Let it Happen.
O ar da casa de Lucy fede a orgasmo e cigarro barato, roupas espalhadas no piso da sala de estar e uma televisão de tubo velha com antena torta, a luz clara do dia derrama pelas janelas abertas, a cortina branca amassada balança com a brisa.
"Ei! Rainha do gelo! Acorda!"
Lucy estala os dedos perto do rosto de Evelyn deitada de costas no sofá marrom de couro rachado com a espuma amarela da abraçadeira exposta, os olhos castanhos dela perdidos no teto.
Ela pisca duas vezes, a cabeça inclinada parando na figura de Lucy - no cabelo ruivo, nos olhos acinzentados, na sardas e na pouca roupa que veste, no sutiã com a alça torta no ombro e a calcinha manchada de álcool.
"Tava em Júpiter, cacete?"
Lucy se senta ao lado de Evelyn ainda deitada, bufando baixo, tragando o cigarro aceso, a fumaça forma espirais no ar lentamente.
Evelyn se senta, só de roupão cinza.
"Desculpa."
O tom é sonolento, simulado.
Lucy resmunga.
"Hm."
A ruiva cruza as pernas, os ombros se curvando de repente.
"... desculpa, eu tô com cólica... não tô com paciência pra nada."
Evelyn murmura.
"Não precisa pedir desculpas."
Lucy vira para Evelyn, os olhos de repente baixos, ela engatinha, o cigarro esquecido no cinzeiro, abraçando a figura delicada de Evelyn, o rosto enterrando no pescoço pálido.
"Para de responder assim... eu me sinto ainda mais culpada..."
A mão pálida de Evelyn sobe, acariciando a nuca ruiva em um movimento mecânico, contrastando com o olhar plano agora.
"A cólica tá te deixando carente."
Lucy resmunga, um som quase infantil.
"Foda-se... eu não ligo..."
Um silêncio se estende acompanhada da respiração quase inaudível de Evelyn e a carícia repetitiva.
Evelyn murmura.
"Eu tenho que sair."
Lucy se agarra no roupão dela como uma criança segura a mãe.
"Pra onde?..."
"Ensaio fotográfico."
O tom de Evelyn não oscila
Lucy esconde o rosto no pescoço pálido, agora abraçando os ombros de Evelyn, que não demonstra reação.
"Me leva..."
"Você sabe que eu não posso."
Lucy suspira, os braços ficando frouxos.
"Fica só mais um pouco..."
Evelyn nem vira a cabeça.
"Eu não vou demorar."
Os braços de Evelyn separam Lucy abraçada em seu corpo, ela levanta, o roupão cinza roçando no carpete sujo.
Lucy encolhe no sofá, abraçando a almofada velha cheirando a suor e perfume feminino barato.
"Não demora..."
Evelyn fala sem se virar, já andando.
"Não vou."
Sua figura some no corredor que leva ao quarto.
O ar do bar "Cinco Ojos" cheira a madeira velha, tequila e suor masculino, lâmpadas incandescentes lançam um brilho alaranjado, as mesas forradas com um lençol vermelho-xadrez.
Não há música, apenas silêncio e copos tilintando com um som abafado.
Evelyn entra com passos medidos, usando roupas escuras e um boné desfiado na aba, inclinando levemente sobre o rosto inexpressivo, seus olhos castanhos varrem o ambiente.
Um homem grisalho de roupas havaianas debruçado na mesa com uma garrafa de tequila vazia e uma dupla de jovens de cabelos longos conversando algo sobre "vagina".
Evelyn fixa em uma mulher no balcão do barman - cabelo loiro, olhos verdes, vestindo um tailleur rosa-choque torto nos ombros e uma saia lápis preta amassada, os ombros curvados em uma posição tímida de derrota.
Ela se aproxima lentamente, a madeira velha range baixo sob a sola do tênis preto, se sentando a duas cadeiras de distância ao lado dela, cruzando os braços no balcão.
Evelyn vira a cabeça, esboça um sorriso que não chega nas orelhas.
"Triste?"
A mulher loira pisca como se saísse de um torpor.
"Ah... não... só... pensando demais."
Ela se inclina no banco, tentando manter os ombros mais retos.
"Você não parece o tipo de pessoa que vem pra esse tipo de lugar..."
Evelyn apoia o queixo na mão, o cotovelo apoiado na mesa, o sorriso permanece.
"Eu não venho mesmo."
Os olhos dela deslizam pro tailleur manchado.
"É empresária?"
A loira suspira alto, um som que nem tenta esconder.
"Eu era..."
Evelyn inclina a cabeça.
"O que aconteceu?"
A mulher se curva na cadeira.
"Eu era dona de uma franquia de fliperamas... mas não deu certo... na verdade, foi um fracasso..."
"Bom, você tentou, muitas pessoas nem tentam."
A mulher loira esfrega o rosto com as mãos.
"É... talvez você tenha razão..."
Os olhos verdes se encontram com os castanhos de Evelyn.
"Melhor perder do que não jogar... né?"
"É."
Evelyn se vira para o barman - um homem careca com pele enrugada e camiseta bege com os primeiros botões desabotoados - erguendo dois dedos.
"Duas tequilas, uma pra mim e pra Rapunzel bem alí."
Ele resmunga.
"Saindo."
A loira ri baixo, cobrindo a boca com a mão.
"Rapunzel?... meu cabelo não é tão grande..."
O barman arrasta dois copos pequenos, enche com um líquido âmbar de uma garrafa sem rótulo.
A loira pega seu próprio drinque, sente o frio da tequila, toma um gole curto, o líquido quente desce na garganta.
"A tequila deles é um lixo..."
Evelyn não envolve os dedos no copo, o sorriso permanece intacto.
"A tequila vai ficar magoada."
A mulher solta um riso baixo.
"Você até que é engraçada..."
Evelyn encosta no banco.
"Eu gosto de fazer as pessoas rirem."
A mulher bebe mais gole, mais longo, pousa o copinho na mesa.
"Qual o seu nome?..."
"Daisy Flower, fotógrafa."
As sobrancelhas da loira abrem.
"Daisy... que nome bonito."
"E o seu?"
A mulher coça a nuca.
"Paula... Paula Martínez..."
Evelyn ergue as sobrancelhas.
"Sobrenome latino? Que sexy."
A mulher cora levemente.
"Para... assim você me deixa sem graça..."
Evelyn ri baixo, um som neutro que tenta ser caloroso.
"Desculpa."
Ela levanta de repente, o banco range.
"Bom... já tá meio tarde."
A mulher levanta os olhos verdes, o sorriso diluí.
"Mas já?..."
"Sim, já são dez da noite."
"Ei..."
A mulher sussurra, um tom mais baixo.
"É meio bobo... mas... sei lá... que tal a gente sair? Eu posso te apresentar um dos meus fliperamas..."
Evelyn se vira para ela.
“Você quer?"
A loira pigarreia baixo.
“Sim... é... você é legal e tudo..."
Um silêncio segue entre elas, o tilintar de copos ficando mais alto, Evelyn esboça um sorriso mais amplo.
"Pode ser."
O cheiro do fliperama "STRIKE!" é de lítio das baterias velhas dos fliperamas abandonados e mofo impregnado nos cantos das paredes roxas, lençóis de plásticos cobrem as máquinas e os móveis, o piso branco laminado com uma camada fina de poeira.
Paula acende o interruptor, as lâmpadas néon roxas e azuis brilham lançando tons vibrantes e etéreos contrastando com o abandono do lugar, o silêncio preenchido com um zumbido alto.
Ela se vira para Evelyn, ajustando o colarinho do tailleur, um leve sorriso corado nos lábios.
"É... legal... né?'
Os olhos de Evelyn varrem cada centímetro quadrado do fliperama antes de desviar para Paula.
"Parecia um lugar divertido."
Paula suspira baixo, os ombros curvando.
"Era mesmo... eu era feliz e nem sabia..."
Ela se vira, ficando de costas para Evelyn.
"Meu pai era dono desse lugar... ele me levava aqui pra jogar... era tão bom..."
Atrás dela Evelyn calça as luvas látex azuis nas mãos pálidas, os olhos planos fixos na nuca loira, tirando uma seringa com um líquido translúcido do bolso da calça.
"... é o meu lugar favorito."
Evelyn murmura baixo.
"Imagino."
Paula de repente sente uma picada na jugular, os olhos arregalam.
Evelyn puxa o êmbolo, Paula sente algo frio correndo na corrente sanguínea, ela leva as mãos ao pescoço.
"...o—o que?"
Ela cambaleia, tombando de costas contra um dos fliperamas forrados em plástico, o som metálico ecoa como um trovão.
Evelyn observa com o rosto completamente inexpressivo, sem sorriso nenhum.
Paula arfa, os pulmões não trabalham.
"... o que...você fez?"
Evelyn se ajoelha deliberadamente, um sussurro baixo.
"Apenas deixe acontecer."
Os olhos verdes lacrimejam, lágrimas finas deslizam nas bochechas já pálidas de Paula.
"...por que?..."
Evelyn não responde.
Paula lentamente deixa de respirar, os olhos ainda abertos em uma expressão de medo eterno, o corpo afunda devagar, os braços tombando pros lados.
Evelyn não esboça reação, seu semblante é de puro vazio.
Ela se levanta, ajusta as luvas nas mãos, ignorando o cadáver como um móvel da sala.
Sua figura escura se move néon do fliperama para a porta vermelha de emergência ao lado dos banheiros.
Evelyn fecha a porta com um clique baixo, a sombra dela desaparece.