Capítulo 1 - Clara e Marcelo
Essa história fala sobre reconstrução, sobre amar com medo e sobre escolher ficar quando ir embora parece mais seguro. Espero que a Clara te faça acreditar que o que sobrou de você também pode ser amado.
— Então, fechado?
Estendo a mão sobre a mesa e o Sr. Henrique a aperta com firmeza, sorrindo.
— Fechado, Clara. Você foi a única que entendeu exatamente o que eu queria. Os outros escritórios trouxeram projetos bonitos — o seu trouxe o que eu precisava.
Minha assistente já está preparando os documentos do outro lado da mesa. Assino primeiro, depois ele. O clique da caneta no contrato é pequeno, mas ressoa dentro de mim de um jeito que eu nunca vou cansar de sentir.
— Pode deixar comigo. — digo, recolhendo a minha via. — Você vai adorar o resultado.
Ele se levanta, aperta a mão da minha equipe um por um, e sai satisfeito
A porta fecha.
E só então permito que o sorriso tome o rosto inteiro.
— Parabéns, Clara. — Mara, minha assistente, fala baixo, como se soubesse que eu precisava de um segundo só pra sentir isso.
— Obrigada. — Olho ao redor da sala de reunião — os projetos espalhados, os modelos em escala, as horas que ficaram aqui dentro. — Obrigada a todos vocês.
A equipe começa a recolher as coisas. Eu olho pro relógio.
Quase oito da noite.
O estômago aperta na mesma hora.
Corro até a minha sala antes de ir embora, mas assim que abro a porta já sinto o ar gélido que vem lá de dentro.
Marcelo.
Ele não está em casa.
Está aqui — e isso não é um bom sinal.
O barulho do meu salto contra o piso de madeira escuro faz com que ele perceba minha entrada.
Ele vira o rosto endurecido e o olhar cai em mim. Sentado na minha cadeira, permanece assim conforme eu entro.
— Boa noite, Marcelo.
Continuo guardando as coisas, desligando os eletrônicos. Ele fica sentado, calado.
— Isso é hora de você ainda estar aqui?
Reviro os olhos.
Estou cansada dessas conversas.
— Estou trabalhando, Marcelo. Tem clientes que não conseguem vir no horário comercial. Não estou em posição de dizer não.
Ele solta uma risada cruel.
— Você pode dizer não pra quem quiser. Você é casada comigo. Não precisa dessa merda.
— Não chama aqui de merda. É o meu trabalho — eu gosto de estar aqui.
Ele bate a mão na mesa, me fazendo ficar imóvel.
— Quero você em casa, cuidando da sua família. O meu dinheiro compra esse lugar umas cinco vezes.
— Exatamente, Marcelo. Seu dinheiro. Sua casa. Seu trabalho. Eu também quero o meu espaço.
Ele se levanta e caminha na minha direção.
— O que é meu é seu. Pronto. Isso não é suficiente?
Olho pra baixo, agarrada na minha bolsa.
Não. Não é suficiente. Porque todos os dias eu preciso ouvir que sem você eu não sou nada.
— Chega, Marcelo. Estou cansada. Só quero ir pra casa dormir.
Saio pela porta e segundos depois sinto meu pulso sendo agarrado. Ele me vira de uma vez.
— E eu? Quando você vai ter tempo pra mim? — fala bem perto do meu rosto.
A voz dele entra como uma gilete cortando a pele. Meu corpo fica em alerta, pedindo pra gente se afastar.
— Para, Marcelo. Eu sempre estou em casa. Faço o que você pede — me deixa trabalhar.
— Estou deixando, não estou? Estou sendo — ele faz um estalo com a boca. — Compreensível. Mas e você?
— Eu o quê? Me solta! Você tá me machucando.
— Ainda não estou... mas estou perdendo a paciência.
Ele puxa mais o braço, bruscamente, me fazendo bater contra o próprio corpo dele — muito maior que o meu.
— Estou te deixando muito soltinha. Chega dessa brincadeira. Vou fechar esse lugar.
Começo a me debater tentando me soltar, mas ele não me solta.
— Para! Por favor! Não faz isso. — meus olhos enchem de lágrimas. — Por que você é assim? O que eu fiz pra você?
— Porque a minha mulher anda por aí como se fosse qualquer uma. E você não é. Você é minha, Clara.
Engulo seco enquanto os olhos dele encontram os meus.
Meu corpo arrepia. Entro em desespero — não consigo controlar minhas emoções nos últimos tempos.
Começo a me debater com mais força e ele me aperta mais.
Dói.
Então chuto, não muito forte, entre as pernas dele. Completamente desesperada.
Ele urra e me solta, me empurrando assustado.
Meu salto pisa no degrau da escada.
Perco o equilíbrio e sinto meu corpo indo em queda livre.
— MARCELO!!!!!
Tento segurar na mão que ele estende pra mim, mas é tarde demais.
Nossos dedos se encontram — mas não o suficiente.
Tarde demais.
Por favor me ajuda.
Meu corpo bate contra os degraus e eu vou rolando, rezando pra que tudo fique bem.
Até que meus olhos vão se fechando.
Lentamente.








