Através do espelho

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Summary

Amélia Bennett passou anos pesquisando a misteriosa tragédia da família Ashford, uma história cercada por rumores, segredos e uma mulher desconhecida que desapareceu dos registros sem deixar rastros. Durante uma tempestade, uma visita à antiga mansão da família muda tudo. Presa na Inglaterra vitoriana, Amélia se vê cercada pelos mesmos rostos que antes existiam apenas em retratos e livros. Enquanto tenta encontrar uma forma de voltar para casa, ela acaba envolvida em segredos perigosos, sentimentos proibidos… e uma tragédia que talvez já tenha começado. Porque a Mansão Ashford guarda muito mais do que fantasmas.

Status
Ongoing
Chapters
3
Rating
n/a
Age Rating
16+

Capitulo 01 - O Quarto da Ala Leste

Amélia Bennett odiava cafeterias modernas.

Não pelo café.O café era bom.

O problema eram as pessoas.

Ou, mais especificamente, o barulho constante delas.

Teclados.Notificações.Vídeos tocando sem fone.Gente tirando foto da comida antes de comer.

Tudo aquilo fazia sua cabeça latejar depois de meia hora.

Ainda assim, estava ali.

Sentada perto da janela enquanto encarava a tela do notebook com uma expressão de puro sofrimento acadêmico.

Do outro lado da mesa, Lívia tomou um gole exageradamente dramático do cappuccino.

— Você está olhando para esse parágrafo há dez minutos.

Amélia suspirou.

— Porque ele está horrível.

— Talvez porque ninguém mais no planeta ache normal escrever vinte páginas sobre aristocratas mortos.

— Historiadores literalmente fazem isso.

— Historiadores normais estudam guerras. Você está emocionalmente envolvida com uma família falida de 1863.

Amélia finalmente desviou os olhos do notebook.

— Eles não eram falidos em 1863.

— Ah, desculpe. Arruinados emocionalmente.

Um sorriso apareceu no canto da boca dela antes que pudesse evitar.

Lívia apontou imediatamente.

— Aí está. Você ainda sabe sorrir.

Amélia revirou os olhos e fechou o notebook devagar.

Lá fora, a chuva escorria pelos vidros da cafeteria enquanto Londres desaparecia num borrão cinza e iluminado.

Ela gostava de chuva.

Chuva fazia a cidade parecer mais antiga.

Mais silenciosa.

Menos… agora.

— Você precisa sair mais — Lívia continuou. — Conhecer pessoas vivas.

— Pessoas vivas são cansativas.

— E pessoas mortas são mais interessantes?

Amélia apoiou o queixo na mão.

— Mortos não fingem ser algo que não são.

Lívia ficou em silêncio por um segundo.

— Ok. Isso foi estranhamente profundo para alguém usando um casaco que parece roubado de um romance vitoriano.

Amélia olhou para o próprio reflexo no vidro da janela.

Casaco escuro.Botas antigas.Brincos discretos.O cabelo castanho preso de qualquer jeito porque havia passado a tarde inteira na universidade.

Ela realmente parecia deslocada naquele século.

Não de forma exagerada.Só… incompatível.

Enquanto todo mundo parecia correr o tempo inteiro, Amélia gostava de coisas lentas:

cartas escritas à mão;

bibliotecas silenciosas;

cheiro de livros antigos;

música clássica;

objetos carregados de história.

Talvez por isso tivesse se apaixonado pela família Ashford tão rápido.

Ou pelo mistério deles.

— Você vai ao museu hoje, não vai? — Lívia perguntou.

Amélia tentou parecer inocente.

Falhou miseravelmente.

— Talvez.

— Amélia…

— Eles finalmente abriram a ala leste para catalogação.

— E isso significa?

— O quarto foi liberado.

Lívia fechou os olhos lentamente.

— Claro. O quarto.

Mesmo depois de meses ouvindo sobre aquilo, ela ainda falava do lugar como se estivesse amaldiçoado.

Talvez estivesse.

O antigo quarto da ala leste da Mansão Ashford permanecera fechado por mais de cem anos. Oficialmente, devido aos danos causados pelo incêndio de 1865.

Extraoficialmente?

Por causa da mulher sem nome.

A figura misteriosa que aparecia em dezenas de relatos ligados à tragédia da família.

Uma mulher desconhecida.Sem origem.Sem registros.Sem sobrenome.

Mas mencionada repetidamente nos diários dos Ashford.

Amélia puxou o celular rapidamente e abriu a fotografia de uma das cartas antigas.

“…desde a chegada da jovem desconhecida, esta casa tornou-se irreconhecível.”

Lívia leu a frase e apontou imediatamente.

— Isso. Isso é exatamente o tipo de coisa que faria uma pessoa normal ficar longe daquela mansão.

— E desde quando eu sou normal?

— Honestamente? Nunca.

As duas riram baixo.

Mas o sorriso de Amélia desapareceu devagar enquanto observava novamente a fotografia da carta.

A mulher desconhecida.

Algo naquela história a incomodava mais do que deveria.

Não era apenas curiosidade acadêmica.

Era pior.

Familiaridade.

Como se estivesse tentando lembrar de algo que nunca viveu.

— Você está fazendo aquela cara de novo — Lívia comentou.

— Que cara?

— A cara de quem vai ignorar completamente o próprio bem-estar emocional.

Amélia pegou a bolsa.

— Só vou passar algumas horas lá.

— Você disse isso da última vez e saiu às duas da manhã parecendo personagem de filme de terror.

— Dramática.

— Você literalmente me ligou perguntando se eu acreditava em fantasmas.

Amélia parou por um instante.

Porque tinha mesmo feito isso.

E odiava admitir que, naquela noite, por alguns segundos…também acreditou.


A Mansão Ashford parecia diferente durante tempestades.

Maior.Mais escura.Mais viva.

Os relâmpagos iluminavam rapidamente as enormes janelas do casarão enquanto Amélia estacionava próximo aos portões de ferro do museu.

Mesmo depois de tantas visitas, o lugar ainda causava nela a mesma sensação estranha no peito.

Como se estivesse voltando para algum lugar conhecido.

Ela pegou a autorização na bolsa e atravessou a entrada principal.

O segurança noturno ergueu os olhos do balcão.

— Doutora Bennett. Achei que ninguém viria com esse temporal.

— Nem os mortos descansam em paz nessa casa.

O homem riu.

— Nem você.

O interior da mansão estava silencioso.

O tipo de silêncio pesado que só lugares antigos possuem.

Amélia caminhou pelos corredores observando os retratos da família Ashford espalhados pelas paredes.

Homens elegantes.Mulheres impecáveis.Olhares frios preservados no tempo.

Então ela parou.

Thomas Ashford.

O retrato ocupava quase toda a parede ao final do corredor principal.

Último herdeiro direto da família.

Os registros históricos o descreviam como brilhante, reservado e intensamente racional.

Mas não era isso que incomodava Amélia.

Era o olhar.

Havia algo profundamente vivo nele.

Como se o pintor tivesse capturado um homem prestes a dizer alguma coisa.

Ridículo.

Ela desviou os olhos rapidamente e continuou andando até a ala leste.

O corredor estava parcialmente escuro naquela noite. Algumas luzes piscavam por causa da tempestade.

No final dele, a porta do antigo quarto permanecia entreaberta.

Esperando.

Amélia empurrou a madeira lentamente.

O quarto estava coberto por sombras suaves e cheiro de poeira antiga.

Móveis protegidos por lençóis claros.Cortinas pesadas.Objetos esquecidos pelo tempo.

E então ela viu o espelho.

Alto.Antigo.Moldura dourada escurecida pelos anos.

Parado no canto do quarto como se sempre tivesse pertencido apenas àquele lugar.

Amélia aproximou-se devagar.

O próprio reflexo pareceu estranho na superfície escura do vidro.

Cansado.Pálido.Quase deslocado.

Outro trovão sacudiu a mansão.

As luzes piscaram.

Uma vez.

Duas.

E apagaram completamente.

O quarto mergulhou na escuridão.

Amélia soltou uma respiração curta, pegando o celular para ligar a lanterna.

Mas antes que conseguisse…

O espelho brilhou.