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Antes de Sermos

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Summary

Uma pessoa é definida pelo que sente hoje ou pelo que pode se tornar amanhã? Em um mundo onde os Ecos manifestam os sentimentos mais profundos de cada indivíduo, a sociedade acredita em uma verdade absoluta: o primeiro Eco nunca mente. Quando uma criança desperta um Eco destrutivo e provoca uma tragédia, sua execução é tratada como uma necessidade. Afinal, se o Eco revelou sua verdadeira natureza, o futuro já está decidido. Todos acreditam nisso. Todos, exceto Nara Valen.

Status
3mo ago
Chapters
2
Rating
n/a
Age Rating
16+

Liam

Uma pessoa é definida pelo que sente hoje ou pelo que pode se tornar amanhã?

Nara Valen nunca precisou se fazer essa pergunta, afinal, a resposta já era um consenso entre todos: o primeiro Eco nunca mente. No entanto, para Nara, essa certeza começou a desmoronar hoje.

Nara se esforça para passar pela multidão. Centenas de pessoas apertadas umas contra as outras, reunidas para presenciar a execução de um assassino. Ombros se chocam, vozes se sobrepõem, o ar parece pesado demais para respirar. Ao esbarrar em diversas pessoas, Nara finalmente consegue visão do sujeito.

Liam Verdan era... uma criança? Parecia ter por volta de 11 a 14 anos.

Ele tremia.

— Esse monstro assassinou três quartos de sua vila ao despertar um Eco de ódio e destruição. Em honra às vitimas e nossa nação, iremos executá-lo para que essa tragédia não se repita — Disse o agente da Permanência, em um tom de voz confiante e imponente. Como se estivesse dizendo um fato já comprovado há muito tempo.

— Por favor... — a voz do garoto falhou, rasgada por seu choro.

Ele olha para a multidão, mas sem levantar a cabeça completamente, cruzando olhares com Nara por um momento.

— Por favor, me ajuda! Eu não sou isso!

— Agora! — A fala de Liam é interrompida pela ordem de outro agente.

Logo em seguida, fogo.

As chamas se espalham rápido demais para ser real. A cabeça dele é tomada primeiro, em seguida o resto do corpo. Seu grito termina subitamente, como se tivesse sido interrompido no meio da existência.

Liam Verdan não está mais vivo.

Nara está em silêncio, não consegue se mover direito ou sequer piscar normalmente. A multidão ao seu redor grita, como se estivessem comemorando uma data importante, mas ela escuta abafado, como se houvessem algodões tampando seus ouvidos.

“Eu não sou isso”. Ecoou na mente dela. Ele realmente era um monstro? Por que ele não poderia se tornar uma boa pessoa? Apenas esse evento foi o suficiente para definir que ele seria um perigo para nós?

— Nara

Ele era só uma criança, sequer compreendia o mundo ao seu redor para fazer algo assim por pura maldade — Pensou ela

— Nara!

De repente o ambiente parece mais vazio, a multidão se tornou apenas algumas pessoas andando e fazendo suas atividades cotidianas. Uma mancha de queimadura marca o local onde Liam estava ajoelhado. Quanto tempo se passou?

— Nara! Você tá me ouvindo?!

Era Ren Aster, o melhor amigo de Nara. Ele a segura pelo pulso e a leva junto à ele para algum lugar.

— Você disse pra mim que iria estudar na biblioteca da academia hoje a tarde, você não foi e me preocupou. — Ren suspira, como alguém que acabou de terminar uma tarefa longa e exaustiva.

— Perdão... — Responde Nara, tentando o acompanhar, porém está abalada demais para se esforçar.

— Olha, eu sei que ficou triste que isso tenha acontecido com uma criança, mas não é como se a Permanência tivesse controle sobre os Ecos.

Ela não responde.

— A gente pode estudar amanhã, você precisa ir pra sua casa e descansar, hoje você não está muito bem.

Um silêncio toma o ambiente, como se ambos estivessem concentrados pensando muito em algo.

Após alguns minutos, Nara chega em sua casa com Ren, que se despede.

— Até amanhã, Nara, vê se não falta à primeira aula de novo.

— Até — Ela responde, fechando a porta e se virando em direção ao seu quarto.

A casa estava em um silêncio estranho, mas fazia sentido, Nara chegou mais tarde do que o costume, seus pais provavelmente estavam dormindo.

Ela entra em seu quarto e fecha a porta, ainda pensando sobre o ocorrido.

— Tem algo sobre isso tudo que me incomoda... — Ela diz para si mesma.

Nara deita em sua cama.

O quarto está quieto demais.

Ela fecha os olhos, mas o rosto de Liam volta toda vez que ela tenta apagar. A voz. O olhar. O fogo.

Ela vira de lado. Depois volta. O teto parece mais baixo do que deveria ser.

“Eu não sou isso.”

Bons minutos se passam sem ela perceber. Ou talvez nem esteja passando direito.

Após um bom tempo, ela finalmente dorme.

Ela desperta com os sons distantes de pessoas em suas atividades do lado de fora.

A luz do sol atravessa a janela, iluminando o quarto.

Um novo dia havia começado, e Nara mal sabia se havia só piscado ou realmente dormido.

Ela suspira, como se não tivesse dormido o suficiente.

Seus cabelos castanho-acinzentados caíam desalinhados em seus ombros, amassados pelo sono mal dormido. Ela passou os dedos entre os fios numa tentativa falha de arrumá-los

Ela se levanta e veste o uniforme da Academia. Um longo casaco cinza-escuro com detalhes em dourado encaixou naturalmente em seu corpo atlético, moldado por anos de treino. Como sempre, deixou a gravata frouxa e levantou as mangas. Ignorando os dois botões da gola.

Ela entra no banheiro e olha para o espelho, seus olhos cor de âmbar refletiram a luz em um brilho quase dourado. A pequena cicatriz cortando a sobrancelha esquerda continuava ali, discreta como sempre.

Em seguida passa pela cozinha, onde seus pais estão presentes, comendo.

— Bom dia Nara! Não vimos você chegar ontem, o que aconteceu? — Pergunta Auren Valen, o pai de Nara.

— Bom dia, pai. Não foi nada de mais, eu só não vi o tempo passar.

— Tudo bem, mas tome cuidado pra não acontecer de novo, ou pelo menos nos avise antes.

— Ok, eu vou me lembrar.

— Filha, eu preparei seu café da manhã e coloquei em cima do balcão, lembre-se de pegar antes de sair. — Disse Eira Valen, a mãe de Nara.

Nara se despede de seus pais e os abraça, passando pelo balcão e pegando seu café da manhã antes de partir em direção à academia.

A cidade estava estranhamente normal, como se o que aconteceu ontem fosse só mais um evento do cotidiano. Durante o caminho, ela pensa na possibilidade da Permanência estar errada, controlando o mundo com uma mentira.

Mesmo entre dezenas de estudantes, Ren era fácil de localizar. O seu cabelo castanho-escuro sempre parecia ter perdido uma briga com o pente, além da gravata torta e os bolsos ocupados com pincéis e pequenos cadernos que faziam parte de sua aparência tanto quanto o sorriso relaxado que tinha quase todos os dias.

Seus dedos ainda tinham pequenas manchas de tinta, apesar de claramente ter tentado limpá-las antes da aula.

— Bom dia, se sente melhor?

— Pode-se dizer que sim

— Não senti muita confiança, mas depois a gente conversa sobre isso. Vamos para a aula antes que você nos atrase de novo.

Os dois entram, andando pelos corredores quase vazios. A maior parte dos alunos já estão em aula. Dentro da sala, sons de conversas paralelas se sobrepondo. O professor se prepara na frente.

Nara se senta em sua cadeira de costume, porém mais desanimada do que o normal, mesmo que o dia-a-dia na academia realmente seja tedioso. Ren se senta do outro lado da sala.

— Como vocês sabem, um Eco reflete a essência do ser. — O professor Darius interrompe a todos na sala, iniciando a aula. — Alguém que alcance um forte sentimento de raiva e sede por exemplo, desperta um Eco maldito e está fadado a ser um assassino. Por isso, a Permanência existe para gerir nosso mundo e intervir em casos extremos como esse, nos protegendo.

Nara sequer está ouvindo direito, a mesma coisa chata de sempre. Mesmo que isso seja repetido todas as semanas para eles, ainda há pessoas que estão anotando isso no caderno. Chega a ser irritante.

— Como é uma habilidade adquirida com um despertar maldito? — Pergunta um aluno

— Essa é uma ótima pergunta! — Darius responde como se estivesse aguardando alguém o perguntar isso — Como um exemplo recente, Liam, ao ter seu despertar maldito, foi concedido a ele a habilidade de transformar sangue de outros em modificações temporárias para o próprio corpo. Por exemplo, ele poderia usar o sangue de outra pessoa para criar uma lâmina em seu braço, ou, se houver sangue o suficiente, até mesmo um membro adicional.

Todos os alunos fizeram uma expressão de surpresa, e a sala, antes silenciosa, agora era preenchida com sussurros por toda a parte. Com exceção de Ren, que preferia desenhar em seu caderno do que prestar atenção.

— Silêncio! — Darius interrompe, prosseguindo com a aula normalmente.

Após a aula, Ren e Nara se encontram nos corredores. Ela está comendo o café da manhã que sua mãe havia preparado.

— Vamos para a biblioteca? Já que ontem você não veio, podemos pagar essa dívida hoje.

— Tudo bem, só vou terminar de comer.

Ela termina seu café da manhã e os dois prosseguem para a biblioteca.

Ela está silenciosa como sempre. Há apenas uma pessoa ali.

Selene Voss, estava sentada, segurando um grande livro, completamente imóvel. Os longos cabelos pretos presos em um rabo de cavalo impecável desciam por suas costas sem um fio fora do lugar. Nem o uniforme parecia conhecer o que é desordem.

As luvas pretas que cobriam suas mãos tinham um contraste com sua pele extremamente clara, enquanto seus olhos cinza-prateados seguiam cada linha do livro com uma atenção irreal.

Nara não a odiava, inclusive tinha respeito por ela, mas por algum motivo ela a incomodava.

Os dois pegam um livro e se sentam, prontos para iniciar suas leituras.

No entanto, Selene os interrompe antes que possam começar.

— Você está diferente hoje, Nara. — ela diz, sem sequer tirar os olhos do livro que estava lendo

— O que quer dizer?

— Você prestou menos atenção na aula do que o normal.

— Estava pensando em outra coisa. — Nara volta seu olhar para o livro, almejando com que aquela conversa terminasse naquele momento

— Na execução?

Nara se surpreende.

— Como você sabe?

— Porque metade da Academia está falando disso.

— Eu poderia dizer que está escrito no seu rosto, Nara. — complementa Ren, que até o momento estava apenas ouvindo.

Selene fecha o livro.

— E porque você parece alguém tentando encontrar uma resposta que não existe.

Nara se lembrou do porquê Selene a irritava.

A forma com que ela fazia parecer com que sabia de tudo era exaustiva de se conviver.

— E se existir?

— Então a Permanência já teria encontrado.

Nara, sem responder, volta a ler seu livro.

— Ren.

— Oi? — Ren pausa sua leitura, esperando a resposta de Nara.

— Eu preciso descobrir a verdade sobre os Ecos e o caso do Liam. — Nara fecha seu livro, convicta do que deve fazer a partir de agora.

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