O Último Rodeio Capítulo 1 — Terra Molhada
O céu estava escuro quando cheguei no rodeio.
As luzes coloridas piscavam no meio da poeira, as músicas sertanejas estouravam nas caixas de som e todo mundo parecia feliz demais pra uma sexta-feira comum no interior.
Eu odiava aquele lugar.
Ou pelo menos tentava odiar.
— Valentina! — Bianca gritou, segurando meu braço. — Anda logo antes que fique lotado!
Forcei um sorriso.
A verdade é que eu não queria estar ali.
Não naquele rodeio.
Não naquela cidade.
E principalmente… não perto dele.
Fazia quase um ano desde a última vez que vi Noah Carvalho.
Um ano desde a última briga.
Um ano desde a última mensagem apagada.
Um ano tentando convencer meu coração de que superar alguém era fácil.
Spoiler:
não era.
O cheiro de terra molhada subia do chão depois da chuva fraca que tinha caído mais cedo. As pessoas passavam usando bota, chapéu e fivelas enormes brilhando sob as luzes.
Tudo parecia exatamente igual.
Menos eu.
— Você tá estranha — Bianca comentou.
— Tô normal.
— Mentira. Você tá com a mesma cara do dia que terminou com o Noah.
Meu coração travou por meio segundo.
— Para de falar dele.
— Então para de agir como se ainda amasse ele.
Antes que eu respondesse, ouvi o ronco de uma caminhonete entrando perto da arena.
E droga.
Eu reconheceria aquele som em qualquer lugar.
As pessoas começaram a olhar.
Algumas meninas arrumaram o cabelo.
Outras cochicharam.
E quando levantei os olhos…
lá estava ele.
Jaqueta jeans escura.
Chapéu preto.
O mesmo olhar frio de sempre.
Noah Carvalho.
Ele saiu da caminhonete como se nunca tivesse destruído meu coração.
Meu corpo inteiro travou.
Era ridículo.
Depois de tudo, depois de tantas noites chorando e jurando que tinha superado, bastava ele aparecer pra meu coração agir como se ainda fosse dele.
Noah fechou a porta da caminhonete devagar, olhando ao redor como se procurasse alguém.
Ou procurando por mim.
Engoli seco.
— Meu Deus… — Bianca sussurrou. — Ele continua bonito pra caramba.
Bonito.
Aquilo era pouco.
Noah tinha aquele tipo de beleza que irritava. Daquelas que faziam as pessoas perdoarem erros só porque ele sabia sorrir de canto.
Só que eu conhecia o outro lado dele.
O lado que quebrava promessas.
O lado que desaparecia sem explicar nada.
O lado que me fez passar noites encarando o teto e me perguntando por que eu não fui suficiente.
Ele começou a andar em direção à arena enquanto algumas pessoas cumprimentavam ele pelo caminho.
E então aconteceu.
Os olhos dele encontraram os meus.
Droga.
O mundo inteiro pareceu diminuir.
As vozes ficaram distantes.
A música sumiu.
Tudo desapareceu.
Só existia aquele olhar.
Frio.
Pesado.
Perigoso.
Como se um ano não tivesse sido suficiente pra apagar o que existia entre nós.
Bianca segurou meu braço.
— Valentina…
Mas eu não conseguia responder.
Porque Noah ainda estava me olhando.
E pior:
ele parecia tão destruído quanto eu.
Por um segundo, achei que ele fosse vir até mim.
Meu coração disparou tão forte que chegou a doer.
Só que então uma garota apareceu do lado dele, segurando o braço dele e sorrindo.
Uma morena bonita.
Alta.
Daquelas meninas que parecem nascer perfeitas.
E ali…
bem na minha frente…
Noah desviou os olhos de mim.
Como se eu fosse apenas mais uma pessoa naquela multidão.
Senti alguma coisa quebrar dentro de mim.
De novo.
Engraçado como Noah sempre conseguia fazer isso sem nem precisar abrir a boca.
Desviei o olhar rápido demais, fingindo que aquilo não tinha me atingido. Mas atingiu.
Muito.
— Vamos embora daqui — falei baixo.
Bianca me encarou surpresa.
— O quê? Agora?
Assenti.
Porque eu sabia que se continuasse ali por mais cinco minutos, acabaria fazendo alguma coisa idiota.
Como chorar.
Ou correr até ele.
E eu prometi pra mim mesma que nunca mais faria nenhuma das duas coisas.
Começamos a andar no meio da multidão enquanto a música aumentava ainda mais. Meu coração batia tão forte que parecia acompanhar o som da bateria.
Só que antes de conseguir sair dali…
ouvi aquela voz.
— Valentina.
Meu nome na boca dele ainda tinha o mesmo efeito.
Fechei os olhos por um segundo.
Não.
Não olha pra trás.
Não faz isso de novo.
Mas eu fiz.
Noah estava parado alguns passos atrás de mim, com as mãos no bolso da jaqueta e aquele olhar impossível de entender.
A garota morena já não estava mais do lado dele.
Só nós dois.
Como costumava ser.
— Oi — ele falou rouco.
Foi só uma palavra.
Uma palavra simples.
Mas foi suficiente pra trazer de volta:
as ligações de madrugada,
os beijos escondidos,
as promessas,
as brigas,
as mensagens apagadas,
e todas as vezes que ele disse que nunca iria embora.
Mentiroso.
Engoli seco, tentando parecer forte.
— Achei que você tivesse me esquecido.
Ele abaixou o olhar por um segundo e soltou uma risada fraca, sem humor nenhum.
— Eu tentei.
Droga.
Droga.
Droga.
Meu coração odiava o jeito que aquelas palavras ainda mexiam comigo.
O silêncio entre nós ficou pesado.
A arena explodiu em gritos quando o rodeio começou, mas eu mal conseguia ouvir.
Porque Noah continuava me olhando daquele jeito.
Como se também estivesse preso no passado.
— Você tá feliz? — perguntei antes de conseguir pensar.
Ele franziu levemente a testa.
— Por quê?
Olhei na direção onde a garota estava antes.
— Você parece bem sem mim.
Por alguns segundos, Noah não respondeu.
E então ele deu um passo na minha direção.
Só um.
Mas foi suficiente pra acabar comigo.
— Você realmente acredita nisso, Valentina?
Minha respiração falhou.
Porque não.
No fundo, eu não acreditava.
E talvez esse fosse o problema.
Talvez a pior parte de amar Noah Carvalho…
fosse saber que ele ainda me amava também.
O vento frio passou entre nós, levantando a poeira do chão enquanto a música sertaneja ecoava pela arena.
Mas naquele momento, nada mais importava.
Só Noah.
Só aquele olhar.
Ele passou a mão pelos cabelos devagar, como fazia sempre que estava nervoso. E eu odiava o fato de ainda reparar nessas coisas.
— Você sumiu — falei baixo. — Nem tentou voltar.
Noah respirou fundo antes de responder.
— Porque você pediu pra eu ir embora naquela noite.
As lembranças vieram como um soco.
A chuva.
A discussão.
Eu chorando.
Ele indo embora sem olhar pra trás.
Achei que esqueceria aquilo algum dia.
Não esqueci.
— Você podia ter ficado — murmurei.
Ele me encarou em silêncio.
E pela primeira vez naquela noite, o Noah frio desapareceu.
O garoto na minha frente parecia cansado.
Quebrado.
Arrependido.
— Se eu tivesse ficado… — ele começou rouco. — eu teria implorado pra você não desistir da gente.
Meu coração apertou tão forte que chegou a doer.
Porque eu lembrava.
Lembrava do jeito que ele me olhava.
Do jeito que segurava minha mão.
Do jeito que me fazia acreditar que talvez o amor pudesse durar.
Mas não durou.
A gente destruiu tudo.
Os gritos da arena ficaram mais altos quando o peão venceu a montaria, e por um segundo, olhei ao redor.
Todo mundo continuava vivendo normalmente.
Enquanto meu mundo parava de novo.
Noah deu mais um passo na minha direção.
Tão perto que consegui sentir o perfume dele.
O mesmo perfume.
Droga.
— Eu pensei em você todos os dias — ele confessou baixo.
Fechei os olhos.
Aquilo era injusto.
Depois de um ano…
Depois de toda dor…
Depois de finalmente aprender a sobreviver sem ele…
Noah aparecia dizendo exatamente as palavras que eu sempre quis ouvir.
Abri os olhos devagar.
— Tarde demais.
Vi a dor atravessar o olhar dele.
Mas dessa vez, eu precisava escolher a mim mesma.
Mesmo amando ele.
Mesmo querendo correr pros braços dele.
Mesmo sabendo que uma parte minha sempre seria dele.
Dei um passo pra trás.
Depois outro.
Noah não tentou me impedir.
Talvez porque finalmente tivesse entendido.
Algumas histórias de amor não terminam porque o sentimento acaba.
Terminham porque duas pessoas machucadas não conseguem salvar uma à outra.
Segurei as lágrimas enquanto me virava.
E antes de ir embora, ouvi a voz dele pela última vez naquela noite.
— Eu nunca deixei de te amar, Valentina.
Meu coração quase me fez voltar.
Quase.
Mas continuei andando.
Porque às vezes…
o último rodeio também precisa ser o último adeus.
Fim.