CapĂtulo 1
Nayra MacLeod sempre soube usar um sorriso. Naquela noite, ele estava funcionando perfeitamente.
O restaurante era um dos mais caros da cidade. Lustres de cristal, garçons elegantes, música suave ao fundo e mesas ocupadas por homens de terno que falavam sobre negócios como se estivessem decidindo o destino do mundo.
Nayra estava sentada diante de um deles. Um empresário de meia‑idade chamado August Valente.
Ele falava sem parar sobre investimentos, empresas e viagens internacionais. Nayra inclinava a cabeça de vez em quando, sorrindo com interesse, como se cada palavra fosse fascinante.
Na verdade, ela estava apenas esperando o momento certo.
— …e foi assim que eu comprei minha primeira empresa — disse August, orgulhoso.
Nayra apoiou o queixo na mão, olhando para ele com atenção.
— Uau… isso deve ter sido incrĂvel.
Ele abriu um sorriso satisfeito. Homens como ele adoravam plateia. Amavam ser ouvidos.
— Foi sim. Eu sempre digo que sucesso é para quem tem coragem.
— Eu acredito nisso — respondeu Nayra suavemente.
Por baixo da mesa, o celular vibrou. Ela nĂŁo olhou imediatamente. Continuou sorrindo, como se nada tivesse acontecido. O telefone vibrou de novo. Discretamente, ela puxou o celular para perto da perna e olhou a tela. Mensagem de Tyler.
— “Ele já te ofereceu algo?”
Nayra quase sorriu. Ela digitou sem olhar muito para baixo.
— “Relaxa. Em dez minutos ele vai pedir minha conta bancária.”
Do outro lado do restaurante, Tyler Hetfield estava sentado no bar. Camisa escura, postura relaxada, um copo de whisky na mĂŁo. Para qualquer pessoa ali, ele parecia apenas mais um cliente aproveitando a noite.
Mas seus olhos estavam atentos. Sempre atentos. Ele observava Nayra. Observava o empresário. Observava cada gesto. Era quase como assistir a uma peça de teatro que ele mesmo tinha dirigido.
Na mesa, August continuava falando.
— Você já pensou em trabalhar com investimentos?
Nayra riu baixinho.
— Eu? Não… eu acho que não sou tão inteligente assim.
— Não diga isso — respondeu ele rapidamente. — Inteligência não é só números.
Ele se inclinou um pouco mais perto.
— Você tem… presença.
Nayra abaixou os olhos, como se estivesse envergonhada.
— Isso é um elogio?
— Muito mais que isso.
Ela levantou o olhar devagar. Era a deixa.
— Você é diferente das outras garotas que conheço — disse August.
Exatamente como ela havia previsto. Nayra sorriu, com aquele olhar doce que parecia sincero.
— Eu escuto muito isso…
Do outro lado do restaurante, Tyler soltou uma risada baixa.
— Claro que escuta.
Ele já tinha visto aquela cena dezenas de vezes. E sempre funcionava. Alguns minutos depois, August pediu a conta. Quando o garçom se afastou, ele tirou um cartão do bolso.
— Eu gostaria de ver você novamente.
Nayra fingiu surpresa.
— Ah… eu não sei…
— Apenas um jantar — disse ele rapidamente. — Nada complicado.
Ela hesitou por alguns segundos. Teatro. Puro teatro. EntĂŁo pegou o cartĂŁo.
— Talvez.
Ele sorriu como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
— Então me mande uma mensagem.
Nayra assentiu.
— Eu mando.
Quando se levantou da mesa, ela agradeceu educadamente e saiu do restaurante. Assim que atravessou a porta de vidro, o sorriso doce desapareceu. Ela respirou fundo.
— Mais um.
Alguns segundos depois, Tyler apareceu ao lado dela.
— Quanto?
Ela olhou para ele.
— Nem um parabéns primeiro?
— Parabéns — respondeu ele, sem perder o sorriso. — Agora… quanto?
Nayra riu.
— Impaciente.
Eles caminharam até o carro. Durante o trajeto até o hotel, Tyler dirigia enquanto ela mexia no celular.
— Ele vai transferir amanhã — disse ela.
— Quanto?
— Cinquenta mil para “ajudar” a empresa da minha famĂlia.
Tyler assobiou.
— Esse foi rápido.
— Ele é carente.
— Perfeito.
Alguns minutos depois, chegaram ao hotel. Era um dos mais luxuosos da cidade. Mármore no chão, recepção iluminada e funcionários que nunca faziam perguntas.
Exatamente o tipo de lugar que Tyler gostava. Assim que entraram no quarto, Nayra tirou os saltos e suspirou.
— Eu odeio esses sapatos.
Tyler fechou a porta atrás deles.
— Mas eles ajudam no trabalho.
Ela abriu a bolsa.
— Falando em trabalho…
Nayra caminhou atĂ© a cama e jogou trĂŞs envelopes grossos sobre o colchĂŁo. Eles caĂram com um som pesado. Tyler levantou as sobrancelhas.
— Isso é o que eu estou pensando? Eu pensei que…
— Queria te surpreender. Tem cento e cinquenta mil.
Ela cruzou os braços, orgulhosa.
— Três encontros. Três idiotas ricos.
Tyler pegou um dos envelopes e abriu. Notas de dinheiro perfeitamente organizadas. Ele começou a rir.
— Minha garota perfeita.
Nayra se jogou na cama.
— Eu estou cansada.
Tyler se aproximou.
— Mas satisfeita.
— Muito.
Ele sentou ao lado dela e passou os dedos pelo cabelo dela.
— Viu só?
Ela olhou para ele.
— O quê?
Ele sorriu daquele jeito que sempre fazia o coração dela acelerar.
— Eu sempre disse… você nasceu para isso.
Nayra fez uma careta divertida.
— Para enganar homens ricos?
— Para conseguir tudo o que quiser.
Ele puxou ela pela cintura, deu um beijo apaixonado de tirar o fĂ´lego. Nayra riu um pouco ofegante.
— Você fala como se isso fosse um talento.
— Porque é.
Ele beijou o pescoço dela lentamente.
— A maioria das pessoas passa a vida inteira tentando conseguir dinheiro. — Outro beijo. — Você só precisa sorrir.
Nayra fechou os olhos por um segundo.
— Eu não faço isso só pelo dinheiro.
Tyler parou.
— Eu sei.
Ela olhou para ele.
— Eu faço isso por nós.
Por um instante, Tyler ficou calado olhando para ela. EntĂŁo sorriu.
— E nós estamos indo muito bem.
Ele pegou outro envelope e jogou para o alto.
— Cento e cinquenta mil em uma semana.
— Nada mal.
— Em alguns anos vamos ter dinheiro suficiente para nunca mais precisar trabalhar.
Nayra apoiou a cabeça no ombro dele.
— E o que vamos fazer depois?
— Viajar.
— Para onde?
Ele pensou por um momento.
— Para qualquer lugar que você quiser.
Ela sorriu.
— Coreia.
Tyler riu.
— Coreia?
— Sempre quis conhecer. A culinária parece deliciosa, a cultura fascinante, e Seul parece um sonho.
Ele deu de ombros.
— Então vamos para a Coreia.
Nayra levantou a cabeça e olhou para ele.
— Promete?
Ele segurou o rosto dela.
— Eu prometo.
Ela acreditou. Porque sempre acreditava. Tyler era inteligente. Confiante. Ambicioso. E quando ele olhava para ela daquele jeito, parecia que os dois contra o mundo era a coisa mais natural que existia. Nayra encostou a testa na dele.
— Nós somos uma boa dupla.
— A melhor.
Ele beijou ela novamente. Longo. Calmo. Seguro. Depois se levantou e começou a contar o dinheiro. Nayra ficou observando. O jeito concentrado dele. A forma como ele organizava tudo.
Ela sorriu sozinha. Talvez o que eles faziam não fosse exatamente… correto. Mas também não parecia errado. Porque era por ele. Sempre por ele.
E enquanto observava Tyler contando os envelopes com aquele olhar satisfeito, Nayra sentiu novamente a mesma certeza que tinha desde os dezoito anos.
Tudo aquilo valia a pena. O risco. As mentiras. Os jogos. Porque no final do dia ela voltava para ele. E isso era tudo que importava.
Para Nayra MacLeod, amar Tyler Hetfield sempre foi simples. Mesmo quando o resto do mundo era apenas… um grande golpe.