Nada Entre Nós Era Só Amizade by Batistad at Inkitt
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Nada Entre Nós Era Só Amizade

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Summary

Melissa Oliveira e Kaique Mendes são melhores amigos há anos, mas nunca foram apenas isso. Entre relacionamentos fracassados, traumas antigos e silêncios perigosos, os dois construíram uma intimidade que sempre pareceu segura demais para ser arriscada e intensa demais para ser chamada de amizade. Ela escolhe homens totalmente diferentes dele para não admitir a verdade. Ele se esconde atrás do papel de amigo porque acredita não ser digno dela. O problema é que o corpo não mente, o ciúme cresce, o desejo explode e o amor, por mais reprimido que esteja, sempre encontra um jeito de cobrar seu espaço. Quando a linha entre amizade e paixão é finalmente atravessada, Melissa e Kaique precisam enfrentar não apenas o que sentem um pelo outro, mas também as feridas que os ensinaram a fugir do amor antes mesmo de serem abandonados. Entre encontros desastrosos, segredos, recaídas, desejo emocional, separações dolorosas e uma reconciliação arrebatadora, essa é a história de duas pessoas que passaram anos se amando em silêncio até descobrirem que nada entre elas era pequeno, casual ou seguro. Porque algumas histórias não começam com “eu te amo”. Começam muito antes, no lugar exato onde duas almas se reconhecem e passam a vida inteira tentando chamar de amizade o que sempre foi destino.

Genre
Romance
Author
Batistad
Status
Complete
Chapters
39
Rating
n/a
Age Rating
16+

Capítulo 1 — O lugar onde eu sempre volto

Melissa

Existe um tipo específico de cansaço que não vem do corpo.

Vem de sorrir na hora certa. De responder “tá tudo bem” com a voz firme. De deixar que homens previsíveis me busquem na porta de casa, elogiem meu vestido, paguem o jantar e me levem de volta antes da meia-noite como se delicadeza fosse suficiente para preencher o que falta.

Nunca é.

Eu descobri cedo demais que existem vazios que não se resolvem com educação, estabilidade ou beijos mornos na despedida. Existem ausências que se instalam na pele como uma segunda respiração. Você aprende a viver com elas. Aprende a trabalhar, rir, sair com as amigas, escolher roupas bonitas, postar fotos boas, aceitar convites. Aprende até a parecer feliz.

Mas parecer e ser nunca foram a mesma coisa.

Naquela sexta-feira, enquanto eu me olhava no espelho do meu quarto tentando decidir se o problema era o vestido preto ou o meu rosto dentro dele, pensei que talvez o defeito estivesse em mim. Não de um jeito dramático, desses que pedem trilha sonora triste e chuva na janela. De um jeito mais silencioso. Mais honesto. Talvez eu só fosse incapaz de sentir aquilo que todo mundo parecia sentir com tanta facilidade.

Empolgação. Interesse. Expectativa.

Meu celular vibrou em cima da cama.

Caio: Tô chegando em dez minutos.

Olhei para a mensagem como se ela pudesse, por algum milagre, provocar alguma reação em mim. Um frio na barriga. Um sorriso involuntário. Qualquer coisa.

Nada.

Soltei o ar devagar e me inclinei para pegar o perfume em cima da cômoda. Borrifei no pescoço, nos pulsos, no espaço inútil entre os seios que vestido nenhum e homem nenhum tinham conseguido transformar em promessa. O cheiro doce e quente subiu no ar, envolvente demais para uma noite que eu já sabia como terminaria.

Jantar agradável. Conversa razoável. Algumas perguntas certas. Nenhuma vontade real de ficar.

A campainha tocou.

Eu fechei os olhos por um segundo.

E, como quase sempre acontecia quando eu estava prestes a entrar em mais um encontro condenado desde o início, pensei nele.

Kaique.

Não como um nome. Como um reflexo.

Foi automático. Uma espécie de mecanismo cruel do meu corpo: toda vez que algo me decepcionava antes mesmo de começar, era nele que eu pensava. No jeito como a minha respiração mudava só de ouvir a voz dele do outro lado da linha. Na facilidade indecente com que ele arrancava uma risada minha nos dias ruins. Na forma como sempre parecia me encontrar antes mesmo que eu admitisse estar perdida.

Kaique era o lugar onde eu sempre voltava.

Mesmo quando eu fazia de tudo para não voltar.

Desci as escadas tentando empurrar aquele pensamento para algum canto menos perigoso da cabeça. Abri a porta com um sorriso educado e encontrei Caio do lado de fora, camisa azul, perfume amadeirado, mãos enfiadas no bolso da calça como se estivesse ensaiando parecer casual.

Ele me olhou de cima a baixo e sorriu.

— Uau. Você tá linda.

— Obrigada.

E eu estava mesmo. Não no sentido arrebatador. Não no sentido cinema. Mas bonita o suficiente para a noite correr sem sustos. Cabelo solto em ondas leves, boca rosada, o vestido ajustado exatamente onde precisava. Eu sabia me montar bem. Sabia ser interessante, gentil, disponível na medida certa. Sabia ser a mulher que os homens levavam para jantar e elogiavam para os amigos.

Só não sabia ser a mulher que permanecia.

— Pronta? — ele perguntou.

Assenti.

Entrei no carro dele, coloquei o cinto e observei as luzes da rua escorrendo pela janela enquanto ele falava alguma coisa sobre trânsito, trabalho e um cliente particularmente insuportável. Eu respondia no tempo certo, com as palavras certas, e me ouvia de fora como se estivesse assistindo a uma personagem muito bem construída representar o papel de alguém emocionalmente funcional.

Talvez essa fosse a pior parte.

Eu era boa nisso.

Boa em parecer presente. Boa em parecer aberta. Boa em parecer disponível para uma história que, no fundo, eu nunca deixava começar de verdade.

Porque sempre havia uma comparação, mesmo quando eu não queria.

Um gesto pequeno. Um silêncio. Uma risada no momento errado.

E de repente nenhum homem à minha frente era exatamente ruim. Eles só não eram ele.

O restaurante era bonito, intimista, com luz baixa e música suave demais para o meu humor. Caio puxou a cadeira para mim, esperou que eu me sentasse, pediu vinho sem perguntar se eu preferia outra coisa e começou a falar sobre viagens que queria fazer nos próximos meses.

Eu o observei enquanto ele movia as mãos com cuidado, alinhava os talheres, sorria com segurança. Era o tipo de homem que qualquer pessoa sensata descreveria como uma boa escolha.

Bonito. Estável. Atencioso.

Seguro.

E talvez esse fosse o problema.

Segurança nunca fez meu coração disparar. Nunca me desmontou por dentro. Nunca me deixou sem ar com um simples olhar atravessando o cômodo.

Segurança não tinha os olhos de Kaique.

O pensamento veio tão nítido que precisei levar a taça à boca para disfarçar.

— Você tá me ouvindo? — Caio perguntou, sorrindo de leve.

— Tô, sim. Desculpa. Só me distraí.

— Comigo acontece também. Principalmente quando a companhia vale a pena.

Sorri de volta, porque era isso que se fazia. Porque ele merecia gentileza. Porque o problema nunca era exatamente o homem sentado à minha frente. O problema era a parte de mim que permanecia fechada, trancada, ocupada demais por uma presença que nem estava ali.

A noite avançou sem acidentes. Falamos sobre filmes, séries, trabalho, infância. Ele contou histórias engraçadas. Eu ri nas partes certas. Em algum momento ele tocou minha mão sobre a mesa, e eu senti aquela velha ausência passar por mim como um vento frio em casa vazia.

Nada.

Nenhum arrepio. Nenhuma combustão. Nenhuma vontade de entrelaçar os dedos e descobrir o resto.

Só a percepção nítida, quase cruel, de que eu estava de novo tentando encaixar meu coração em um lugar que não era o dele.

Quando saímos do restaurante, a cidade estava úmida da chuva que tinha caído mais cedo. O asfalto brilhava sob os postes, e o ar da noite trazia aquele cheiro de concreto molhado que sempre me deixava estranhamente vulnerável.

Caio parou diante do carro, se virou para mim e sorriu daquele jeito ensaiado de homem que acredita ter lido os sinais certos.

— Eu gostei de hoje.

— Eu também — menti com delicadeza.

Ele se aproximou um pouco.

Não muito. O suficiente para me dar tempo de recuar se eu quisesse. Educado até nisso.

Talvez por educação eu tenha permanecido imóvel.

Talvez por cansaço.

Talvez porque às vezes é mais fácil deixar acontecer do que explicar por que não.

Os lábios dele tocaram os meus de leve. Sem pressa. Sem invasão. Sem erro.

Mas também sem verdade.

Beijá-lo foi como tentar acender um fósforo já molhado.

Houve o gesto. Não houve chama.

Quando ele se afastou, continuava sorrindo como se não tivesse percebido que beijara uma porta fechada.

— Posso te ver amanhã? — perguntou.

Eu devia ter dito não. Devia ter poupado o tempo dele, o meu, a repetição exausta de uma história que eu conhecia do início ao fim.

Mas olhei para o rosto gentil à minha frente e respondi:

— Me manda mensagem.

Covardia também pode vestir delicadeza.

No caminho de volta para casa, fui em silêncio. Caio ligou o rádio, comentou qualquer coisa sobre o cantor, me perguntou se eu estava cansada. Eu disse que sim. Dessa vez, ao menos, era verdade.

Quando ele estacionou diante da minha casa, agradeci pela noite, esperei o boa-noite, abri a porta e saí sem olhar para trás. O salto bateu na calçada com um som seco. A chave escapou um pouco da minha mão antes de encontrar a fechadura.

Entrei.

Fechei a porta.

Encostei as costas nela.

E fiquei ali.

Imóvel. Sozinha. Com aquela sensação insuportável de ter acabado de atravessar mais uma noite inteira para voltar exatamente ao mesmo ponto de sempre.

A casa estava em silêncio. Minhas tias viajavam, então o vazio parecia maior. Mais honesto. Tirei os sapatos no meio da sala, deixei a bolsa no sofá e caminhei até a cozinha sem acender todas as luzes. Abri a geladeira, peguei água, dei dois goles longos e encarei meu reflexo escuro na janela.

Bonita. Arrumada. Desejável o suficiente para ser convidada. Não inesquecível o suficiente para ser escolhida.

A frase surgiu sem ser chamada, e eu senti o peito apertar.

Porque a verdade nunca foi que aqueles homens não gostavam de mim. Alguns gostavam. Alguns até poderiam gostar bastante, se eu deixasse. A verdade era pior.

Eu nunca conseguia entregar o que neles eu exigia.

Presença inteira. Desejo inteiro. Coração inteiro.

Porque a parte mais funda de mim já tinha dono, mesmo sem acordo, sem promessa, sem beijo, sem nome.

Kaique.

Falar esse nome dentro da minha cabeça era como tocar numa ferida e, ao mesmo tempo, num lugar de paz. Uma contradição indecente. Ele era a coisa mais segura da minha vida e também a mais perigosa.

Meu melhor amigo.

Meu porto.

Meu erro mais antigo.

Kaique sabia quando eu mentia pelo som da minha respiração. Sabia quando eu tinha chorado, mesmo que eu dissesse que estava resfriada. Sabia que eu odiava cebola crua, que eu dormia com um travesseiro entre os braços, que eu passava a língua no canto da boca quando estava nervosa e que os meus silêncios quase nunca significavam calma.

Ele sabia tudo.

Talvez mais do que devia.

Talvez mais do que qualquer homem algum dia soubesse.

E eu também sabia dele. Sabia do sorriso torto que aparecia quando ele estava desconfortável. Das piadas que ele fazia para fugir de conversas sérias. Do jeito como fingia leveza quando alguma coisa doía demais. Das noites em que me ligava só para ouvir minha voz, sem admitir que precisava disso. Dos vazios que ele escondia sob a fama conveniente de homem que não se apega.

O mundo via o charme. Eu via as rachaduras.

E talvez fosse exatamente esse o problema.

Não existe salvação para uma mulher que conhece o pior de um homem e, ainda assim, se sente em casa nele.

Meu celular vibrou sobre a bancada.

Olhei a tela.

E meu coração, traidor, fez aquilo que não fizera a noite inteira.

Disparou.

Kaique: Sobreviveu ao date ou preciso esconder um corpo?

Eu ri.

Foi involuntário. Instantâneo. Tão verdadeiro que quase doeu.

Encostei os quadris na bancada e respondi sem pensar demais.

Eu: Ainda não decidi.

A resposta veio em segundos.

Kaique: Esse “ainda” me preocupa.

Mordi o canto da boca, sentindo o calor familiar subir devagar pelo peito. Não era só porque ele mandava mensagem. Era porque ele sempre aparecia no ponto exato entre o meu cansaço e a minha queda. Como se algum fio invisível o puxasse para mim toda vez que eu começava a afundar.

Eu: Foi ruim.

Dessa vez, ele demorou um pouco mais. Imaginei o momento em que estaria lendo, a testa franzida, talvez deitado no sofá do apartamento dele, talvez passando a mão no maxilar daquele jeito que eu conhecia bem demais.

Kaique: Quer que eu vá aí?

Fechei os olhos.

A pergunta parecia simples. Sempre foi simples entre nós. Anos de amizade tinham transformado esse tipo de coisa em rotina. Pizza às duas da manhã. Ligações sem motivo. Silêncios compartilhados. Presença sem cerimônia. Kaique entrando na minha casa como quem reconhece território. Eu entrando na vida dele como quem já tinha a chave, mesmo sem nunca precisar dela.

Mas naquela noite, por alguma razão, as palavras na tela pareceram maiores.

Quer que eu vá aí?

Quer.

A resposta apareceu inteira no meu corpo antes de chegar à minha cabeça.

Quero.

Quero porque você é o único lugar onde meu peito desacelera.

Quero porque nenhum beijo hoje chegou perto do que um abraço seu faria comigo agora.

Quero porque estou cansada de voltar vazia para casa e fingir que isso não significa nada.

Quero porque é sempre você.

Mas digitei:

Eu: Pode vir.

Simples. Inofensivo. Mentiroso.

Larguei o celular sobre a bancada e levei a mão ao peito, como se pudesse acalmar a batida descompassada com os dedos. Não dava. Nunca dava quando o assunto era Kaique.

Fui até o espelho da sala e me encarei outra vez. O batom já tinha saído quase todo. O cabelo estava um pouco desfeito. Havia alguma coisa mais honesta em mim agora, sem o esforço do encontro, sem a obrigação de parecer interessada.

Com ele, eu nunca precisava parecer.

Talvez fosse isso que mais me destruía.

Kaique me conhecia no meu pior. Na exaustão, na raiva, no ciúme feio das pequenas coisas, na insegurança que eu escondia até de mim mesma. Ele conhecia a versão de mim que não rendia boas fotos nem bons primeiros encontros. E ainda assim sempre voltava.

Ou talvez eu fosse a que sempre voltava.

Ou nós dois.

Olhei para a porta fechada da sala e senti aquela velha certeza se acomodando dentro de mim com a familiaridade de uma dor antiga.

Eu podia sair com homens bonitos, estáveis, possíveis. Podia insistir em histórias seguras. Podia repetir para mim mesma que amizade era suficiente, que algumas linhas existiam por uma razão, que querer alguém não obrigava o destino a concordar.

Podia.

Mas nenhuma dessas mentiras mudava o essencial.

Quando o mundo me cansava, quando a vida doía num lugar sem nome, quando eu me sentia invisível até para mim mesma, era para Kaique que tudo em mim corria.

Sempre tinha sido.

E, no fundo, acho que parte de mim já sabia que isso não era só amor.

Era perigo.

A campainha tocou.

Meu coração parou por um segundo.

Depois recomeçou mais forte.

E eu entendi, com uma lucidez quase cruel, que havia homens com quem eu saía para tentar esquecer o que sentia.

E havia Kaique Mendes.

O único homem de quem eu sempre voltava querendo mais.

Chapters
1. Capítulo 1 — O lugar onde eu sempre volto
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