"PRÓLOGOS NAS VERSÕES DE PADRE GIORGIO BIANCHI RICCI E PRINCIPESSA ALCÂNTARA LEMOS
"PRÓLOGO NA VERSÃO DE PADRE GIORGIO BIANCHI RICCI”
“ANTES DO PECADO”
“Há prisões que se constroem dentro da própria alma, e amores que trazem consigo tanto o inferno quanto a redenção.”
Sou padre. Não por vocação. Não por fé. Pelo menos, não no começo.
Entrei para a Igreja porque era o único lugar onde poderia me esconder de mim mesmo. Meu nome é Giorgio Bianchi Ricci, e o que me habita... é perigoso.
Não sou um santo. Nunca fui.
Já fui homem de prazeres doentios, de vícios da carne, de um sadismo tão íntimo e silencioso que ninguém nunca desconfiou. Nenhuma mulher saía ilesa do meu toque. Nenhuma.
Eu as possuía como se a posse fosse um direito natural. Marcava. Feria. E o pior de tudo... gozava com isso.
Até que um dia, percebi que não conseguiria parar. Não importava o rosto, o corpo, o nome. Não importava o pedido de “não”. Algo em mim queimava mais do que o controle.
Por isso fui forçado a entrar no seminário aos dezoito anos. Meus instintos carnais, animalescos, inconcebíveis e completamente doentios, forçaram-me a abrir mão de minha sexualidade. E achei que a única forma de conseguir controlar-me era tornando-me padre.
Ao completar a maioridade, comuniquei aos meus pais e irmãos o meu desejo pelo sacerdócio. Como todos nós sempre fomos católicos bastante praticantes, nem sequer ousaram questionar a minha decisão.
Ficaram imensamente felizes por saber que um de seus filhos—justamente o caçula— o mais frágil e suscetível — queria seguir o sacerdócio. Permaneci oito anos me preparando como era de praxe até que, fugindo de mim mesmo, fui ordenado um sacerdote.
Não foi fácil. Foram anos de clausura, oração, silêncio e ódio de mim mesmo. Cada manhã era uma batalha. Cada mulher que se aproximava era uma ameaça. E cada confissão de pecado carnal era um espelho — me devolvendo aquilo que tentava matar dentro de mim.
Na penumbra de minhas próprias memórias, visto-me de santidade para sufocar um passado que insiste em pulsar dentro de mim. Sadismo, culpa e desejo: uma tríade que quase me destruiu antes de abraçar a batina como penitência.
Busquei no sacerdócio a única forma de sobreviver a mim mesmo. Todavia, não encontrei a pureza. Encontrei disciplina.
Aprendi a dominar o fogo. Contudo, nunca consegui apagá-lo.
Mesmo após trinta e nove anos de abstinência, o monstro continua vivo. Adormecido, talvez. Morto, jamais. Nunca me curei. Apenas aprendi a mantê-lo acorrentado.
Trinta e nove anos sem transar com ninguém. Sem meter. Sem tocar em um corpo nu.
Trinta e nove anos com um demônio dentro de mim que, de tempos em tempos, ressurge — principalmente nas madrugadas em que acordo com o pau duro e latejante, sentindo cheiro de sexo no ar, mesmo que não haja ninguém ali.
Posso dizer que desde seminarista até hoje, graças ao meu Bom e Misericordioso Deus, nunca mais voltei a tocar em uma mulher. Porque após alguns anos de sacerdócio, felizmente estas sensações amaldiçoadas, que me consumiam por dentro passaram a ser cada vez mais esporádicas e aprendi a dominar-me.
Parece que com o passar do tempo, dedicar-me ao Pai e aos meus irmãos em Cristo com todo o meu ser, atenuou em mim a malícia. Afinal de contas, com os inúmeros compromissos que assumo, mal tenho tempo para respirar, quanto mais pensar em sexo.
Ao menos é o que tento acreditar. Mas, quando me encontro sozinho, sinto, em raros segundos, o calor antigo percorrer-me as veias, como uma serpente despertando no silêncio.
A estrada diante de mim é apenas um borrão. Os faróis iluminam faixas cinzentas e retorcidas, no entanto, meus olhos ardem com o peso das memórias.
Minha boca está seca, como se ainda buscasse o gosto de um pecado perdido no tempo. Estou remoendo mentalmente tudo o que ouvi. E tudo o que escondo.
Por fora, sou o sacerdote exemplar. Por dentro, sou um animal enjaulado. Um predador adormecido. Que luta todos os dias para não abrir os olhos.
Porém, a jaula está velha. O cadeado, enferrujado. E algo me diz que, em breve... vai arrebentar.
Respiro fundo, e o ar parece me queimar por dentro. Cada inspiração traz consigo ecos de vozes femininas, que um dia gemeram entre dor e prazer sob minhas mãos. Tento expulsar.
Tento rezar. Entretanto, elas retornam como sombras.
Minha mente é uma prisão de aço. As paredes estão cobertas de marcas, como se meu próprio desejo tivesse arranhado sua superfície.
E, por mais que me esforce, ainda sinto a serpente adormecida se movendo em meu sangue, enrolando-se em meu coração.
Porque mesmo com a batina ou clergyman, mesmo com a cruz no peito, há noites em que a lembrança me visita como amante proibida.
Como uma amante que nunca desapareceu completamente. Apenas… se escondeu, esperando somente a melhor oportunidade para reaparecer, despertando com força absoluta.
O ronco do motor acompanha o ritmo da minha respiração. Meus dedos apertam o volante como se fosse um rosário de ferro. Tento concentrar-me na estrada, entretanto, a mente, insiste em me levar para dentro.
Revejo as celas estreitas do seminário, as longas orações da madrugada, o jejum, a disciplina. Todos os mecanismos que inventei para calar a carne. E, por um tempo, funcionou. Ou eu quis acreditar que funcionava.
Hoje, sei que apenas adormeci o desejo. E a cada dia que passa, percebo o perigo de acordá-lo. Até porque ele já começou a emitir os seus sinais.
Aperto o volante com mais força ainda e me obrigo a voltar à realidade. Eu sou um padre.
Tenho uma missão. Não posso mais permitir que esse lado me domine.
Por anos, pensei que havia encontrado a paz nesse autoexílio espiritual, até o momento em que ela cruza meu caminho. Porque nada — nada mesmo — me preparou para ela.
Principessa Alcântara Lemos.
O nome já é poesia e o corpo sedução. Entretanto, o que me desestabiliza não é seu corpo. É o que há por trás dele: a fragilidade com que ela tenta parecer forte.
A mulher com jeito de menina é a primeira pessoa em anos a me desarmar. Ela está desesperada.
Fome nos olhos. Vergonha nas palavras. E mesmo assim, há algo limpo nela.
Uma força quieta. Uma beleza sem maquiagem, sem poses. Uma beleza real. E real demais para mim.
O que sinto... não é dever.
É um pavor antigo, que há tempos não visita o meu corpo.
Desejo. Um desejo sujo. Um desejo que reprimo com todas as forças. E é aí que começa o meu novo calvário.
Com os olhos que refletem a luz celestial e o corpo que exala a tentação do inferno, ela encerra a última ilusão de serenidade, destruindo as últimas barreiras — que com tanto esforço — eu havia construído para proteger o que ainda resta em minha alma.
Observo-a em silêncio, tentando resistir ao desejo brutal que cresce dentro de mim. Cada movimento seu é um passo meu rumo ao pecado, cada sorriso, uma promessa de perdição. Cada passo que dá é um convite, cada palavra um veneno doce que me consome, fazendo com que a batalha que travo dentro de mim seja feroz.
De um lado, a devoção a Deus e a promessa de uma vida sem pecado; do outro, o desejo insaciável de possuí-la, de explorar seus limites e ultrapassar todas as barreiras da moralidade. Quem sou eu, porém, para resistir a ela?
Quando seu olhar encontra o meu, sinto tudo se desintegrar à minha volta. A tentação é imensa, e me pergunto: Será este o caminho da redenção ou da perdição eterna?
Ela não é apenas minha tentação. É a sedução viva que pode me conduzir do abismo do pecado para a liberdade do amor. Mas, será que, ao ceder a ela, estou condenando a mim mesmo? Ou, quem sabe, finalmente alcançando a redenção que nunca soube que merecia?
Ela é o alvorecer de minha tentação, a materialização do pecado que tanto tento fugir. Talvez, com ela, possa finalmente passar da escuridão do pecado para a luz do amor, ou talvez, eu apenas sucumba à perdição.
Nada mais será igual. E ao reconhecer isso, sinto que a queda já começou.
“PRÓLOGO NA VERSÃO DE PRINCIPESSA ALCÂNTARA LEMOS”
“O FOGO QUE MOVE TUDO”
“O destino, às vezes, se disfarça de pecado, apenas para nos ensinar a intensidade do amor.”
Minha vida sempre foi marcada pela sede de liberdade, por uma busca incessante por algo que seja maior do que a rotina fria do mundo ao meu redor. Carrego em mim cicatrizes invisíveis, segredos que nunca confessei e uma fome de viver que beira a imprudência.
Uma mulher marcada por perdas, carência e desilusões. Não busco o amor, nem a luxúria. Procuro apenas um recomeço, um respiro. Quando o destino me coloca sob os cuidados de Giorgio, não imagino que acabarei dividindo a casa — e o coração — com um homem dividido entre o céu e o inferno.
Não sou santa, nem pretendo ser. Apenas mulher — de carne, desejo e sonhos.
Não o procuro. Não planejo cruzar o caminho de um homem como ele: um sacerdote, envolto por uma aura de mistério e silêncio, como se carregasse em si os segredos de todos os céus e infernos. Mas, quando nossos olhares se encontram, não há como voltar atrás.
Sinto-me desnudada diante de sua presença, como se ele enxergasse em mim não apenas a mulher que o mundo vê, porém, a essência que até eu mesma escondo.
Entre nós nasce algo proibido, tão arrebatador quanto perigoso.
Sei que, ao me aproximar dele, posso destruir sua fé, abalar seu mundo e talvez perder o meu. Todavia, também sei que há uma promessa oculta nesse risco: A de viver um amor que desafia tudo — o certo, o errado, o divino e o profano.
O que será de nós? Um mergulho no abismo do pecado... ou... a descoberta de uma redenção feita de paixão?








