Prólogo
Existem três coisas que todo reino teme, a primeira é a guerra, a segunda é a fome e a terceira é o nascimento de algo que nem os deuses conseguem controlar.
Nhar’Vel conhecia as três, meu reino existia entre mundos, entre luz e caos, paz e violência, uma terra construída sobre equilíbrio.
E ele me cobrou um preço muito alto. Quando eu era criança, acreditava que monstros surgiam gritando com presas, sangue nas mãos, olhos vazios.
Eu estava errada, as vezes eles chegam sorrindo, usando coroa, ludibriando com promessas vazias e sem verdade alguma.
Às vezes observam você como se já soubessem exatamente no que irá se transformar, ainda lembro do cheiro daquela noite, cinzas, madeira queimando.
O céu inteiro tingido de vermelho enquanto pessoas corriam tentando salvar algo que já estava condenado.
Alguns dizem que fui a única sobrevivente de Nhar’Vel.
Mentira, as sombras sobreviveram comigo, elas me seguiram pelas madrugadas, pelos corredores silenciosos dos templos, os treinamentos incansaveis, os pesadelos.
Principalmente pelos pesadelos.
Porque todas as noites o fogo me encontra, e ele sempre vem acompanhado daqueles olhos.
Olhos que queimam no escuro como uma promessa, como uma maldição.
— Sua alma me pertence.
Eu deveria sentir medo, talvez sentisse, o pior tenha sido perceber que parte de mim queria descobrir o que aconteceria se eu parasse de fugir, mas isso foi antes, antes do torneio, das guerra.
Antes dos homens que mudariam minha vida de formas completamente diferentes, um deles carregava fogo nas mãos. O outro gelo no coração.
E eu? Eu carregava vingança.
Meu nome é Noctra Vaelith.
Última herdeira e legitima de Nhar’Vel.
E esta não é uma história sobre salvar o mundo, é sobre o que acontece quando alguém quebrado demais decide sobreviver mesmo assim.