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Todo Mundo Acha Que Eu Sou Feliz

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Summary

Daniel Kuroda é o homem que o mundo admira. Fundador da Mirai Systems, a empresa de inteligência artificial mais poderosa do planeta, bilionário, gênio da tecnologia e símbolo do futuro, ele parece ter construído a vida perfeita. Mas por trás das manchetes, dos prêmios e da fama existe uma verdade que ninguém conhece. Quando a jornalista brasileira Aline Moreira é escolhida para escrever sua biografia autorizada, ela acredita estar diante da oportunidade de sua carreira. O que ela não imagina é que cada entrevista a levará mais fundo em uma história marcada por abandono, obsessão, perdas devastadoras e um segredo capaz de mudar o destino da humanidade. Enquanto investiga o passado de Daniel, Aline descobre a existência do Mirai Core, um projeto secreto que parece prever acontecimentos antes mesmo que eles aconteçam. Mas quanto mais ela se aproxima da verdade, mais percebe que algumas respostas nunca deveriam ser encontradas. Agora, presa entre a atração crescente que sente por Daniel e o perigo que o cerca, Aline precisará decidir até onde está disposta a ir para revelar a verdade. Porque todo mundo acha que Daniel Kuroda é feliz. Mas ninguém sabe o preço que ele pagou para construir o futuro.

Status
3mo ago
Chapters
20
Rating
5.0 (1 review)
Age Rating
16+

Autorização

Tóquio, Distrito de Marunouchi — Segunda-feira, 7h43

A cidade acordava como sempre acordava: em camadas. Primeiro o metrô, depois os semáforos, depois os homens de paletó escuro que saíam em fila indiana das estações como formigas ordenadas por um comando invisível. Aline Moreira observava tudo isso pela janela do táxi que a levava para o coração de Marunouchi, o bairro que concentrava mais riqueza por metro quadrado do que qualquer outro lugar do Japão. Talvez do mundo.

Ela tinha trinta e dois anos, uma câmera fotográfica no colo, um gravador de voz no bolso do casaco e, no coração, aquela mistura específica de ambição e medo que todo jornalista sente quando percebe que está prestes a entrar em território desconhecido. Aline tinha coberto guerras, crises políticas, escândalos corporativos. Mas aquilo era diferente. Aquilo era Daniel Kuroda.

O e-mail havia chegado três semanas antes, assinado por uma assistente de nome Yuki Tanaka, em nome do escritório de Daniel. A mensagem era curta, quase cirúrgica em sua precisão: o Senhor Kuroda havia selecionado a Sra. Moreira para escrever sua biografia autorizada. Nenhuma explicação. Nenhuma justificativa. Apenas a informação, seguida de uma data, um endereço, e uma única instrução: venha sozinha.

Aline havia passado dias tentando entender por que ele a escolhera. Ela não era a jornalista mais famosa do Brasil. Não era a mais experiente em perfis de tecnologia. Havia escrito sobre desigualdade social no nordeste brasileiro, sobre refugiados no Mediterrâneo, sobre o colapso das democracias sul-americanas. Nada que sugerisse, de forma óbvia, que ela fosse a pessoa certa para contar a história de um dos homens mais ricos do planeta.


A sede da Mirai Systems ocupava um edifício inteiro de quarenta e dois andares no centro de Marunouchi. A fachada era de vidro fumê e aço escovado, sem logotipo, sem sinalização visível. Se você não soubesse o que procurava, passaria na frente sem notar. Essa era, Aline percebeu mais tarde, exatamente a intenção.

Ela entrou pela recepção às oito em ponto. O espaço era imenso e completamente silencioso. Não havia música ambiente, não havia conversas, não havia o burburinho típico de uma empresa movimentada. A recepcionista a aguardava de pé — uma mulher de uns trinta anos, cabelo preso, sorriso calibrado na medida exata entre a cordialidade e a distância profissional. Ela falou em inglês impecável:

"O Senhor Kuroda está esperando pela senhora. Por favor, siga-me."

Atravessaram corredores longos com iluminação fria. As paredes eram brancas, as portas numeradas mas sem nomes. Aline tentou identificar algum detalhe humano naquele lugar — um post-it esquecido, uma xícara de café sobre uma mesa, o som de alguém rindo ao longe. Não havia nada. A Mirai Systems funcionava com a precisão silenciosa de um organismo que havia eliminado o ruído desnecessário. Inclusive o ruído humano.

O elevador subiu quarenta andares em silêncio absoluto. Aline olhou para o próprio reflexo no espelho metálico da porta e se perguntou, pela primeira vez com seriedade real, se havia cometido um erro ao aceitar aquele convite.


Daniel Kuroda estava de pé perto da janela quando ela entrou. A sala ocupava metade do último andar e as paredes de vidro ofereciam uma vista de trezentos e sessenta graus de Tóquio. A cidade parecia uma maquete perfeita lá embaixo: ordenada, geométrica, previsível. A mesa de trabalho era quase vazia — apenas um laptop, uma xícara de chá e um único caderno de capa preta.

Ele era mais alto do que Aline havia imaginado pelas fotos. Quarenta e um anos, cabelo escuro com alguns fios brancos nas têmporas, feições que carregavam a ambiguidade característica de quem cresceu entre dois mundos. Ele usava uma camisa branca de manga longa, sem gravata, sem relógio. Não havia nenhum sinal externo de riqueza. Nenhum símbolo de poder. Apenas aquela presença estranha que algumas pessoas carregam consigo: a sensação de que tudo ao redor delas existe um pouco menos intensamente.

Ele não estendeu a mão. Apenas inclinou a cabeça levemente e disse, em português quase perfeito:

"Obrigado por vir, Aline. Eu a esperava."

Ela sentou-se na cadeira à sua frente. Tirou o gravador do bolso e posicionou sobre a mesa. Ele olhou para o aparelho por um segundo — não com desconforto, mas com algo parecido com reconhecimento, como quem vê um instrumento que conhece bem.

"Pode gravar,"

ele disse.

"Mas devo avisá-la de que nem tudo que eu disser vai caber numa gravação."

Aline sorriu. Era um começo estranho, mas ela havia aprendido, ao longo dos anos, que as entrevistas mais importantes raramente começavam de forma convencional.

"Por que eu?"

ela perguntou diretamente. Ele virou-se para a janela novamente antes de responder.

"Porque você escreve sobre pessoas que o mundo preferiu não ver. E eu preciso de alguém que consiga enxergar o que está atrás do que eu mostro."


A entrevista durou quatro horas. Daniel respondeu perguntas sobre a história da Mirai, sobre tecnologia, sobre o futuro da inteligência artificial. Respondeu com precisão, com inteligência, com uma fluência que parecia ensaiada mas não era. Aline fez anotações, gravou, fotografou. Mas havia algo que ela não conseguia identificar. Uma camada que ele mantinha intacta por baixo de tudo que dizia.

No final da tarde, quando ela se preparava para ir embora, ele a acompanhou até a porta da sala. Parou antes de abri-la e se virou para ela com uma expressão que Aline levaria semanas tentando decifrar — não era tristeza, não era orgulho, não era medo. Era algo mais antigo do que tudo isso.

"Se você escrever essa história até o fim," ele disse, com a voz baixa mas absolutamente firme, "você vai odiar o que vai encontrar. Eu só preciso saber se você vai escrever mesmo assim."

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