte do que pensamos?
Ele percebeu tarde demais que estava encarando o vazio havia tempo demais.
— Não… eu só… — a voz saiu diferente, fazendo-o engolir em seco imediatamente.As mãos deslizaram discretamente até o próprio rosto,sentindo a pele lisa.O corpo também parecia leve, forte… absurdamente saudável.
Aquele Abraham não era velho como o Van Helsing das histórias que ele conhecia.
– Meu Deus… eu realmente virei ele.– Ele pensou.
— Você nos assustou — murmurou outro companheiro, visivelmente aliviado. — Ficou desacordado por quase dois dias.
Ele não fazia ideia do que responder.
Na verdade, ele não fazia ideia de absolutamente nada.
Porque apesar de ter lido boa parte do livro… ele nunca terminou a história.
E pior ainda…
Ele mal lembrava dos nomes dos personagens secundários.
— Então… qual é o plano agora, Abraham? — perguntou alguém perto da janela.
Todos estavam olhando para ele esperando respostas.Por dentro, o caos era absoluto.
Plano? Que plano?! Eu nem sei onde estamos! Eu nem sei em que parte da história isso aconteceu!
Mas por fora, ele apenas respirou fundo, tentando parecer inteligente.
— Primeiro… — começou lentamente, comprando tempo enquanto o cérebro gritava em desespero. — Precisamos entender os movimentos do conde antes de agir novamente.
Os homens trocaram olhares.
Então um deles assentiu devagar.
— É… isso parece algo que você diria.
Ele quase desmaiou de alívio.
Funcionou.
— Descansa por hoje — falou o homem barbudo. — Você ainda está ferido.
Ele olhou para baixo discretamente, percebendo as faixas enroladas em seu torso por baixo da camisa parcialmente aberta.
Então aquilo era real mesmo.
Enquanto os outros voltavam a conversar entre si, ele ficou em silêncio, ouvindo nomes, lugares e informações passarem voando pela cabeça como tiros impossíveis de acompanhar.
Mas uma única coisa conseguiu fazer seu estômago gelar completamente.
— Se Drácula descobrir que Abraham sobreviveu… ele vai terminar o trabalho pessoalmente.
O quarto inteiro ficou pesado depois daquela frase.
E ele também ficou imóvel.
Porque diferente daqueles homens…
Ele sabia exatamente quem era Drácula naquele livro.
E sabia também que aquele não era um monstro qualquer.
Era cruel.
Inteligente.
E absurdamente perigoso.
Ótimo… pensou, encarando a chama trêmula das velas.
Eu caí dentro de um livro amaldiçoado… no corpo do protagonista… e ainda tenho que enfrentar Drácula.
(Autor:desculpa pelo capítulo curto,pessoal,primeira vez nesse aplicativo, então não sei como as coisas funcionam aqui,qualquer coisa,me avisem.)