Calamidade

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Summary

No passado, o mundo era governado por deuses de todas as naturezas. O destino parecia imutável: um herói surgiria para derrotá-los e libertar a humanidade do jugo divino. Porém, o destino falhou. Um homem, dado como morto, retornou portando um poder que superava o dos próprios deuses — algo jamais previsto. Incapaz de contê-lo, esse poder o corrompeu. O salvador tornou-se tirano. A maioria dos deuses foi exterminada. Os poucos sobreviventes foram reduzidos à escravidão. Assim, o mundo caiu sob o domínio absoluto daquele que deveria jamais existir. Incontáveis heróis, autoeleitos pela esperança ou pela arrogância, ergueram-se contra ele. Todos fracassaram. Agora, em um mundo moldado pelo medo e pela ruína dos deuses, mais um desafiante surge — não guiado por profecias, mas pela vontade de desafiar o impossível.

Status
Ongoing
Chapters
2
Rating
n/a
Age Rating
18+

Prológo

O homem permanecia sentado à beira da encosta, em silêncio, com o peso do próprio corpo apoiado sobre os joelhos.

A névoa fina se arrastava pelo solo, subindo como uma respiração antiga que jamais cessava.

Ele encarava o vazio à frente, enquanto os pensamentos vagavam muito além das rochas e ruínas ao redor.

Sob a terra, algo se moveu.

O som começou como um tremor sutil, quase ilusório, mas logo ganhou corpo. A vibração percorreu o chão, deslocando o pó acumulado nas frestas das pedras.

As cavernas sob o vale pareciam despertar, e os grandes túmulos ao longe deixavam escapar rugidos abafados, como se algo aprisionado ali há eras tentasse se mover outra vez.

O homem ergueu os olhos.

Colunas quebradas projetavam sombras alongadas, e das saliências mais altas o pó antigo se desprendia em nuvens lentas, dançando no ar como lembranças teimosas.

Observou a poeira cair e, mais uma vez, foi arrastado para um passado que já não conseguia alcançar.

As asas que outrora cruzavam aquele céu agora existiam apenas como fantasmas na memória. Eram enormes, poderosas, vibrantes.

Fazia tempo demais desde que se considerara um herói — tempo suficiente para que o título perdesse qualquer significado.

Para ele, no entanto, tudo parecia ter se passado em um único piscar de olhos.

Ergueu-se com dificuldade, sentindo o peso da própria existência. Fitou as ruínas ao redor: túmulos de pedra descomunais, templos partidos, altares consumidos pelas intempéries, marcas de batalhas que nem o vento fora capaz de apagar.

Tudo aquilo um dia fora obra sua.

A grandeza que acreditara inabalável agora não passava de restos. Fragmentos dispersos de algo que o mundo havia superado.

Questionou-se sobre quem, em sã consciência, o procuraria naquele lugar.

Quem ousaria trilhar o mesmo caminho, pisar no mesmo solo condenado?

Quem insistiria em continuar vivo em um mundo que parecia ter desistido de ser acolhedor?

A resposta era óbvia e, ainda assim, carregava um gosto amargo: nada os esperava.

Nada que valesse a pena.

Nada capaz de aliviar a crueldade que consumia tudo ao redor.

Ele fechou os olhos por um instante e deixou que o vento frio tocasse seu rosto, como se o mundo tentasse lembrá-lo de algo… mas a lembrança não vinha.

Apenas o silêncio dos túmulos.

E o leve tremor sob seus pés, sinal de que eles, de algum modo, ainda não estavam completamente adormecidos.

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