Prólogo
Eu estava caindo do céu.
Algo invisível me puxava pelos pés, arrastando-me em direção ao oceano que se abria abaixo de mim — vasto, escuro, infinito. Gritei até a voz falhar, mas ninguém respondeu. Meus braços e pernas se debatiam no vazio enquanto o vento cortava minha pele.
O céu era um manto de trevas salpicado de estrelas, fragmentos de fogo distante.
E a lua…
A lua era vermelha.
Não apenas vermelha — era sangue suspenso no firmamento, um presságio antigo pulsando sobre mim. Seu brilho atravessava minha pele como se me despisse por dentro, expondo algo que eu mesma desconhecia. Fechei os olhos, tentando escapar daquela luz que queimava sem tocar.
Eu não sabia como tinha ido parar ali.
Minhas lembranças eram rasgos. Fragmentos soltos. Como se alguém tivesse arrancado pedaços inteiros da minha memória. A sensação absurda de ter sido empurrada me atravessou.
Arremessada.
Por alguém.
Mas quem?
O impacto veio antes que eu pudesse pensar.
Meu corpo rasgou a superfície do oceano e afundou sem resistência. A força da queda me arrastava cada vez mais fundo, em direção ao que quer que estivesse escondido abaixo. A água salgada invadiu meus pulmões. Continuei a gritar — mesmo sem voz, mesmo sabendo que ninguém podia me ouvir.
Seria aquele o meu fim?
Morrer ali. Sozinha. Afogada em um lugar que eu não reconhecia. Depois ter o corpo dilacerado por criaturas atraídas pelo cheiro do meu sangue.
Patético.
Então—
Abri os olhos.
E o vi.
A silhueta de um homem avançava em minha direção, movendo-se pela água como se ela fosse apenas ar. Alto. Imponente. Os cabelos ruivos flutuavam ao redor do rosto como chamas submersas. Seus olhos verdes brilhavam na escuridão com intensidade demais para serem humanos.
Ele era belo de um jeito impossível.
Traços marcantes. Pele dourada como se tivesse sido tocada pelo sol. Vestia uma armadura da mesma tonalidade, e no centro do peito repousava o entalhe de um dragão — antigo, solene… vivo.
Fiquei hipnotizada.
Nem percebi quando a água ao meu redor começou a gelar.
O frio me atravessou de uma vez. Meus membros ficaram dormentes, pesados, inúteis. Não conseguia me mover. Não conseguia fugir.
Ele parou a poucos centímetros de mim.
Não me tocou.
Apenas me observou.
Seu olhar era profundo demais. Insuportável. Como se enxergasse cada fragmento da minha alma — inclusive aqueles que eu ainda não conhecia.
Então seus olhos verdes começaram a brilhar.
Prateados.
Intensos.
Pulsantes.
Instintivamente, fechei os meus.
E gritei.