Prólogo
O diagnóstico do destino
O som rítmico das esteiras e o choque metálico das anilhas eram os únicos ruídos que preenchiam o silêncio mental de Eduardo. Para ele, o exercício não era estética; era uma tentativa desesperada de exaurir o
corpo até que a mente parasse de gritar o nome dela.
Já se passaram dois anos. Setecentos e trinta dias procurando um rastro que o tempo — ou talvez um novo sobrenome — insistia em apagar. Ele a buscou em cada prontuário, em cada corredor de hospital, em cada congresso de nutrição, mas Leyla havia se tornado uma miragem.
De passagem pela cidade para uma palestra, a academia do hotel era seu último refúgio contra a insônia que o corroía. Foi então que o mundo estancou.
Próximo à área de alongamento, uma mulher prendia o cabelo em um rabo de cavalo. O movimento — os braços erguidos, a nuca exposta — foi um gatilho violento. Era exatamente o que ela fazia antes de entrar na cozinha para preparar algo para eles. Mas o que travou a respiração de Eduardo não foi apenas o déjà-vu. Foi o que estava diante dela.
Um menino, que parecia ter um ano de idade, tentava caminhar em sua direção com um sorriso que parecia roubado das fotos de infância de Eduardo. O garoto segurava uma maçã, as perninhas ainda instáveis, gritando: — Ma-ma!
— Leyla? — A voz dele saiu como um estilhaço de vidro, rouca, quase irreconhecível.
Ela congelou. O tempo pareceu se dilatar. Quando ela se virou, os olhos cor de mel que ele tanto perseguiu nos seus sonhos encontraram os dele. Eduardo sentiu um soco no estômago ao ver o brilho do ouro em seu dedo anelar. Uma aliança. Mas o que realmente o feriu foi o olhar dela: não era saudade, era um pânico visceral.
— Eduardo… — sussurrou. Instintivamente, ela deu um passo à frente do menino, um gesto de proteção que dizia mais do que mil palavras. Ela o estava escondendo.
Eduardo não conseguia desviar o olhar da criança. O cálculo médico em sua mente foi instantâneo, frio e devastador. A última noite antes da viagem de tese... as semanas de gestação... o desenvolvimento motor daquele menino. A matemática fechava com uma precisão que o fazia querer vomitar de angústia.
— Ele tem os meus olhos, Leyla — a voz dele agora era uma lâmina, embora por dentro ele estivesse desmoronando. O coração batia contra as costelas como se estivesse em uma sala de trauma tentando ressuscitar a própria vida. — E ele tem um pouco mais de um ano, não tem?
Leyla hesitou, a respiração curta, superficial. Ela olhou para o filho, buscando forças, e depois para o homem que ela tentou enterrar no passado. — O nome dele é Théo — ela finalmente disse, a voz embargada
pelo choro contido. — Que coincidência te ver por aqui...
— Não se atreva a chamar isso de coincidência — ele a cortou, sentindo as lágrimas queimarem a borda dos olhos. — Por onde você andou? Como pode sumir e reaparecer casada, com um filho que é o meu retrato? Você tem ideia de como eu fiquei? De como cada plano que eu fiz foi transformado em cinzas porque você simplesmente evaporou?
Num impulso de fuga, ela pegou Théo no colo. O menino, confuso com a tensão, escondeu o rosto no pescoço da mãe. Leyla girou em direção à saída, mas Eduardo a segurou pelo braço. O toque, antes familiar e doce, agora era carregado de urgência e mágoa.
— Aonde você pensa que vai? Precisamos conversar. Agora.
— Eu sei... eu sei que precisamos — ela admitiu, as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos cílios. — Mas não aqui. Eu estou com a minha família. Meu marido está no quarto.
“Marido”. A palavra ecoou nos ouvidos de Eduardo como um diagnóstico terminal. Ele se aproximou o suficiente para sentir o cheiro de sabonete infantil que vinha da criança. Seu corpo todo estremeceu; era uma mistura de amor instantâneo por aquele ser e um ódio gélido pela mulher que o privou disso.
Ele pegou o celular dela,as mãos tremendo levemente. Anotou seu número com dedos pesados. — Quarto 3212 — disse ele, encarando-a com uma frieza que escondia o caos interno. — Eu vou esperar até as 20:00. Se você não aparecer, eu juro pela minha carreira que vou revirar cada centímetro desta cidade até te achar. Você não vai me fazer perder meu filho duas vezes.
Capítulo 1 Verão de 2017- A emergência do falso
Eu sabia que meu relacionamento com Kassen era um pouco conturbado. Além de muito ciumento, ele se tornava cada vez mais agressivo em suas palavras. No entanto, havíamos nos casado há pouco tempo e, para mim, era importante buscar meios de salvar nossa relação. Afinal, todos dizem que existe a “crise dos três anos” e eu gostaria de tentar superá-la.
Começamos a nos ocupar com atividades conjuntas: aumentamos as saídas para jantar e passamos a assistir a séries e filmes todas as noites, tentando reencontrar os motivos que nos levaram ao altar. Posso dizer que íamos muito bem. Ele sempre se fez presente; era um homem que nunca chegava atrasado do trabalho e, por mais que tivéssemos vivido momentos difíceis, não houve um dia sequer em que ele cruzasse a porta de casa sem me trazer uma lembrança — mesmo que fosse apenas um bombom.
Lembro-me de que era uma noite como outra qualquer. Tínhamos acabado de jantar e arrumar a cozinha. Eu já havia tomado banho e me deitado. Kassen foi se preparar para dormir; entrou no chuveiro e tomou um banho demorado, como de costume. Eu estava na cama, procurando um programa legal na TV, quando vi seu celular vibrando no criado-mudo. Ao olhar a barra de notificações, percebi uma mensagem de um remetente, no mínimo, suspeito.
Ele estava recebendo uma mensagem de ninguém menos que: SAMU.
Não que eu tivesse o costume de mexer no celular dele, mas aquela situação me pareceu tão estranha que resolvi ler. Dizia o seguinte: — Te esperei ontem e você não apareceu. Aconteceu alguma coisa?
Naquele momento, foi como se meu coração tivesse parado de funcionar por alguns instantes. Mas eu precisava descobrir o que estava acontecendo, por isso respondi como se fosse ele: — Eu tive um imprevisto que me impossibilitou, mas podemos remarcar. — Aposto que esse imprevisto tem o nome da sua esposa — a resposta veio rápida.
Meu coração gelou. Na hora, minha vontade era de xingar aquela mulher de tudo quanto é nome. Porém, eu ainda precisava descobrir quem ela era. Continuei o papel: — Não é bem assim. Imaginei que você entendesse o quanto isso é difícil para mim.
— Entender, Kassen? Eu entendo, mas quero saber até quando vou precisar continuar entendendo. É sempre assim, nossa relação segue o mesmo padrão: vocês brigam, você me procura, diz que vai colocar um fim em tudo, eu me encho de esperanças e, em seguida, vejo fotos de vocês viajando, rindo... você fazendo milhares de declarações nas redes sociais e eu fico aqui, me sentindo um lixo novamente. É um ciclo infinito porque sempre se repete. Estamos há três anos vivendo essa situação e nada muda.
Aquilo foi um choque tremendo. Três anos? Como assim? Estávamos casados há pouco mais de três anos. Se fosse um caso passageiro, algo de uma ou duas vezes, talvez eu pudesse perdoar. Mas aquilo era uma relação paralela, tão estável quanto o nosso próprio casamento. Senti-me submergindo em um abismo sem saída. Juntei minhas forças e respondi: — Fique tranquila, você não precisará esperar nem um dia a mais para que essa situação se resolva. Eu sou a Leyla, esposa dele, e não existirá mais um relacionamento entre nós.
No instante em que enviei, o número foi bloqueado. Não consegui dizer mais nada do que estava travado na garganta. Quando levantei os olhos, vi Kassen à minha frente. Ainda de toalha, ele me olhava com o celular nas mãos. Parecia preocupado, mas forçou um sorriso: — Está tudo bem?
Olhei para ele de uma maneira que o vi queimar por dentro. Sua respiração se tornou irregular. Ele fez menção de se aproximar, mas eu me levantei, entreguei o aparelho e disse: — O SAMU te mandou mensagem.
Um silêncio pesado se instalou. Eu sentia vontade de voar sobre ele e espancá-lo até entender o motivo de tamanha canalhice. Meus olhos não seguraram a nuvem de lágrimas que desabou. — Agora eu entendo por que você nunca fez questão de que nosso relacionamento desse certo — continuei. — Afinal, você já tinha um estepe. Para você, era indiferente continuar ou parar.
Ele tentou se aproximar. Dei um passo atrás. Ele me olhou nos olhos e disse: — Eu posso explicar.
— Eu não quero explicações. No momento, só quero que você saia.
— Tudo bem. Vou te dar espaço para se acalmar. Quando se sentir melhor, nós sentamos e conversamos.
Fiz um sinal positivo com a cabeça. Ouvi-o mexer em algumas coisas e, logo depois, ele voltou ao quarto, já vestido e com uma mochila nas mãos: — Só quero que saiba que eu te amo muito. Eu fui um bosta e fiz tudo errado; não soube lidar com meus sentimentos. Não há nada que justifique, mas tenho certeza de que conseguiremos nos acertar. Te garanto que isso nunca mais vai acontecer. Vou passar a noite na casa da minha mãe, mas volto no momento em que você estiver pronta para conversar.
Olhei em seus olhos e vi uma profunda tristeza — nas lágrimas que rolavam e no modo como ele parecia querer me abraçar. Mas eu só sentia a muralha que havia se erguido entre nós. — Por favor, saia. Quero ficar sozinha.
Ouvi a porta bater, o motor do carro, o portão se fechando. Foi então que meu mundo, finalmente, desabou.









Essa é uma história empolgante e cheia de fortes emoções