O acordo
Eu nunca pensei que pisaria naquele lugar de novo.
O prédio era o mesmo.
Frio. Luxuoso. Intimidante.
E ele ainda estava lá.
No topo.
Respirei fundo antes de entrar.
- Você consegue - sussurrei pra mim mesma.
Mentira.
Eu não conseguia.
Mas eu precisava.
O elevador parecia mais lento do que nunca.
Cada andar que subia... meu coração apertava mais.
Até que parou.
Último andar.
As portas se abriram.
E lá estava ele.
Encostado na mesa, como se já soubesse que eu viria.
Como se estivesse me esperando.
- Demorou - a voz dele saiu calma... quase divertida.
Meu estômago revirou.
- Eu não vim aqui pra conversar.
Ele sorriu de lado.
Aquele sorriso irritante.
Perigoso.
- Eu sei exatamente por que você veio.
Fiquei em silêncio.
Eu não queria dar esse gostinho pra ele.
Mas ele continuou:
- Você precisa de mim.
Aquilo doeu mais do que deveria.
- Não - respondi, firme. - Eu preciso do que você tem.
Ele se aproximou devagar.
Cada passo dele parecia calculado.
Controlado.
Como sempre foi.
- E qual a diferença?
Ele parou na minha frente.
Perto demais.
- A diferença - falei, encarando ele - é que eu não confio em você.
Ele riu baixo.
- Inteligente.
Silêncio.
Tenso.
Pesado.
Até que ele falou:
- Então vamos facilitar.
Ele virou e pegou um papel na mesa.
Colocou na minha frente.
- Um contrato.
Meu coração acelerou.
- Você consegue o que quer... - ele disse - e, em troca, você faz exatamente o que eu mandar.
Engoli seco.
- E se eu recusar?
Ele chegou mais perto.
Mais uma vez.
- Você não vai.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Porque ele estava certo.
Eu não tinha escolha.
Olhei pro papel.
Depois pra ele.
E foi aí que eu cometi outro erro.
- Quais são as regras?
O sorriso dele cresceu.
Sombrio.
Satisfeito.
- Só uma.
Ele inclinou o rosto, perto do meu ouvido.
E sussurrou:
- Você não pode se apaixonar por mim.
Meu coração falhou.
Porque, no fundo...
eu sabia.
Eu já estava em perigo.