A Garota Da Outra Turma

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Summary

Caio sempre achou que conhecia todo mundo no Colégio Castelo Branco. Até a manhã em que ela apareceu. Beatriz Fontes chegou numa segunda-feira fria de agosto, sem avisar, sem se apresentar — e parou sozinha no pátio enquanto todo mundo seguia em frente. Cabelos pretos, olhar distante, uma mochila nas costas como se pudesse ir embora a qualquer momento.

Status
Ongoing
Chapters
20
Rating
n/a
Age Rating
16+

A Janela do Corredor

A Janela do Corredor

Eu nunca prestei muita atenção na janela do corredor do segundo andar até o dia em que ela apareceu do outro lado.

Era uma segunda-feira de agosto, daquelas frias de Curitiba que fazem você se arrepender de ter saído da cama. Eu estava encostado na parede esperando a professora de história abrir a sala, olhando pro nada, quando vi pela janela a figura de uma garota parada no pátio coberto lá em baixo.

Ela estava sozinha. Isso já era estranho por si só, porque o intervalo das dez e meia era o horário em que o pátio virava uma bagunça organizada de grupos: os da quadra, os do bandejão, os que ficavam na escada do ginásio. Ninguém ficava sozinho no pátio às dez e meia de uma segunda-feira.

Exceto ela.

Cabelos pretos, compridos, soltos apesar do frio. Mochila nas costas como se fosse sair caminhando a qualquer momento. Olhando para cima, não para nada em específico, como se estivesse contando janelas.

E então olhou exatamente para a janela onde eu estava.

Não pra mim. Pra janela. Mas por uma fração de segundo pareceu a mesma coisa.

— Caio. — A voz do Enzo veio do meu ombro. — A Bê abriu. Vamos.

Eu entrei na sala. Sentei no meu lugar. Abri o caderno de história.

E fiquei pensando na garota do pátio o resto do dia.

Meu nome é Caio Drummond, tenho dezasseis anos e sou do 2º B do Colégio Estadual Presidente Castelo Branco. Curitiba, interior do interior — não geograficamente, mas naquele sentido de escola onde todo mundo conhece todo mundo desde a quinta série e as novidades são raras o suficiente pra virar evento.

Por isso eu soube antes mesmo de qualquer anúncio oficial: a garota do pátio era nova.

Na hora do almoço, o Enzo já tinha a história toda, como sempre.

— Transferida de São Paulo. Entrou no 2º A. — Ele abriu a marmita com aquele ar de quem acabou de revelar segredo de estado. — Beatriz Fontes. Dizem que veio sozinha, sem os pais.

— Como assim, sozinha?

— Mora com uma tia aqui. Os pais ficaram lá. — Ele deu de ombros. — Negócio estranho.

Eu olhei pro meu prato de arroz com feijão e tentei não parecer mais interessado do que deveria.

— Biz, — disse a Ju, do outro lado da mesa, sem levantar os olhos do celular. — Todo mundo já tá falando dela.

— Que tipo de coisa? — eu perguntei.

A Ju me olhou com aquela sobrancelha levantada dela.

— Que ela é estranha.