Entre a Fogueira e o Amor

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Summary

Em 1647, na austera vila de Santa Vigília das Cinzas, onde a fé é lei e a diferença é pecado, Mikael e George escondem um amor proibido. Cercados por fanatismo e vigilância constante, o casal vive sob constante ameaça. Quando a intolerância da comunidade se volta contra eles, ambos encontram um fim brutal e trágico. Quatro séculos depois, em 2026, as almas dos dois renascem e se reencontram, arrastados por uma conexão irresistível que transcende o tempo. No mundo moderno, onde seu amor já não é crime, o passado parecia enterrado. Porém, antigas forças de inveja e fanatismo ressurgem, trazendo memórias fragmentadas e um terror silencioso que ameaça repetir a tragédia. Entre desejo e sombras do passado, Mikael e George precisam descobrir se o amor eterno é forte o suficiente para quebrar um destino marcado pela morte.

Status
Ongoing
Chapters
6
Rating
5.0 1 review
Age Rating
18+

O Rastro dos Condenados


Santa Vigília das Cinzas — Dezembro, 1647

Eles corriam entre os troncos altos da floresta escura, guiados apenas pela luz fria da lua e pelo brilho distante das estrelas. Os pés descalços sangravam, cortados por espinhos e pedras afiadas. A roupa rasgada colava na pele suada, e o peito ardia a cada respiração curta e desesperada. Atrás deles, a noite ecoava com fúria: gritos raivosos, latidos selvagens de cães de caça e o tropel de dezenas de pés que conheciam cada palmo daquela mata.

— Mais rápido, Mikael! — sussurrou George, puxando-o pela mão com força, como se pudesse fundir seus corpos e torná-los um só, impossível de separar.

Mas era inútil. Santa Vigília das Cinzas era um lugar pequeno, cercado por matas densas e colinas implacáveis. Ali, todos se conheciam. Todos vigiavam.

Quando Lydia, filha de uma das famílias mais respeitadas, os acusou de bruxaria — dizendo que Mikael havia enfeitiçado George —, a fúria da vila explodiu como fogo em palha seca. Ninguém questionou.

Eles se jogaram atrás de uma grande rocha coberta de musgo, tentando abafar a respiração ofegante. Mikael tremia, não só de medo, mas de uma tristeza profunda que lhe apertava a garganta. Tudo o que ele tinha era aquele amor. E o mundo parecia decidido a arrancá-lo dele.

— Eles não vão parar — murmurou Mikael, a voz embargada. — Quando nos pegarem… eu sei o que vão fazer. Vou te perder para sempre.

George virou o rosto para ele. Havia uma dor profunda em seus olhos, algo que Mikael não conseguia decifrar completamente. Uma dor que parecia quase tão pesada quanto ter metade da vila correndo atrás deles apenas por se amarem.

— Não importa o que aconteça, Mikael — sussurrou George, levando aos lábios os dedos machucados e sujos de terra do amado. O beijo foi leve, quase reverente. — Eu sempre vou amar você.

Os gritos se aproximavam. Os latidos dos cães agora pareciam vir de todos os lados, ferozes e ensurdecedores.

— Eles estão aqui… — choramingou Mikael.

A luz alaranjada das tochas começou a dançar entre as árvores, iluminando a rocha onde se escondiam. As sombras alongadas se moveram como dedos acusadores, cada vez mais perto.

Santa Vigília das Cinzas — Fevereiro, 2026

O som foi se transformando aos poucos. A aspereza dos gritos e latidos foi perdendo força, ganhando novos ecos — vozes conversando, risadas altas, nomes sendo chamados, o burburinho urgente de quem queria apenas ir embora. A perseguição na floresta se dissolveu no barulho ensurdecedor do sinal da escola.

Marjorie estava sentado num banco no canto do pátio, cercado por centenas de alunos ansiosos para saírem, mas parecendo completamente sozinho. Ele tinha traços delicados demais para sustentar aquele olhar intenso: olhos castanhos e atentos, carregados de uma expressão difícil de decifrar. A pele clara contrastava com as marcas avermelhadas nas bochechas, dando a ele um ar ao mesmo tempo frágil e provocador. Seus olhos permaneciam vidrados, fixos em um ponto qualquer no chão. Nem piscava quando alguém esbarrava em seus pés. O cabelo castanho-escuro caía em ondas rebeldes sobre a testa, como se nunca tivesse aceitado ordens de um pente.

Sentia o coração acelerado, o suor frio na nuca e a dor fantasma nos pés machucados, como se realmente tivesse corrido quilômetros descalço pela mata.

— Ei! Terra chamando Marjorie!

Uma mão tocou seu ombro esquerdo com leveza. Ele piscou várias vezes, como se voltasse de um transe profundo. Eram Mirabella e Giulia, suas melhores amigas da escola, que o observavam com expressões preocupadas.

— Você vive assim, né, garoto? — disse Giulia, ajustando a mochila no ombro. — Sempre em outro planeta.

O cabelo castanho-escuro e bem cacheado emoldurava seu rosto afinado de forma natural, criando um contraste bonito entre suavidade e intensidade. Seus olhos marcantes, sob sobrancelhas arqueadas e bem definidas, chamavam atenção logo de cara. A pele quente, o nariz fino e os lábios médios completavam uma beleza serena, porém reservada. Giulia não era calorosa à primeira vista, mas quem a conhecia sabia que guardava um mundo inteiro dentro de si.

— Desculpa… — murmurou Marjorie, passando a mão pelo rosto, tentando voltar ao presente. — Eu estava longe.

— Espero que estivesse pensando no trabalho de filosofia que o professor Geraldo passou — interrompeu Mirabella, sentando-se ao lado dele no banco. — Porque é disso que a gente precisa falar.

Seu cabelo tingido de vermelho-cereja, levemente desalinhado, caía ao redor do rosto até os ombros com uma naturalidade despreocupada. Seus traços fortes e expressivos — olhos grandes e intensos, sobrancelhas marcadas, lábios cheios e rosto mais compacto — ganhavam ainda mais presença na pele escura. Mirabella não precisava se esforçar para ser marcante; ela simplesmente era. E, acima de tudo, era sincera.

— Esse é o ano da nossa formatura, agora não falta muito para o resto das nossas vidas. Suas notas despencaram ano passado, Marjorie. Você só foi aprovado pro último ano porque prometeu se esforçar. Se não fizer por onde, você não vai se formar com a gente.

Ele deu um sorriso fraco, sem energia. Os estudos eram a última coisa em sua mente ultimamente. Desde que tudo começou, só conseguia pensar nas lembranças que não pareciam suas, nos sonhos estranhos… e em Gael.

— Eu vou me esforçar, prometo.

Giulia arqueou uma sobrancelha, claramente cética.

— Tem certeza de que não é por causa desse namoro? Você está assim, distraído, desde que contou que conheceu alguém naquele aplicativo. Como é mesmo o nome dele? Gael?

Só ouvir o nome já fez o coração de Marjorie dar um salto. Ele assentiu devagar.

— É… Gael. Faz um mês que nos conhecemos.

— Um mês? — repetiu Mirabella, com seu característico tom debochado. — E já estão num relacionamento sério assim?

— É intenso — respondeu ele, a voz mais baixa. — Muito intenso. Mas também é complicado. Nesse tempo, a gente já terminou e voltou duas vezes.

— Como assim? — perguntou Giulia, franzindo a testa.

Marjorie hesitou, mas acabou falando:

— Ele é diferente. Autista. Vê o mundo de um jeito que eu ainda estou tentando entender. Às vezes ele se fecha do nada, acha que tudo está dando errado, que é difícil demais… e termina, sem muita explicação. Depois de uns dias, volta dizendo que sentiu falta, que errou. E eu sempre aceito.

As duas se entreolharam, preocupadas. Elas conheciam bem a história de Marjorie — o abandono dos pais, o medo profundo de ficar sozinho.

— Amigo… isso não parece saudável — disse Mirabella, direta como sempre. Por trás da firmeza, havia lealdade verdadeira. — Você não pode ficar nesse vai e volta. Isso vai te destruir.

— Eu sei… — sussurrou Marjorie, olhando novamente para o chão. — Mas é como se eu precisasse dele. É estranho, mas é o que eu sinto.

Ele não contou o resto. Não contou que, no fundo, sentia como se já tivesse vivido tudo aquilo antes: o amor avassalador, a separação repentina, a força invisível que os afastava e os puxava de volta.

Marjorie acendeu a tela do celular, viu as horas e arregalou os olhos. Levantou-se do banco num salto.

— Porra, tô atrasado!

Pegou a mochila às pressas e já saiu correndo.

— Tenho que ir pro trabalho, senão perco o turno. Até depois!

Durante todo o trajeto no ônibus, só conseguia pensar no tempo perdido. Trabalhar como operador de caixa no supermercado todos os dias depois da aula não era opcional — cada centavo fazia diferença.

Quando chegou ao setor de caixas, já vestindo o uniforme vermelho, ouviu duas vozes familiares:

— Lá vem ele! Achei que não ia aparecer hoje — disse Thalita, virando-se com seu sorriso largo de sempre. Ao lado dela, Caju acenou.

As duas irmãs o haviam adotado desde o primeiro dia. Foi ele quem, sem querer, apelidou Maria Júlia de Caju, e o nome pegou. Mas quando Thalita olhou melhor para o rosto dele, o sorriso desapareceu.

— Espera aí… — Ela se aproximou, cruzando os braços. — O que aconteceu com você? O que aquele Gael fez dessa vez?

Thalita tinha um corpo naturalmente cheio — não pesado, mas com curvas suaves e bem distribuídas que transmitiam calor e firmeza. Seu rosto arredondado e delicado, de pele escura, trazia traços harmoniosos: maçãs levemente salientes, lábios cheios que brilhavam sob a luz, olhos escuros com um olhar calmo e confiante, e sobrancelhas suaves que equilibravam toda a expressão. O cabelo totalmente raspado destacava ainda mais a suavidade de seus traços arredondados, transmitindo um acolhimento imediato. Mas sua ironia era afiada como lâmina: sutil, elegante, quase imperceptível até o momento em que a frase voltava e acertava em cheio.

Marjorie soltou uma risada fraca, balançando a cabeça.

— Dessa vez ele não fez nada — respondeu, embora a preocupação ainda pesasse em sua voz. — Vocês sempre acham que ele é o vilão da história, mas não é bem assim.

Ele parou por um segundo, pegou o celular do bolso da calça e desbloqueou a tela, atualizando a conversa obsessivamente, como se esperasse uma mensagem a qualquer instante.

— Mas amanhã eu vou vê-lo. Aí tudo fica bem — completou, sem tirar os olhos da tela.

— Ah é? E onde vão? — perguntou Caju, aproximando-se.

Seu rosto oval emoldurado pelo cabelo longo, preto e ondulado destacava os olhos amendoados, calmos e observadores. As sobrancelhas cheias e retas reforçavam sua expressão atenta, enquanto o piercing no septo e na lateral do nariz delicado, junto aos lábios volumosos, davam um ar marcante à sua beleza. Nos braços, as tatuagens — uma bola de vôlei e o desenho delicado da sua cachorra Lisa, que agora morava no céu — contavam histórias importantes sobre sua vida.

— Ele foi convidado pra um churrasco na casa do Vinícius, o melhor amigo dele — explicou Marjorie. O tom de voz ficou mais baixo. — No começo eu não gostei da ideia. Fiquei com ciúme, imaginando ele lá, cercado de gente, sem mim…

Thalita revirou os olhos.

— Marjorie, seu ciúme tá preocupante.

— Eu sei, eu sei! — Ele riu, sem graça. — Mas o ponto é que ele percebeu que eu fiquei mal. Em vez de brigar, ele disse: “Se você não quer que eu vá sozinho, então vem comigo.”

Pela primeira vez naquele dia, Marjorie abriu um sorriso genuíno.

— Então eu vou. Vamos os dois.

Thalita e Caju se entreolharam, aliviadas.

— Então tá bom — disse Caju, dando um tapinha carinhoso no ombro dele. — Agora guarda esse celular e vai trabalhar, chefe. Se o gerente te pegar assim, ele que vai virar o vilão da sua história.

Marjorie guardou o aparelho, mas sua mente continuava longe, presa em Gael e no dia seguinte. Mesmo enquanto atendia os clientes, aquela sensação incômoda não saía do peito — a impressão de que algo sempre estava prestes a dar errado.

Ele estava no meio de um atendimento, passando os produtos de uma senhora idosa, quando o celular vibrou dentro do bolso do uniforme. Pediu licença rapidamente, pegou o aparelho e abriu a mensagem.

Era Gael.

“Ah, só mais uma coisa. A Layssa também foi convidada. Ela tá passando por um momento difícil e o Vinícius insistiu pra ela ir, pra se distrair.”

Marjorie parou no meio do movimento. A tela embaçou por um instante. E, baixo e distante, ele ouviu novamente: os gritos da multidão enfurecida.