Seja uma boa menina

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Summary

Ela só queria recomeçar. Mas acabou presa num lugar onde segredos sobrevivem no silêncio. Ao chegar a um internato isolado, Antonieta acredita estar começando uma nova vida. Porém, entre regras sufocantes, ameaças veladas e o misterioso desaparecimento de uma antiga aluna, ela descobre que a vila guarda verdades que ninguém ousa enfrentar. Quando Casimiro surge no seu caminho — brilhante, enigmático e perigosamente difícil de decifrar — Antonieta é arrastada para uma teia de mentiras, manipulações e revelações capazes de mudar tudo. Agora, para descobrir a verdade, ela terá de arriscar muito mais do que o coração.

Genre
Romance
Author
Criativos
Status
Ongoing
Chapters
1
Rating
n/a
Age Rating
16+

Capítulo I

"Bem-vinda à Vila."

Numa pequena comunidade do posto administrativo da Missão Mocumbi, no distrito de Inharrime, vivia Antonieta.

Uma jovem cuja beleza celestial barralhava a visão do homem comum, deixando sempre algum embaraço por onde passava. Rapazes da sua idade, homens feitos e até alguns mais velhos pareciam perder o juízo quando ela aparecia. Mas não era apenas a beleza que chamava atenção. Antonieta também era conhecida pela sua doçura, educação e inocência, uma réplica da própria humildade em pessoa.

Desde muito nova, vários homens já haviam ido à casa do seu pai pedir a sua mão em casamento. O pai, Honesto, sempre recusava educadamente alegando que faltava na idade.

— A menina ainda está a crescer — respondia ele. — Ainda não é tempo.

Com o passar dos anos, porém, a situação foi durando.

Numa tarde quente de janeiro, Honesto discutia no quintal com o filho mais velho, Chinene, sobre o futuro da filha.

— Antonieta vai para Inharrime — dizia o pai, sentado num tronco à sombra de uma mangueira. — Lá ela pode fazer a décima primeira e décima segunda classes. Precisa tornar-se alguém.

Chinene abanou a cabeça irritado.

— Escola para quê? — perguntou, levantando a voz. — Para depois ela meter isso nas panelas como todas as outras?

Honesto suspirou.

— Não devo nada a ninguém para impedir a minha filha de estudar.

— O pai não está a ver direito — respondeu Chinene, já nervoso. — Essa daí devia ficar em casa a aprender a ser mulher. Não vamos sustentar alguém com mamas dentro desta casa só para ir brincar de escolinha.

— Tenha calma, meu filho — disse Honesto, tentando manter a serenidade. — Um dia ela vai casar, sim. Mas ainda tem tempo. O Mário já falou comigo… disse que a quer casar e olha que ele é um bom rapaz.

— casar? — Chinene riu com desprezo. — E o que nos vale um casamento com um servente do hospital? O Maguide trabalha na África do Sul. Esse sim tem futuro.

Sem esperar resposta, pegou na sua catana e afastou-se em direção às matas todo frustrado.

A noite caiu sutilmente.

No quintal, à luz do luar, a família jantava ao ar livre. Antonieta servia a comida enquanto o pai e os irmãos conversavam.

Foi então que um visitante apareceu assim do nada.

— Papá Honesto! — chamou uma voz.

Era Mário, um vizinho distante que trabalhava na vila de Inharrime.

— Entra, meu filho! — respondeu Honesto com alegria. — Venha juntar-se a nós.

Mário aproximou-se e sentou-se ao lado dele.

— Antonieta, minha filha — disse o pai — traga mais um vindirich (prato) para o senhor Mário.

— Já volto, papá.

Quando voltou, Mário já sorria para todos.

— Então — perguntou Honesto — que notícias traz?

Mário olhou para Antonieta e depois para o pai.

— Pode mandar a menina fazer as malas.

Honesto banhou se de dúvidas.

— Como assim?

— Consegui resolver tudo. Antonieta pode estudar em Inharrime.

O velho começou a rir de alegria.

— Falta-me palavras para agradecer!

Mário acenou com a mão, em sinais de não.

— Não precisa agradecer. Faço isso pelo nosso bem.

Virou-se para Antonieta.

— Então, menina… prepare-se. Segunda-feira vamos para a vila.

Antonieta sorriu timidamente.

— Está bem, mano Mário.

— Só vai ter de se comportar, ouviu?

— Vai se comportar, sim — respondeu o pai, orgulhoso. — Minha filha é direita.

Segunda-feira chegou depressa.

Antonieta acordou cedo, tomou banho e vestiu as suas melhores roupas. Antes de sair, abraçou o pai com força e despediu-se dos irmãos, sobrinhos e cunhadas.

Logo depois, Mário passou para levá-la.

A viagem até a vila de Inharrime não demorou muito, mas para Antonieta parecia uma travessia para outro mundo.

Quando chegaram, ela ficou completamente fascinada com o fascínio da vila..

Havia gente por todo lado. Bancas de mercado cheias de produtos, vendedores gritando ofertas, crianças correndo entre as ruas e, no centro, um pequeno jardim que parecia o lugar mais bonito que ela já tinha visto.

— Tanta gente… — murmurou Antonieta, de boca aberta. — Isto é o mais perto do paraíso que eu já vi.

Mário riu.

— Acostume-se. Agora esta também é o seu paraíso.

Apontou para diferentes direções enquanto caminhavam.

— Daquele lado fica o hospital onde trabalho. Mais adiante está a escola. E ao lado o internato onde você vai ficar.

Antonieta observava tudo como se estivesse sonhando.

Logo chegaram à escola.

Depois de deixarem as coisas no internato, Mário levou-a até os corredores das salas.

Ela parou diante de uma porta aberta. Vestia uma saia preta longa que quase tocava os calcanhares e uma camisa branca bem abotoada, ajustou a gravata, respirou fundo e bateu levemente.

— Com licença, professor…

O homem dentro da sala levantou os olhos.

Era o professor Malaia.

— Está atrasada — disse ele imparcialmente — Entre.

Antonieta entrou timidamente.

— E então, turma — disse o professor. — Temos uma nova colega. Apresente-se.

Ela ficou de pé diante de todos.

— O meu nome é Antonieta Honesto Nhamia. Nasci e cresci na pequena vila Missão Mocumbi… e vim para terminar o ensino aqui.

O professor observou-a por alguns segundos.

— Então, Antonieta de Mocumbi… quem vem de tão longe não vem para brincar, certo?

— Não, professor.

Ele assentiu.

— perfeito. Sente-se.

A aula seguiu normalmente até ao intervalo.

Os alunos começaram a sair da sala gradualmente, Antonieta ia fazendo o mesmo até ser chamada:

— Antonieta.

Ela voltou-se.

— Sim, professor?

— O ano lectivo começou há uma semana. Está atrasada em relação a minha agenda.

— Eu sei, professor. Vou pedir aos colegas para me enquadrarem.

Ele balançou a cabeça.

— Não é isso. Eu mesmo posso proporcionar tudo o que perdeu.

— agradecida, professor.

— Na minha casa. Depois das aulas.

Antonieta ficou confusa por um instante.

— Na casa do professor? - abrindo um sorriso nervoso.

— Sim. É algo normal por aqui.

Ela baixou os olhos.

— Desculpe, professor… o meu papa não permite que eu vá a casas de homens.

O professor aproximou-se um pouco.

— É a casa do seu professor. Se quiser passar de classe, vai ter de passar por lá.

E saiu da sala.

Antonieta voltou lentamente para a sua carteira, sem moral para sair.

Pouco depois, dois rapazes aproximaram-se dela.

— Colega de Mocumbi! — disse um deles, sorrindo.

Ela levantou os olhos.

— Bom dia…

— Eu sou Casimiro — disse ele. — E este aqui é Petirosse.

Petirosse acenou, meio baralhado.

— Não gosta de sair para o corredor no intervalo? — perguntou Casimiro.

— Na Missão eu fazia isso com as minhas amigas.

— Então venha connosco. Vamos mostrar a escola.

Antonieta hesitou, mas acabou sorrindo.

— Está bem.

Os três saíram para o corredor.

O sol do meio-dia iluminava o pátio da escola. Grupos de alunos conversavam por toda parte enquanto outros peranbulavam.

Enquanto caminhavam, Casimiro mostrou-lhe os lugares importantes da escola: as melhores casas de banho, a reprografia, o pátio e o refeitório.

— Então, colega de Mocumbi — perguntou ele — o que está a achando da vila?

Antonieta olhou à volta.

— É muito diferente… nunca vi tantas meninas na escola.

Casimiro caiu na gargalhada.

— Sério?

— Lá no Mocumbi quase todas vão abandonando cedo para engravidar ou lobolar.

— Então você é um caso raro — disse ele.

Enquanto conversavam, Antonieta levantou os olhos e viu alguém no outro lado do pátio.

Era o professor Malaia.

O sorriso dela desapareceu, sumiu, esvaziou, foi se.

Casimiro percebeu imediatamente.

— Não fique assustada — disse ele em voz baixa. — Eu vi como ele olha para você.

Antonieta virou-se.

— Como assim?

Petirosse arrumou coragem falondo pela primeira vez

— Ele já fez isso antes.

— Com quem?

— Com a Elisa — respondeu Casimiro.

— O que aconteceu com ela?

Os dois rapazes trocaram um olhar.

— Ninguém sabe aõ certo — disse Casimiro. — A quem alega que mudará de distrito…

Casimiro tentou sorrir.

— Não precisa ter medo. Se ele tentar alguma coisa, vai ter de lidar connosco.

Antonieta respirou fundo e olhou novamente para a escola, para os alunos e para a vila que ainda há poucas horas lhe parecera um paraíso.

Agora já não tinha tanta certeza.

Casimiro abriu os braços.

— De qualquer uma das formas… é o começo da sua grande aventura.

E sorriu.

— Bem-vinda à vila.