Capítulo 1
Mayara
Desde que cheguei à ONG, só ouço falar do moreno alto e bonito que veio representar uma das empresas colaboradoras na feira de cultura. Eu ainda não o vi, e também não estou interessada em saber da aparência dele. O que me importa é o dinheiro doado pela empresa que ele representa. Toda ajuda é indispensável para mantermos o projeto funcionando.
Sou apenas aluna há oito meses, mas já me sinto tão parte daqui como se fizesse parte da coordenação ou fosse professora. Na verdade, me tornar professora de dança do ventre e dar aulas aqui é a minha meta de futuro. E minha cabeça está totalmente voltada para a minha primeira apresentação solo, que vai acontecer daqui a pouco.
Começo a suar frio só de pensar em uma plateia inteira olhando só para mim. Estou com um medo bobo de errar a coreografia ou até mesmo de prender o pé na barra da saia e cair. Mas, se quero isso para a minha vida, preciso me acostumar com essa sensação e manter o foco. Não quero decepcionar minha professora, que confiou em mim me dando esse solo, e nem a mim mesma.
Sou direcionada a um camarim improvisado atrás do palco, onde encontro a professora Sheila. Ela me ajuda com o figurino e também com a maquiagem, já que não tenho muita destreza para passar delineador nos olhos.
Depois de pronta, me olho no espelho e me surpreendo. O top e a saia verde-esmeralda com detalhes dourados realçam o bronzeado da minha pele, e a maquiagem preta faz meus olhos cor de mel parecerem esverdeados. Meu cabelo escuro cai em ondas até quase a cintura, natural e solto. Não é a primeira vez que me vejo vestida assim, mas agora há um brilho especial em mim.
Espero por meia hora até que meu nome seja anunciado no palco.
— Mayara, fica calma e usa aquele truque de fixar o olhar num ponto só, lembra? — Sheila se aproxima, ajusta a barra da minha saia e me abraça rápido. — Não olha demais pra plateia, principalmente se tiver alguém conhecido. Isso pode te desconcentrar. Boa sorte!
— Obrigada! — respondo, tentando sorrir apesar do nervosismo.
Ao me posicionar no centro do palco, sinto meu coração bater tão rápido que parece ecoar nos meus ouvidos. Tenho tempo de respirar fundo três vezes antes dos primeiros acordes da música árabe soarem. A canção começa lenta e, aos poucos, acelera. A coreografia criada por Sheila se encaixa perfeitamente com essa mudança de ritmo. Me sinto tão sensual ao executá-la...
Sigo à risca o conselho que recebi: fixo o olhar em uma coluna vazia da plateia. Tudo vai bem até o momento da coreografia em que preciso virar de costas. Quando me viro de volta, o espaço onde havia apenas a coluna agora está ocupado. Um homem moreno de olhos escuros me encara com uma intensidade que me faz sentir os joelhos fraquejarem.
Por pouco não erro o próximo passo.
Tento me concentrar e continuo a performance, mas agora meu coração bate ainda mais rápido, e a sensação de frio na barriga só aumenta.
A música chega ao fim. Faço uma reverência à plateia em agradecimento e deixo o palco às pressas.
— Você foi incrível! — Sheila me agarra pelos ombros e me sacode, vibrando.
— Fui mesmo? — pergunto, ainda sem acreditar.
— Não ouviu as palmas no final? Você foi ovacionada!
— De tanto nervoso, nem percebi... — murmuro, limpando o suor da testa com a mão.
— Pode relaxar agora. Deu tudo certo. Estou orgulhosa de você!
— O mérito é todo seu — digo, emocionada.
— Nosso — ela corrige, sorrindo. — Agora vai trocar de roupa pra gente aproveitar a feira e assistir às outras apresentações.
Troco a roupa, mas mantenho a maquiagem e o cabelo solto.
Sheila e eu paramos para lanchar em uma das barracas de comida típica — cada uma representando um estado do Brasil — antes de irmos assistir ao resto das apresentações. No momento, está acontecendo uma de carimbó.
De repente, meu celular toca. Vejo que é minha mãe e me afasto um pouco para atender, pois o barulho do ambiente é alto com música, conversas e risadas.
— Oi, mãe! A senhora já chegou em casa? A Laura tá bem? — pergunto, quase gritando para ser ouvida.
— Que nada! — ela responde aflita. — A bichinha tá queimando de febre! Vou levar ela na UPA. Você já dançou? Pode ir comigo?
— Claro! Já me apresentei. Tô indo pra casa agora — digo, encerrando a chamada com o coração apertado.
Volto correndo para avisar a Sheila.
— Preciso ir, minha irmãzinha tá doente.
— Eu te levo no meu carro — ela se oferece de imediato.
— Não precisa, de verdade. A gente vai de condução mesmo — recuso, sorrindo.
— Tem certeza? — ela insiste, preocupada.
— Tenho, fica tranquila. Aproveita a feira por mim depois e me conta tudo.
— Tá bom... Vai com Deus. Melhoras pra sua irmã. Qualquer coisa, me liga! — Sheila me abraça apertado antes de me deixar ir.
Agradeço novamente, me despeço e saio da sede da ONG.
Minha casa não fica longe; se não aparecer nenhuma van, irei a pé mesmo.
O final de tarde pinta a cidade de São Monteiro, região metropolitana do RJ, com tons dourados. O frio da noite começa a se infiltrar, aquela dualidade típica do outono.
Quando estou dobrando a esquina da rua, vejo uma van e faço sinal para embarcar. Assim chego mais rápido.
Meus pais são separados. Moro com minha mãe — caixa de supermercado —, minha avó aposentada e minha irmãzinha de cinco anos. Laura e eu não somos filhas do mesmo pai. Infelizmente, ela não teve muita sorte com o dela. O ex da minha mãe mal cumpre com a pensão. Todo mês é um drama. Já com meu pai, nunca tive esse problema. Mesmo morando em outra cidade agora, ele sempre se fez presente.
Assim que entro em casa, Laura corre para o meu colo.
— Ô, minha maninha tá dodóizinha... — murmuro, abraçando seu corpinho quente.
— Hoje ela não deixou fazer nem um penteado — comenta minha avó Dulcinéia, suspirando.
— Não tem problema. Vou colocar a touquinha nela — digo, ajeitando seus cachinhos bagunçados.
Sou completamente apaixonada pela minha irmã desde a barriga da minha mãe. Depois que ela nasceu, o amor só cresceu. Durante a infância dela, fui quase uma segunda mãe, cuidando quando minha avó ainda não era aposentada.
Na UPA, a sala de espera está cheia. Laura se aninha no meu colo, exalando calor por causa da febre. Cada vez que ela adoece, meu coração se parte.
Durante a longa espera, a lembrança do homem da plateia surge como um flash. Seu rosto, seus olhos... Era impossível não reparar nele. Tão alto, parecia fazer parte da coluna onde estava encostado.
Nunca tinha visto um homem que me encantasse daquele jeito. Seu olhar parecia me tocar enquanto eu dançava, como se estivéssemos só nós dois ali.
Balanço a cabeça, tentando afastar a imagem.
Não é hora para sonhar acordada com alguém que nem conheço. Talvez nem fosse real... Eu estava nervosa, podia ter imaginado.
Quase três horas depois, Laura é finalmente atendida. Diagnóstico: infecção de garganta. Ela toma uma injeção na hora e recebe uma receita para continuar o tratamento em casa.
Minha irmã é corajosa e encara a agulha sem choramingar.
Após a consulta, passamos na farmácia e seguimos para casa. A febre dela já começa a ceder.
— Graças a Deus que chegaram! — diz vovó, nos recebendo com o terço na mão. — Mas antes de rezar, fiz uma sopa de legumes, carne e macarrão pra gente jantar.
— Nem precisava falar, o cheiro tá invadindo a rua! — comento, rindo.
— Nossa, tô faminta e exausta — minha mãe suspira, ainda de uniforme do mercado.
— Também quero sopinha — diz Laura, animada.
— A garganta parou de doer? — pergunto, acariciando seus cabelos.
Ela assente com a cabeça.
— Então vamos lavar as mãos antes de comer — incentivo.
Depois do jantar, Laura adormece rapidamente. Minha mãe e minha avó também vão se deitar. Fico sozinha na cozinha, lavando a louça.
Enquanto ensaboo os pratos, penso na vida. Em breve completarei 21 anos.
Depois de terminar o ensino médio, fiz um curso de informática na mesma ONG onde agora faço aulas de dança do ventre. Trabalho como garçonete em buffets de festa, mas é um bico, nada fixo. Ainda assim, é um dinheiro honesto.
Meu grande sonho? Integrar o time de professores da ONG Janela da Esperança, que sobrevive graças às doações de empresas privadas.
E eu vou chegar lá.








