Capítulo 1: O Retorno à Neblina (Continuação)
O coração de Maya batia tão forte que ela podia ouvi-lo ressoar em seus ouvidos, competindo com o tamborilar da chuva. Ela travou as portas do carro, as mãos suando sobre o volante. *O que foi aquilo?* Ela se perguntou, a respiração curta. Aquela freira... não parecia humana. O jeito como ela se moveu, a precisão ao partir o terço... era como se ela estivesse cumprindo um ritual.
Maya forçou o carro a dar a partida. O motor engasgou, protestou, mas finalmente rugiu, permitindo que ela fugisse dali o mais rápido possível. Ela não olhou para trás, mas a imagem daquela faixa preta cobrindo os olhos da mulher ficou gravada em sua mente como um pesadelo vívido.
Vinte minutos depois, ela estacionava em frente à Pousada das Brumas. O letreiro de neon piscava, falhando, dando ao lugar um aspecto ainda mais decadente. Ao entrar, ela foi recebida pelo calor de uma lareira e pelo cheiro reconfortante de café fresco.
— Menina, você está pálida como um fantasma! — exclamou Bibi, a dona da pousada, ajustando seus óculos de aro grosso enquanto limpava o balcão. — O tempo na estrada deve ter sido um horror, não?
Maya tentou sorrir, mas seus lábios tremiam.
— Eu... eu acho que vi algo na estrada, Bibi. Perto da capela velha. Uma freira.
Bibi parou o que estava fazendo, o sorriso desaparecendo. Ela trocou um olhar rápido com o quadro de santos na parede.
— A Capela de Santa Fé está fechada há anos, querida. Ninguém pisa lá. Talvez tenha sido apenas o cansaço... ou a névoa pregando peças na sua cabeça.
Maya não respondeu. Ela subiu para o quarto, mas antes que pudesse trancar a porta, ouviu o som de sirenes cortando a noite silenciosa da cidade. O som vinha exatamente da direção da capela.
Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, o policial **Calebe** chegava ao local do crime. Ele mal tinha terminado seu turno, mas o chamado de urgência o obrigou a voltar. Ao entrar na capela, a luz de sua lanterna varreu o altar. Ele viu o corpo do Padre Tomás caído sobre o mármore frio. E, ao lado da mão do padre, algo que fez o estômago de Calebe revirar: um terço partido, com as contas espalhadas como gotas de sangue negro.
Ele sabia que a paz em Vila das Brumas tinha acabado. Ele só não sabia que a mulher por quem ele sempre foi apaixonado — Maya — estava bem perto de se tornar o alvo principal daquela loucura.