Peças do Destino

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Summary

Em Austeria, a liberdade é um discurso elegante e a vigilância, uma prática silenciosa. Selin sonha em entrar para a Academia Real de Ballet, o palco mais prestigiado do país e símbolo máximo da arte austeriana que a república exibe ao mundo. Para ela, dançar é mais do que ambição: é fuga, promessa e a esperança de um futuro escolhido por si. Mas, à medida que se aproxima do sonho, também se aproxima do perigo. Quando as atividades rebeldes de seu irmão chamam a atenção do regime, o temido tenente Dasan surge em seu caminho. Atento, impenetrável, perigoso, ele passa a cruzar o destino de Selin nos bastidores do palco, onde rivalidades, segredos e riscos se encontram.

Status
Ongoing
Chapters
4
Rating
n/a
Age Rating
18+

Capítulo Um: A Pequena Bailarina

O sol atravessa a vitrine e acende os vidros do balcão.

Superfícies impecáveis devolvem reflexos entre pães e doces alinhados. Na luz, partículas quase invisíveis se revelam — suspensas, lentas, atravessando o ar como pó fino, visível apenas sob o toque direto do sol.

Selin ajusta uma travessa de doces até o lugar exato. Recua um passo, depois outro. O movimento não cessa, muda de forma.

O giro vem contido, quase tímido dentro do espaço estreito, e o tecido do vestido responde com leve atraso, abrindo-se ao redor das pernas antes de repousar outra vez. O avental segue em um arco mais lento, cedendo ao ar ainda quente do forno.

O sapato encontra o chão com firmeza controlada. O outro desliza em seguida, silencioso, completando o gesto. Um fio de melodia escapa, baixo demais para se formar por completo. Por um instante, tudo permanece suspenso — inclusive o pó fino atravessando a luz.

A vitrine devolve sua imagem com clareza. Selin não olha. Apenas ajusta mais um doce, e no movimento mínimo do pulso, o gesto volta a insinuar dança.

Passos firmes cruzam o cômodo. O pai entra com uma nova fornada, o calor o acompanha. Ele para ao vê-la, o olhar repousando no movimento que nunca se encerra por completo. Balança a cabeça, quase automático, e segue.

O sino da porta tilinta. Um senhor entra com passos tranquilos, a boina ajustada e o sorriso já presente.

— Muito bom dia.

— Bom dia, senhor Inácio.

— Bom dia, pequena bailarina.

Selin disfarça o sorriso.

— Já tomou café? — pergunta o pai.

— Já sim, daqueles bem fortes que só Malvina sabe fazer.

— É mesmo um homem apaixonado.

Eles riem.

— Tem que ser.

O pai faz um gesto e os dois seguem para o fundo da loja. Uma lista se abre, dedos percorrem linhas enquanto a conversa diminui de volume. Selin permanece no balcão. As mãos continuam trabalhando, mas o olhar escapa em breves intervalos, tentando alcançar o que não chega até ela por inteiro.

O sino toca outra vez. Ela se vira.

— Bom dia.

Atende com a mesma precisão de sempre, embrulhando o pedido, ouvindo com atenção, enquanto o olhar, vez ou outra, busca o fundo da loja antes de retornar. Quando o cliente sai, o espaço parece maior. O pai já desapareceu na cozinha. Selin não hesita. Dá a volta no balcão.

— É para a Academia Real? — sussurra.

O senhor Inácio confirma com um aceno quase invisível. É o bastante. Algo se acende.

O pai volta com os mantimentos, acomodando tudo com cuidado. Selin já está ali. Passa a mão pela superfície impecável, afastando uma poeira que não existe.

— Pai... posso acompanhar o senhor Inácio? Preciso passar na costureira.

O silêncio vem antes da resposta. O olhar percorre o espaço — balcão em ordem, prateleiras completas e o forno ainda quente.

— Já terminei a fornada... acho que posso atender os clientes. — Uma pausa. — Mas volte antes do meio-dia.

Selin assente rápido.

— Prometo.

Desamarra o avental com pressa contida, os dedos ligeiros demais para quem tenta parecer calma. Ajusta o lenço mais de uma vez, alisando o que já está liso. O sorriso escapa. Nos cantos. No olhar. Na respiração mais leve.

— Eu ajudo.

Pega a caixa antes que pedissem, já em movimento. Quando vira de costas, o sorriso se abre. Livre. Amplo demais para caber ali dentro.

Do lado de fora, acomoda os mantimentos na carroça com movimentos rápidos, precisos, indo e voltando sem hesitar, ajustando tudo com uma eficiência que não esconde o entusiasmo. Os passos são leves. Quase saltam.

O senhor Inácio observa, discreto, um sorriso contido no canto da boca, e sobe. Selin vem logo atrás, ainda com aquele brilho no rosto que não se desfaz, acomodando-se ao lado dele com rapidez demais para parecer casual.

A carroça parte. Mesmo sentada, ela não está completamente parada.

A cidade se desenrola ao redor com naturalidade, vitrines bem cuidadas exibindo tecidos leves em camadas suaves, cores contidas e cortes precisos, enquanto cafés se abrem para a rua com mesas ocupadas por conversas baixas e gestos medidos. Carros cruzam as ruas com frequência, bem polidos, deslizando entre carruagens e pedestres.

A estação surge adiante, ferro e vidro se elevando em linhas amplas, o vapor se espalha no ar enquanto o som distante das máquinas sustenta o ritmo da cidade. Selin observa tudo, mas não se detém; o olhar segue adiante, sempre um pouco além do que está diante dela.

A carroça continua, e o ritmo não se quebra quando passam pela pequena fachada da costureira. O olhar encontra o do senhor Inácio por um instante. Nada é dito. Há ali um entendimento antigo. Ele não diminui o passo. A carroça segue. Selin volta o olhar para frente. O corpo inteiro atento agora.

Não demora. A cidade começa a se abrir em linhas mais amplas, as construções ganham altura e impõem presença até que ela surge.

A Academia Real.

Há nela um excesso que não se esconde: ornamentos incapazes de fingir modéstia, colunas mais altas, janelas amplas que captam a luz e a devolvem com intensidade. Tudo existe para impressionar. Selin não desvia o olhar.

A carroça contorna o edifício até alcançar os fundos. Selin desce logo em seguida, ainda absorvendo mais do que consegue organizar.

O movimento nos fundos da Academia é intenso, mas silencioso; caixas são movidas com uma precisão que parece espelhar a disciplina exigida no palco principal.

Ela aproxima-se de uma pilha de caixas de mantimentos. Seus dedos, acostumados ao peso das travessas da padaria, agarram uma alça de madeira com firmeza. Ela começa a deslocar os volumes, empilhando-os com uma eficiência fingida, os olhos baixos, agindo como se cada movimento seu fosse puramente funcional.

Sua mente, no entanto, está a metros dali. Ela estica o ouvido, tentando filtrar o som das vozes dos carregadores para encontrar a melodia que sabe que deve estar ecoando lá dentro. Entre um esforço e outro, ela se permite breves intervalos, inclinando a cabeça o suficiente para captar o ritmo abafado que atravessa as paredes de pedra.

— Chegaram cedo hoje.

Selin se sobressalta, mas disfarça o susto ajustando o lenço com um gesto breve antes de se virar. A senhora que costuma receber os mantimentos a observa com um olhar atento, que parece ler através do disfarce de ajudante.

— Veio ajudar de novo — comenta a mulher, com uma inclinação de cabeça quase imperceptível.

— Bom dia — responde Selin, forçando um sorriso calmo.

— Ou veio espiar?

O sorriso de Selin ganha uma nota de honestidade. Ela solta a caixa com cuidado e alisa o vestido simples.

— Não posso evitar.

A senhora solta um riso curto.

— Chegou na hora certa. Estão ensaiando

Ela indica o caminho com um gesto simples.

Selin, porém, não se move de imediato. Ela olha de relance para o senhor Inácio, que ainda está perto da carroça, segurando uma das caixas pesadas. Uma pontada de insegurança a atingi — a sensação de estar abandonando o dever por um capricho, de deixar o trabalho nos ombros de um homem mais velho.

Ela hesita, os pés plantados no chão de cascalho, os nós dos dedos tensionados.

O senhor Inácio nota a paralisia, solta um riso rouco e balança a cabeça. Ele faz um gesto rápido com a mão, um “vai logo” silencioso e generoso, antes de se voltar para a senhora e começar a conferir a lista de entregas.

Selin sorri, o peito subitamente mais leve. Ela agradece com um aceno tímido e, finalmente livre da culpa e do disfarce, afasta-se rente à parede. Seus passos se tornam quase sorrateiros, movidos por uma urgência contida, em direção à luz dourada que escapa pelas janelas do salão.

O som vem antes da visão: a música baixa e constante, atravessada por outro ritmo — passos marcando o piso com controle absoluto.

A sequência se repete com exatidão: avanço, pausa, giro contido, o retorno firme do pé ao chão. Então a voz surge, firme e clara, marcando o tempo e nomeando os passos. Selin prende a atenção. Reconhece a ordem, a cadência, a forma como cada movimento se encaixa no outro.

As janelas deixam escapar luz e movimento, e Selin se aproxima, usando os arbustos como abrigo até encontrar um ângulo. Então vê.

O salão se abre amplo, o piso claro reflete a luz das janelas, e há ordem ali — corpos alinhados, movimentos que começam e terminam juntos, sustentados por uma precisão que não admite hesitação. O piano marca o ritmo. A voz conduz.

Selin não pisca. O olhar acompanha cada detalhe. As bailarinas se movem em linhas precisas, e o reflexo na parede de espelhos duplica cada gesto. Os vestidos acompanham cada deslocamento, leves, ajustados ao corpo. As sapatilhas deslizam pelo piso, claras, gastas na ponta, e ainda assim parecem quase brilhantes aos olhos de Selin.

A professora atravessa o salão sem pressa, observa, para ao lado de uma aluna e ajusta-lhe o braço com um toque breve.

— Mais alto.

A voz não se eleva, mas não permite erro. A aluna corrige. A professora segue, repetindo o gesto em outro corpo, alinhando costas, reposicionando eixo.

— Não antecipa.

Selin acompanha cada correção, guardando detalhes: a posição dos dedos, a inclinação da cabeça, a firmeza escondida no tornozelo. Nada ali é solto. Nada é acaso.

A música repete o mesmo ciclo melódico diversas vezes, e o que antes era leveza, ganha um peso real. Selin nem percebe que suas próprias pernas começam a latejar pela posição curvada nos arbustos, hipnotizada pela forma como a perfeição exige, acima de tudo, resistência.

— Selin!

Ela se sobressalta. O mundo volta de uma vez.

Vira-se ainda presa ao que viu. O senhor Inácio espera.

Selin lança um último olhar, demorando-se mais do que deveria. Guarda o momento. O corpo memoriza o que os olhos ainda não retêm por completo.

Há algo ali que não se encerra quando ela se afasta. Fica. Mesmo à distância.

Atravessa o caminho de volta com passos medidos. Para diante da senhora e, por um instante, não diz nada. Então estende as mãos e segura as dela com cuidado.

— Obrigada.

A palavra sai baixa, mas inteira. A senhora assente, sem pressa. Selin solta as mãos devagar e se vira. O mundo parece menor agora. Ou talvez ela tenha crescido.

Selin sobe na carroça em silêncio, olhando uma última vez em direção às janelas. O cavalo avança. A cidade volta, mas não da mesma forma. Os sons, os movimentos, as pessoas — tudo permanece, mas há uma distância nova entre o que ela vê e o que importa.

Selin mantém o olhar à frente. Mas não está ali.

Então um carro cruza a via, elegante e escuro, deslizando ao lado da carroça e desacelerando o suficiente para revelar o interior por um instante. Selin não pretende olhar. Mas olha.

Há um homem. O uniforme desenha a linha dos ombros com precisão, a postura rígida como hábito, e a luz atravessa o vidro, tocando seu rosto por um breve segundo e revelando traços firmes.

Não pela beleza apenas. Pela forma como nada ali cede. O olhar encontra o dela. Frio. Contido. Indiferente. Selin sustenta o olhar, sentindo o tempo se alongar mais uma vez dentro daquele encontro breve.

Então passa. O carro segue. A cidade retoma o movimento. Mas a sensação não. E, em algum lugar ainda preso dentro dela, o salão continua existindo — intacto, distante, possível.