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Linhagem de sangue: A herdeira da lua

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Summary

Durante vinte anos, Lyra acreditou ter sido apenas uma órfã criada entre os muros sagrados do Templo da Lua. Na noite do Eclipse de Sangue, tudo muda. Nas profundezas de uma cripta proibida, um deus aprisionado nas sombras pronuncia seu nome como se a esperasse havia uma eternidade. Uma marca desperta em sua pele. Uma antiga relíquia escondida há séculos a escolhe diante de todo o Círculo de Sacerdotisas. Agora, toda Elaria acredita que ela é a lendária Herdeira da Lua. Enquanto reis enviam exércitos para encontrá-la, antigos deuses observam através das sombras e uma guerra silenciosa começa a tomar forma, Lyra é obrigada a abandonar o único lugar que chamou de lar. Guiada por um misterioso Deus das Sombras, perseguida pelo implacável capitão Kael e carregando a primeira das cinco relíquias divinas, ela iniciará uma jornada pelos reinos de Elaria em busca da verdade por trás de uma profecia capaz de libertar... ou condenar o mundo. Porque algumas prisões foram construídas pelos próprios deuses. E algumas verdades permaneceram enterradas por milhares de anos.

Status
Ongoing
Chapters
4
Rating
n/a
Age Rating
13+

Capítulo 1 — Antes do Eclipse

Os mortais costumam acreditar que grandes histórias começam com guerras, coroas partidas ou profecias gritadas diante de multidões assustadas.

Estão errados.

As grandes histórias quase sempre começam em silêncio.

Começam em uma pergunta que ninguém deseja responder. Em uma porta proibida. Em uma criança deixada diante de um templo, envolta em um cobertor azul, enquanto a chuva apaga todos os rastros de quem a abandonou.

Eu vi aquela criança. Vi também a jovem em que ela se tornou. E vi, antes de todos, o momento exato em que o mundo começou a ruir ao seu redor.

Mas naquela manhã, Lyra Valen ainda não sabia disso, ela apenas corria.

O Templo da Lua erguia-se no alto das montanhas de Asterion, branco e antigo, com torres finas que pareciam tocar as nuvens. Suas paredes eram feitas de mármore claro, marcadas por símbolos lunares entalhados havia tantos séculos que nem mesmo as sacerdotisas mais velhas sabiam traduzir todos eles.

Ao redor do templo, jardins suspensos floresciam sobre os penhascos. Flores lunares cobriam os caminhos de pedra, suas pétalas azuladas brilhando mesmo sob a luz dourada do sol. Pequenos canais de água cristalina atravessavam os pátios, refletindo os vitrais prateados e as estátuas dos cinco deuses de Elaria.

Era um lugar sagrado. Um lugar de oração, onde silêncio e disciplina deveriam reinar.

Por isso, é claro, Lyra corria pelos corredores carregando pergaminhos roubados.

— Lyra Valen! — gritou uma voz atrás dela. — Se você não parar agora, eu juro pela Lua que vou colocar raiz amarga no seu chá!

Lyra olhou por cima do ombro e sorriu.

Ela tinha vinte anos, cabelos castanho-escuros quase negros, longos e ondulados, presos de qualquer jeito por uma fita branca que já se soltava. Sua pele tinha um tom dourado de quem passava mais tempo nos jardins do que dentro das salas de estudo. Os olhos, porém, eram o que todos notavam primeiro. Prateados, não cinzentos, não azulados. Prateados como a superfície da lua refletida na água.

— Isso seria uma atitude muito cruel para uma aprendiz de curandeira! — respondeu Lyra, apertando os pergaminhos contra o peito.

Atrás dela, Elara tentava acompanhá-la.

Elara era mais baixa, de rosto delicado, pele clara coberta por sardas e cabelos ruivos presos em uma trança grossa que balançava sobre o ombro. Seus olhos verdes estavam estreitados em uma mistura de raiva e preocupação.

— Eu sou aprendiz de curandeira, não santa!

Lyra riu e saltou dois degraus de uma vez.

— Tecnicamente, eu não roubei. Peguei emprestado.

— Enquanto eu dormia!

— Você dorme profundamente. Isso é uma falha de segurança.

— Você é uma falha de segurança!

Algumas noviças que carregavam cestos de linho se afastaram quando Lyra passou por elas. Uma tentou esconder o riso. A outra arregalou os olhos, horrorizada.

Lyra atravessou o corredor principal, onde mosaicos antigos retratavam os deuses de Elaria. Selene, a Deusa da Lua, aparecia cercada por estrelas e cervos prateados. Solarys, Deus do Sol, erguia uma espada flamejante. Nerion, Deus das Marés, surgia envolto por ondas. Thoran, Deus das Montanhas, tinha as mãos apoiadas sobre rochas partidas.

E Moravth, Deus das Sombras, era sempre retratado à parte. O rosto coberto por um capuz escuro. Um corvo negro pousado no ombro. Os olhos sombrios voltados para quem passava.

Lyra diminuiu o passo sem querer, desde criança, sentia que aquele mosaico a observava.

— Ah, não — Elara disse, ofegante, finalmente alcançando-a. — Não me diga que vai usar o Deus das Sombras como desculpa de novo.

Lyra piscou e voltou a si.

— Eu nunca usei Moravth como desculpa.

— Você já disse que ele derrubou um vaso que você quebrou.

— Eu tinha oito anos.

— Você tinha dezesseis.

Lyra abriu a boca, mas desistiu de responder.

Elara estendeu a mão.

— Os pergaminhos.

Lyra apertou-os contra o peito.

— Só mais alguns minutos.

A expressão de Elara mudou. A irritação deu lugar a algo mais brando.

— Lyra...

Aquele tom era pior que qualquer bronca.

Lyra desviou o olhar.

— Hoje faz vinte anos.

Elara ficou em silêncio.

Ao redor delas, o templo seguia em movimento. Sacerdotisas passavam com jarros de água lunar. Noviças limpavam lamparinas de prata. O aroma de incenso, flores e pedra fria preenchia o corredor.

Mas entre as duas, por um instante, tudo pareceu parar.

— Vinte anos desde que me encontraram no portão leste — Lyra continuou. — Achei que talvez houvesse algo nos registros. Alguma anotação esquecida. Um nome. Uma vila. Qualquer coisa.

Elara suspirou.

— Você já leu esses registros muitas vezes.

— Talvez eu tenha deixado passar alguma coisa.

— Você não deixou.

Lyra engoliu em seco.

Era isso que mais doía. Não a ausência de respostas, mas a possibilidade de que realmente não houvesse nenhuma. Lyra odiava não saber de onde vinha, sua real origem até ser abandonada.

Além de Lyra todas as demais noviças entraram na ordem após os 15 anos, era nessa idade que a bênção da deusa despertava, revelando qual aspecto da Lua habitava em cada uma delas.

Algumas manifestavam a Luz Prateada, capazes de criar pequenos portais entre reinos. Outras recebiam o Dom dos Sonhos, enxergando fragmentos do futuro ou caminhando pelos sonhos alheios enquanto dormiam.

Havia aquelas ligadas às Marés, capazes de mover água com um simples gesto ou sentir a aproximação de tempestades antes mesmo que as nuvens surgissem no horizonte. As Filhas das Estrelas dominavam a energia capazes de erguer escudos ou armas de luz. As Filhas da Névoa podiam convocar brumas densas e desaparecer entre elas como fantasmas.

Já as Curandeiras carregavam o poder mais respeitado do templo, restaurando feridas e afastando doenças com o toque das mãos.

Era assim que Selene demonstrava sua graça, abençoando uma mulher com dons e todas eram enviadas ao templo da Lua para receber o treinamento completo, mas apenas as curandeiras tinham permissão de retornar ao seu reino de origem.

Com Lyra não foi assim e mais uma vez lendo o seu registro do templo, sua chegada ocupava poucas linhas, apenas mencionava que ela foi encontrada diante do portão leste com aproximadamente três meses de idade. Sem família conhecida ou reino de origem. Sem testemunhas. Trazia consigo um medalhão lunar e nada mais.

— Eu só queria saber de onde vim — Lyra murmurou.

Elara se aproximou e tomou os pergaminhos de suas mãos, mas sem brusquidão.

— Eu sei.

— Sabe?

— Sei. Mas se machucar todos os anos não vai fazer as respostas aparecerem.

Lyra tentou sorrir.

— Você está muito sábia hoje.

— Alguém precisa compensar a sua falta de juízo.

Lyra riu baixo.

Elara também sorriu, mas o sorriso desapareceu quando Lyra olhou para fora, além dos arcos do corredor.

O jardim interno se abria diante delas.No centro, havia um lago pequeno e perfeitamente circular. A água era tão límpida que refletia o céu, as torres e as flores lunares ao redor.

Lyra caminhou até a beira. Havia algo estranho naquela água. Ela se inclinou.

O lago refletia as nuvens. As colunas. Elara atrás dela. Mas não refletia Lyra.

Seu coração falhou uma batida. Ela piscou várias vezes. Então sua imagem voltou. Como se jamais tivesse desaparecido.

— Lyra? — Elara perguntou. — O que foi?

Lyra permaneceu imóvel.

— Você viu isso?

— Vi o quê?

A jovem encarou a própria imagem refletida. Os olhos prateados a encaravam de volta.

— Nada — mentiu.

Elara franziu a testa.

— Você ficou pálida.

— Foi só a luz.

— Lyra.

Antes que Elara pudesse insistir, um sino tocou.

Uma vez.

O som atravessou o templo inteiro, grave e profundo.Depois tocou outra.E outra.

Lyra sentiu o som vibrar dentro dos ossos.

As sacerdotisas pararam onde estavam. Uma noviça deixou cair um pano molhado. Em algum lugar distante, uma porta se fechou depressa.

Elara empalideceu.

— Convocação do Círculo.

— O que isso significa?

— Todas as sacerdotisas no Salão da Lua. Agora!

— Não me lembro se isso já aconteceu ou aconteceu?

Elara olhou para ela.

— Nunca aconteceu desde que nascemos.

O sino tocou novamente.Dessa vez, Lyra sentiu frio.

As duas seguiram com as demais mulheres em direção ao centro do templo. Os corredores ficaram mais silenciosos à medida que avançavam. As paredes ali eram mais antigas, iluminadas por lamparinas azuladas. Símbolos lunares cobriam as pedras. Alguns pareciam suaves. Outros pareciam avisos.

O Salão da Lua era o coração do templo. Circular, imenso, com uma cúpula de cristal encantado que permitia ver o céu mesmo durante o dia. No chão, um mosaico representava as fases da lua em prata, azul e branco. No centro, uma lua cheia era cercada por cinco estrelas.

Lyra e Elara ficaram próximas a uma coluna entalhada com cervos lunares.

— O que está acontecendo? — Lyra sussurrou sempre curiosa.

— Não faço a menor ideia.

— Mas está assustada.

— Isso não ajuda?

— Nem um pouco.

O salão silenciou quando a Sacerdotisa Suprema Selara entrou.

Selara era alta e esguia, com cabelos completamente brancos que caíam lisos até a cintura. Sua pele era clara, quase sem marcas, mas seus olhos azul-pálidos pareciam carregar séculos de cansaço. Vestia uma túnica prateada bordada com fios finos, e segurava um cajado de prata com uma pedra leitosa no topo.

Atrás dela vinham três mulheres do Círculo Interno.

Madre Ione, baixa, de pele negra retinta, cabelos grisalhos curtos e olhos castanhos severos. Madre Calista, alta, loira, de olhos verdes gentis e expressão sempre triste. E Madre Vesna, de pele oliva, cabelos negros trançados com contas de prata e olhos escuros que pareciam enxergar coisas que ninguém mais via.

Selara parou no centro do mosaico.O cajado tocou o chão e o som ecoou.

— Filhas de Selene — disse ela. — Fomos convocadas porque algo mudou.

Um murmúrio percorreu o salão.

Selara ergueu a mão, e todas se calaram.

— Durante nas últimas noites, os espelhos lunares escureceram. Três portais menores deixaram de responder. E essa noite as flores lunares do jardim oeste murcharam antes do amanhecer.

Lyra sentiu Elara prender a respiração.

— Flores lunares não murcham — a amiga sussurrou.

Selara continuou:

— Dentro de menos deum ciclo lunar, haverá um eclipse.

Por um instante, Lyra não entendeu o medo no rosto das sacerdotisas, os eclipses eram raros, mas existiam.

Então Madre Vesna deu um passo à frente.

— Analisando as antigas escrituras, não será um eclipse comum, com certeza será um.... — houve uma pausa e Madre Vesna continuou — um Eclipse de Sangue.

O salão inteiro pareceu perder o ar.Lyra olhou ao redor.Mulheres adultas, sacerdotisas treinadas, noviças disciplinadas. Todas pareciam assustadas.

Madre Ione falou em seguida:

— O último Eclipse de Sangue aconteceu há mil anos.

Selara fechou os dedos ao redor do cajado.

— Na noite em que os deuses desapareceram de Elaria.

O silêncio que caiu depois daquelas palavras foi tão profundo que Lyra ouviu a própria respiração.

Desde criança, ouvira histórias sobre o desaparecimento dos deuses. Algumas diziam que eles haviam se tornado serem mesquinhos. Outras, que tinham abandonado os mortais. Outras, ditas apenas em sussurros, afirmavam que haviam sido traídos. Porém sempre que ouvia essas historias Lyra se sentia incomodada, como se estivessem contando uma mentira.

Mas todas concordavam em uma coisa.Depois daquela noite a mil anos, Elaria nunca mais fora o mesmo.

— A partir deste momento — Selara declarou —, nenhum portal será aberto sem autorização do Círculo. Nenhuma noviça deixará o templo. Nenhuma mensagem será enviada aos reinos sem passar por mim.

Lyra apertou os punhos.

Proteção, pensou.

Sempre chamavam de proteção quando queriam transformar o medo em ordem.

Antes que pudesse se conter, ergueu a mão.

Elara arregalou os olhos.

— Lyra, não...

Tarde demais.

Selara olhou para ela.

— Fale, Lyra.

Todas as cabeças se voltaram.

Lyra sentiu o rosto aquecer, mas manteve a voz firme.

— Se o último Eclipse de Sangue foi tão importante, por que nunca nos ensinaram isso nas aulas comuns?

Madre Ione endureceu a expressão.

— Existem assuntos que exigem maturidade espiritual.

— Tenho vinte anos, cresci aqui.

— Idade não é sinônimo de maturidade - rebateu Madre Ione com uma sobrancelha levantada encarando Lyra.

Algumas noviças abaixaram o olhar e se ouviu algumas risadinhas.

Lyra sentiu a humilhação arder, mas não recuou.

— Talvez. Mas se há perigo, deveríamos saber mais, não menos.

O silêncio tornou-se pesado.

Selara observou Lyra por alguns segundos.

Havia algo em seus olhos.Não era raiva, sim medo.

— Sua pergunta é justa — disse a Sacerdotisa Suprema.

Madre Ione pareceu surpresa.

Selara caminhou lentamente pelo centro do mosaico.

— Há verdades que protegem. E há verdades que destroem antes de serem compreendidas.

Lyra sustentou o olhar dela.

— E quem decide a diferença?

Dessa vez, o silêncio pareceu perigoso.

Selara demorou a responder.

— Aqueles que sobreviveram às consequências.

Lyra não soube o que dizer.

Pela primeira vez, Selara não parecia apenas uma líder rígida.Parecia uma mulher cansada de guardar algo que a consumia por dentro.

A reunião continuou, mas Lyra quase não ouviu. Pensava no lago. No reflexo desaparecido. Nos espelhos escurecidos. No eclipse. Nas flores mortas.

Quando tudo terminou, as sacerdotisas começaram a sair em silêncio.Lyra tentou acompanhar Elara, mas a voz de Selara a deteve.

— Lyra Valen.

Ela parou.

O salão ainda estava cheio o bastante para que várias pessoas olhassem.

Selara permaneceu no centro do mosaico, o cajado firme diante de si.

— Venha comigo. Preciso falar com você a sós.

Elara segurou a mão de Lyra por um segundo, com o gesto dizendo cuidado.

Lyra respirou fundo e deu um passo à frente.

Acima delas, através da cúpula de cristal, o céu parecia claro. Mas eu vi a sombra que passava por trás da luz. E soube, naquele instante, que a primeira porta acabara de se abrir.

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