Onde O Amor Permanece: Entre Honra E Desejo by MidnightCamille at Inkitt
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Onde o Amor Permanece: Entre Honra e Desejo

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Summary

Elara nunca imaginou que sua vida mudaria no instante em que os homens do rei chegaram à sua aldeia. Arrancada de tudo o que conhecia, ela é colocada sob a responsabilidade de Edrik, o temido Capitão da Guarda de Sangue, um homem criado desde a infância para obedecer, lutar e jamais questionar as ordens da Coroa. Sua missão é simples: conduzi-la até o Castelo de Cinzas. Mas Elara não pretende chegar até lá sem lutar. Durante a viagem, entre tentativas de fuga, confrontos e uma proximidade cada vez mais perigosa, Edrik começa a enxergar nela mais do que uma prisioneira. E Elara descobre que, por trás da frieza do capitão, existe um homem marcado por feridas tão profundas quanto as suas. Dividido entre a lealdade ao rei e o desejo de protegê-la, Edrik terá de escolher entre cumprir a ordem que guiou toda a sua vida ou trair tudo o que conhece. Em um reino governado pelo medo, onde amar pode ser considerado traição, honra e desejo jamais deveriam caminhar lado a lado.

Status
Ongoing
Chapters
7
Rating
n/a
Age Rating
18+

Lythar






O vilarejo de Lythar acordava devagar, sem saber que naquele dia começaria o fim da vida que Elara conhecia.

O sol ainda não tinha rompido completamente a névoa da manhã quando ela atravessou a pequena praça com o cesto apoiado no antebraço. Lythar ainda guardava o silêncio de um lugar pequeno, mas havia um novo vigor pulsando sob sua superfície. O chão de terra batida, marcado por pegadas antigas e sulcos de rodas de carroça, agora parecia mais largo, talhado pelo movimento crescente de quem já não produzia apenas para a própria mesa, mas para o reino além das colinas.

Havia um cheiro reconfortante de pão recém-assado escapando do forno comunal ao lado da fonte, o coração de pedra de Lythar que, embora antigo, agora via novas vigas de madeira clara sendo erguidas nos arredores para ampliar os celeiros. Era um lugar que começava a crescer, esticando-se como um jovem que desperta para a própria força. O murmúrio das vozes que iniciavam o dia já não era apenas um sussurro de vizinhos, mas o som de um vilarejo transformado pela agricultura que florescia ao redor, atraindo olhares que o vilarejo nunca pensou em receber.

Entre as casas de teto de palha e as novas construções que cheiravam a serragem fresca, o aroma da terra úmida misturava-se ao da cevada estocada. Lythar ainda era um lugar íntimo, onde cada rosto era conhecido, mas a riqueza que brotava de seus campos de trigo era estratégica demais para passar despercebida. Era essa promessa de abundância, ainda em seu início, que trazia o rastro de poeira da comitiva real pela estrada, mudando o destino daquelas ruas de terra.

Ela conhecia cada pedra daquele lugar. Não porque fosse especial, mas porque nunca saíra dali.

— Elara! — a voz da Senhora Mira cortou o silêncio da manhã, vinda da porta de uma das casas próximas à fonte. — Esse cesto é para mim?

— É sim, Senhora Mira — respondeu ela, erguendo o cesto. — Minha tia mandou as frutas e as raízes que vocês pediram ontem.

— Ótimo, minha filha. — A mulher se aproximou, os olhos já avaliando o conteúdo com a praticidade de quem vive contando cada grão. — Diga à sua tia que pago na próxima feira, quando o trigo for vendido.

— Eu digo.

A senhora hesitou antes de pegar o cesto, a mão trêmula demorando mais do que o necessário. Elara notou e não disse nada. Apenas segurou o cesto um pouco mais alto, no ângulo certo para facilitar o gesto da mulher mais velha, e esperou com uma paciência que não era forçada.

— Você é boa menina — disse a Senhora Mira, baixinho, quase para si mesma.

Elara apenas sorriu e continuou seu caminho.

Elara crescera em Lythar como uma flor rara entre pedras: impossível de não notar, mas cercada por mãos que acreditavam protegê-la ao mantê-la fora de alcance. Órfã desde pequena, fora criada pela tia, uma mulher correta e prática que logo entendeu que a beleza da sobrinha seria tanto uma bênção quanto um fardo. A tia lhe oferecera teto e comida, mas erguera muros de silêncio e rotinas exaustivas ao redor da menina, como se quisesse ocultar o brilho de Elara sob a poeira do trabalho braçal. Nunca houve perguntas ou abraços. Não era crueldade; era uma forma bruta de proteção, ou talvez apenas o medo do destino que uma moça com aquele rosto costumava atrair.

Desde cedo, Elara aprendera que seu reflexo na água da fonte era algo a ser vigiado. Sentia os olhares dos rapazes do vilarejo pesarem sobre suas costas e ouvia o murmúrio das mulheres quando passava, vozes que oscilavam entre a admiração e a desconfiança.

— Aquela ali devia ter cuidado — ouvira ela dizer, uma vez, duas mulheres mais velhas perto do poço, sem saber que ela escutava. — Rosto desses atrai problema.

Ela não havia respondido. Apenas seguira andando, com a postura de quem já decidira, muito jovem, que não daria a ninguém a satisfação de ver que aquilo doía.

Ela se tornara uma presença marcante, porém intocável; uma beleza que todos em Lythar conheciam, mas que ninguém ousava reivindicar, até que o estandarte real cruzasse a praça e os olhos de Vaelor encontrassem o que o vilarejo tentara, em vão, manter em segredo.

Alheia ao que estava por vir, Elara movia-se naquela manhã com a agilidade de quem conhece cada centímetro daquela terra. Vestia um vestido simples, de tecido rústico e pesado, já gasto pelo uso constante. O cabelo castanho-escuro, levemente ondulado e comprido até a cintura, estava preso de qualquer jeito, com mechas rebeldes escapando para moldar um rosto de traços delicados. Os olhos tinham um azul vibrante, próximo ao turquesa, que parecia capturar toda a luz do ambiente, e uma constelação de sardas leves espalhava-se sobre o nariz com uma delicadeza que o sol nunca conseguira apagar completamente.

Ela não pensava em beleza. Sua mente estava ocupada apenas em terminar o que precisava ser feito antes que o sol subisse demais.


Ela se movia com uma graça natural, carregando o peso do dia com uma agilidade prática, totalmente alheia ao fato de que aquela paz e aquele rosto seriam, em breve, tudo o que restaria de um mundo prestes a desaparecer sob o galope de cavalos de guerra.

Foi então que o som mudou.

Primeiro, um silêncio estranho, como se o vilarejo tivesse prendido a respiração. Depois, o ruído metálico, ferraduras contra pedra, vozes firmes demais para serem locais, o estalar de couro novo.

— É a comitiva real! — gritou alguém, mais à frente, e o murmúrio cresceu como uma onda se formando.

Elara ergueu o olhar.

Não era comum ver a comitiva real em Lythar. O vilarejo era pequeno, valorizado mais pela posição das terras e pela produção de grãos do que por qualquer importância política.

Ela parou à beira do caminho, como todos os outros.

Homens armados vinham à frente, montados em cavalos altos, bem cuidados. Atrás deles, carruagens escuras, bandeiras que não pertenciam àquele lugar. E, ao centro, um cavalo maior, conduzido por um homem que não precisava ser anunciado para ser reconhecido.

— É ele — sussurrou uma mulher ao lado de Elara, a voz baixa pelo respeito, ou pelo medo, ou pelas duas coisas misturadas de um jeito que ninguém sabia separar. — Olha como ele nem precisa de coroa para parecer rei.

Rei Vaelor não era um homem velho, mas o peso do tempo e de decisões implacáveis parecia ter se instalado permanentemente nas dobras de seu olhar. Vaelor era alto e esguio sob as vestes ricas. À primeira vista, poderia parecer frágil, não fosse pela tensão que emanava dos ombros angulares e pela economia de gestos com que desmontou, transformando cada movimento numa declaração de poder. Não havia força bruta de guerreiro naquele corpo, mas algo mais perigoso: uma elegância afiada, como uma lâmina fina disfarçada em veludo.

Seus cabelos eram de um preto profundo, compridos sobre os ombros, porém raleados no topo, revelando a fragilidade que a coroa tentava esconder. Enquanto seus olhos castanhos varriam a praça com uma atenção predatória, como se cada grão de trigo e cada alma ali presente lhe pertencessem por direito divino, a boca se curvava num sorriso cínico, uma careta habituada a mascarar o tédio com o desdém.


— Lythar — disse ele, a voz cortando o murmúrio coletivo sem esforço. — Um vilarejo que decidiu se tornar relevante demais para ser ignorado. Interessante.

Ninguém respondeu. Ninguém ousaria.

Ela baixou os olhos, como era costume. Mas Vaelor não baixou os dele.

O olhar do rei a encontrou por acaso, ou assim pareceu, e permaneceu nela por um segundo a mais do que o necessário. Um instante que não deveria importar. Mas importou.

Quando finalmente seguiu adiante, inclinou a cabeça para um dos homens da comitiva. O gesto foi pequeno, mas o soldado imediatamente reduziu o passo.

Elara sentiu um arrepio inexplicável. Não medo, exatamente. Algo mais sutil. Como se tivesse sido observada sem consentimento. Ela ajustou o cesto no braço e deu alguns passos para trás, misturando-se à multidão.

Quando Elara finalmente tornou a erguer o olhar, o rei já seguia adiante. Elara não percebeu que, por ordem de Vaelor, um dos homens da comitiva havia reduzido o passo e permanecido para trás. Ele observara cada detalhe: o cesto pesado, a postura cansada mas digna, e o caminho que ela tomava, afastando-se do burburinho próspero da praça em direção ao silêncio das árvores.

— Aquela ali — murmurou ele, sem se virar completamente, para o batedor que cavalgava próximo. — A que está indo em direção à floresta.

— Majestade?

— Descubra onde ela mora. — A voz era baixa, mas carregava o peso de uma ordem que não admitia hesitação. — Discretamente. — E marque o acesso à casa com uma das adagas de campo — acrescentou Vaelor. — Quero que meus homens encontrem o lugar sem chamar atenção.

O batedor inclinou a cabeça, sem fazer perguntas. Enquanto a comitiva retomava o movimento, ele reduziu o ritmo do cavalo e ficou para trás, observando a estreita trilha por onde a jovem havia desaparecido. Pouco depois, viu-a surgir entre as árvores e entrar em uma pequena cabana de madeira escondida na orla da floresta.

Um sorriso quase imperceptível cruzou seu rosto.

Só então voltou até a última estaca de madeira que delimitava o início da trilha. Retirou do cinto uma pequena adaga de ferro enegrecido, estreita e sem qualquer ornamento. Não era uma arma destinada ao combate, mas uma das lâminas usadas pela Guarda de Sangue como sinal de campo.

Com um movimento rápido, cravou a ponta na face oculta do poste, deixando o cabo inclinado na direção da cabana.

Para qualquer morador de Lythar, pareceria apenas uma lâmina velha esquecida na madeira. Para um homem treinado no Castelo de Cinzas, o ferro escurecido indicava um alvo marcado, e a posição do cabo mostrava o caminho.

Elara entrou em seu refúgio sentindo um arrepio súbito subir pela espinha, o tipo de frio que nem o sol conseguia afastar.

— Que bobagem — murmurou para si mesma, tentando descartar a sensação. — É só um rei passando. Não tem nada a ver comigo.

Mas a frase não trouxe o conforto que deveria. Ela trancou a porta, sem saber que, naquele dia, sua solidão na orla da floresta fora transformada em uma armadilha. Sua casa fora marcada.

---

Dias depois, enquanto Lythar retomava lentamente a rotina, o aço voltou a cantar no pátio do Castelo de Cinzas.

O pátio estava quase vazio àquela hora. O sol ainda não alcançara completamente o chão de pedra, e o ar era frio o bastante para fazer a respiração aparecer em pequenas nuvens.

Edrik não precisava de plateia. Treinara a vida inteira sem aplausos, ele se movia como alguém que aprendera cedo demais que hesitação mata. Cada golpe era calculado. Cada defesa, exata. O som da lâmina cortando o ar era constante, quase hipnótico.

Ele não possuía lembrança da mãe. Sabia da história porque lhe fora contada como aviso: arrancado de seus braços aos três anos, ela morrera resistindo. Por algum tempo, isso foi comum naquele reino: crianças fortes eram transformadas em armas. Ele não guardava imagens, guardava consequências. Aprendera que obedecer era mais seguro do que falar. Aprendera a não chorar. Aprendera que afeto enfraquece. Por isso, quando diziam que ele não tinha coração, ele não se ofendia. Nunca lhe explicaram o que era ter um.

Ele parou o treino quando ouviu passos. Um mensageiro se aproximava, acompanhado de um oficial.

— O Rei chama — disse o homem, sem cerimônia.

— Agora?

— Agora.

Edrik limpou o suor do rosto com o antebraço, embainhou a espada e assentiu. Chamados assim nunca eram convites.

No salão principal, o Rei Vaelor o aguardava com o habitual cinismo estampado no rosto esguio.


— Tenho uma missão para você — disse o rei, indo direto ao ponto. — Quero que traga uma jovem de Lythar.

Edrik manteve-se imóvel, a postura rígida de um soldado de elite.

— Que tipo de missão, Majestade? Prisioneira de guerra? Testemunha?

— Nenhuma das duas. Algo mais simples. E mais importante para mim.

— Você encontrará a casa na orla da floresta — instruiu o Rei. — Pedi para um soldado deixar uma marcação simples na entrada, algo discreto o suficiente para passar despercebido por olhos comuns, mas que você saberá identificar assim que chegar.

Edrik ouviu atentamente.

— Ela é jovem e bela, mas o que a denuncia é algo que nenhuma marcação ou sombra pode esconder: a cor de seus olhos. É uma tonalidade rara, profunda. Assim que a encarar, saberá que é ela.

— Algum nome, Majestade? Para facilitar a identificação caso a marcação falhe.

— O nome não importa. A casa está marcada. E os olhos eliminarão qualquer dúvida.

— Ela deve chegar ilesa. Viva. Sem marcas. E quero discrição. Nenhum alarde em Lythar.

— Como desejar — disse Edrik.

— Quando parto?

— Hoje.

Ele virou-se para sair, mas a voz do Rei o deteve.

— Edrik.

O guerreiro parou.

— Poderia mandar qualquer homem — disse Vaelor. — Mas não confio em qualquer homem para trazê-la intacta.

Não questionou a ordem. Não procurou um motivo. Apenas a transformou em tarefa.

Enquanto o sol subia sobre Lythar, iluminando as ruas simples e a vida modesta de Elara, um destino começava a se mover na direção dela. Silencioso. Inevitável. E nenhum dos dois sabia que aquele era o último dia em que suas vidas seriam comuns.

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